Mostrar mensagens com a etiqueta epicurismo. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta epicurismo. Mostrar todas as mensagens

sábado, 13 de julho de 2013

Cinco dias, cinco países: Itália

Há lugares em Itália que parecem respirar ainda aquela atmosfera belle-époque dos filmes de Visconti. O lago de Lugano, ou Ceresio, é um deles.


À beira-lago, naturalmente, as casas têm os seus ancoradouros e pequenas praias artificiais. Há até quem, não tendo casa à beira-lago, tenha tudo o resto:

(San Mamete, Junho 2013)

quarta-feira, 13 de junho de 2012

Elogio da preguiça

Sempre soube que sou preguiçosa. Mais do que dinheiro, aprecio o tempo, e por isso provavelmente nunca serei rica, ao contrário dos meus colegas que trabalham até altas horas da noite - quando as pessoas dizem que os médicos ganham muito, esquecem-se de que para isso se fartam de trabalhar em dois ou três sítios, incluindo as urgências hospitalares.

A preguiça é na realidade uma organização idiossincrática de prioridades, e se num determinado momento é mais importante ler um artigo de jornal do que varrer a cozinha, isso será condenável?

Por outro lado, manter a imobilidade perante a evolução de um problema pode ser a melhor maneira de o encarar. Sir Harold Gillies, considerado o pai da cirurgia plástica, costumava dizer*: Do not do today what you can honourably put off until tomorrow, ou seja, deixa a situação definir-se antes de intervires. Um conselho que já me tem sido muito útil.

Ora eu tenho andado com preguiça para tratar do jardim, e sobretudo para podar e arrancar ervas que não convidei a instalar-se por aqui.


Estas têm crescido imenso, ocupando por exemplo uma boa parte do canteiro das violetas. Mas agora floriram e eu estou toda contente por não as ter arrancado, porque são mesmo lindas.

(Albufeira, Junho 2012)




* citado por D. Ralph Millard in Principalization of Plastic Surgery, Boston/Toronto, 1986, pg. 17, 402

terça-feira, 3 de janeiro de 2012

Privilégio

Apesar de tudo, é um privilégio viver numa cidade onde se vê o sol levantar-se e pôr-se sobre o mar.

(Albufeira, Dezembro 2011: madrugada)


(Albufeira, Janeiro 2012: poente)

quinta-feira, 17 de novembro de 2011

Pátios andaluzes

Há valores de que os espanhóis não prescindem: falar alto, cervejas ao fim da tarde, a siesta e os pátios andaluzes.
Bem hajam.

(Ronda, Novembro 2011)


(Cordoba, Novembro 2011)

terça-feira, 11 de outubro de 2011

Mitologia dos direitos

Mais uma vez ouvi hoje alguém reclamar um direito. E lembrei-me de Epicuro, que classificava os desejos em naturais e necessários (a fome, a sede), naturais mas desnecessários (desejo de boa comida ou bebida, de amizade) e nem naturais nem necessários mas devidos a opiniões erradas (desejo de riqueza, de glória).

Da mesma forma parece-me que há direitos fundamentais - e talvez estes se resumam aos registados na Declaração de Independência americana (vida, liberdade, procura da felicidade) - e outros que podem ser concedidos pela sociedade na medida em que tenha os meios para os assegurar - habitação, segurança, educação básica -, e que, numa sociedade de abundância podem ser extremamente sofisticados.

Mas há falácias que não se deviam permitir, e uma delas é o direito à saúde. Ninguém tem direito à saúde: pode-se ter direito a cuidados médicos mais ou menos diferenciados, mas a saúde não está garantida, e a diferenciação dos cuidados médicos a que se pode ter direito depende da sustentabilidade do sistema de saúde.

É assim a vida fora dos cinemas e das séries de televisão.

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

Saudades do verão

Idade

Conheci dias duradouros,
o sol tão longo entre manhã e tarde.
Um levantar súbito de luz
por trás da crista das heras no muro velho,
e depois descer no verão entre grades verdes
e para além do portão como a cair no Hades,
no inverno. Não havia tempo
nos dias longos, mas a passagem diária
do sol abençoado.


Fiama Hasse Pais Brandão, in Três Rostos, Lisboa, 1989

encontrado aqui, na sequência desta conversa.

segunda-feira, 10 de maio de 2010

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

Canções da minha vida

Esta canção marcou-me: o texto é todo ele lindíssimo, e o conceito de que viver bem é a melhor vingança não me deixou mais.

sexta-feira, 7 de agosto de 2009

quarta-feira, 8 de julho de 2009

Chato

Chato é que quando não se trabalha não há dinheiro para o ócio, e quando se trabalha não há ócio.

terça-feira, 17 de março de 2009

Primi, secondi e contorni

Ristorante alla Rampa
É tão bom comer numa esplanada mesmo no Inverno. Adoro estes aquecedores. A gastronomia quase nunca correspondeu, infelizmente, apesar da proximidade dos jardins de Lucullus, esse homem refinadíssimo a quem devemos a importação das primeiras cerejas. A pensar no turista semi-culto, até se inventou um vinho de Falerno tinto!

Ristorante Le Grotte

(Restaurantes de Roma, Março 2009)

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009

Hoje é dia de Epicuro

Uma das personagens do cartoon do JB no DN de hoje celebra o dia 20 por nenhuma razão especial, ou antes, porque não se passa nada.

Para os epicuristas (entre os quais cada vez mais me incluo), o dia 20 de cada mês é especial, pois nesse dia, de acordo com as instruções do mestre no seu testamento, os seus discípulos deveriam reunir-se em sua memória.

Filodemo, o filósofo deste Jardim, convida assim* o seu patrono Pisão, sogro de Júlio César, para uma dessas comemorações:

Amanhã pela nona hora, amigo Pisão,
o teu poeta arrastar-te-á à sua casa modesta,
para as comemorações do dia vinte.
Não encontrarás úberes de porcas nem vinho de Chios,
mas sim companheiros sinceros, e ouvirás palavras
mais doces que na terra dos Feáceos.
E se voltares o teu olhar para nós, Pisão,
tornar-se-á rica a humilde festa.

in David Snider, The Epigrams of Philodemus, 1997, pg 152


* prometo rever a tradução durante a próxima semana.

quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

Epitáfio

No Bandeira ao Vento o JB fala-nos do epitáfio que Benjamin Franklin imaginou para si próprio.
Há cerca de dois meses o Samizdata perguntava aos seus leitores o que escolheriam como epitáfio.
Já há muito tempo sei exactamente o que quereria para mim; e o meu desejo, hoje em dia, é merecê-lo.

Vixit, dum vixit, bene.

P. Terentius Afer, Hecyra, Acto III;461

quinta-feira, 24 de julho de 2008

O Jardim de Filodemo

Talvez seja altura de explicar o título deste blog.

No mundo mediterrânico antigo, a vida fazia-se predominantemente ao ar livre. Os filósofos ensinavam em parques ou pórticos, e diz a tradição que Epicuro ensinava no jardim da sua própria casa, tendo ficado conhecido como o filósofo do Jardim (como Platão era da Academia, ou Aristóteles do Liceu).

No fim da república Romana, possivelmente a época mais interessante da antiguidade clássica, a filosofia de Epicuro florescia. Os Romanos cultos libertavam-se do medo dos deuses, do medo da morte e do medo do sofrimento, aprendendo que o sentido da vida era a procura do prazer*. Enquanto os seus detractores, entre os quais Cícero, os denegriam reduzindo-os a um bando de amigos de boa farra, havia homens muito influentes que eram epicuristas e levavam a teoria a sério: entre eles Lúcio Calpúrnio Pisão Cesonino, consul em 58, censor em 50, sogro de Júlio César, que se tornou patrono e anfitrião de Filodemo de Gadara, filósofo e divulgador de Epicuro.

Na magnífica casa de Pisão em Herculano, conhecida hoje como Villa dos Papiros (ver filme aqui), Filodemo viveu, escreveu e fez escola, influenciando entre outros os poetas Horácio e Virgílio.

É a esta escola que chamo Jardim de Filodemo; com esse nome criei um grupo num site onde durante alguns anos discuti intensamente história antiga. O grupo teve altos e baixos, mais baixos que altos, e quando a certa altura comecei a desligar-me do site em geral (por o seu rumo se ir afastando da história antiga) e criei este blog, resolvi dar-lhe o mesmo nome.


(Vesúvio e baía de Nápoles, Junho 2003)
*Princípio aparentemente adoptado na Declaração de Independência americana, que reclama entre os direitos inalienáveis dos homens a Vida, a Liberdade e a procura da Felicidade.

sexta-feira, 18 de julho de 2008

Animula vagula blandula

Resposta a este post no Storyteller:

Sem corpo a alma nada é:
fantasma sem sentidos e sem jeito
indo sem ver aonde põe o pé
sem ódio nem amor dentro do peito.

Sem pé nem peito é como o vento:
nem chega a ser um pensamento.

sexta-feira, 28 de dezembro de 2007

Ler Epicuro

Acabei finalmente de ler Epicure: Lettres, Maximes, Sentences, tradução francesa e introdução de Jean-François Ballaudé. É compacto e difícil de ler, se calhar porque Ballaudé escolhe as palavras mais obscuras em vez das mais correntes... ao contrário do que propunha César, que foi fortemente influenciado pelo epicurismo.

Esta é actualmente a minha filosofia/ doutrina preferida. Qual budismo, qual cristianismo "pobre" - Epicuro tem como o objectivo declarado conduzir-nos à felicidade através do conhecimento.

A felicidade, diz ele, é conseguida quando nos libertamos das dores do corpo e dos terrores da mente. Isso só é possível se virmos claramente a natureza, através da evidência dos sentidos e do raciocínio correcto, afastando-nos dos mitos e das opiniões vazias.

A fórmula para a felicidade, que se confunde com a serenidade, é dada pelo tetrapharmakos: não há que ter medo dos deuses; não há que ter preocupação com a morte; o bem é fácil de atingir; o mal é fácil de suportar.

Só discordo dele na parte de o mal ser fácil de suportar: Epicuro diz que as dores crónicas não são muito intensas e as dores intensas são de curta duração. É possível, mas teria de confirmar isso com quem já foi torturado.

segunda-feira, 19 de novembro de 2007

O gato de Schrödinger

Les dialecticiens établissent que toute énonciation disjonctive, telle que "oui ou non", est non seulement vraie mais encore nécessaire (vois comment il est habile, cet Épicure, que vous considérez comme un esprit lent: si en effet, dit-il, j'admets que l'un ou l'autre est nécessaire, il sera nécessaire que demain, Hermarque vive ou ne vive pas; or il n'y a pas de pareille nécessité dans la nature)

Cícero, citado em Jean-François Balaudé, Épicure Lettres, Maximes, Sentences, Paris, 1994

quinta-feira, 30 de agosto de 2007

Verdade e Consequência


"(...) eu faço só e apenas o que me apetece e (...) estou[-me] nas tintas para as consequências do que acho que devo fazer. É exactamente isso."

Ora aí está. O comum dos mortais não pode fazer o mesmo. Tem compromissos.
Eu também gostaria de fazer só o que me apetece, mas as consequências pesam: é a diferença entre epicurismo e hedonismo.

quinta-feira, 2 de agosto de 2007

De natura deorum

A propósito deste post de Miguel G Reis do blog Heart of Saturday Night, sobre a relação do cientista com a possibilidade da existência de Deus, lembrei-me de uns versos de Lucrécio que me apetece transcrever:

omnis enim per se divom natura necessest
inmortali aevo summa cum pace fruatur
semota ab nostris rebus seiunctaque longe;
nam privata dolore omni, privata periclis,
ipsa suis pollens opibus, nihil indiga nostri,
nec bene promeritis capitur neque tangitur ira.


os deuses devem, pela sua natureza,
por toda a eternidade deleitar-se com a paz,
afastados dos nossos assuntos,
realmente imunes à dor, imunes ao perigo,
fortes dos seus próprios recursos, sem necessidade de nós,
intocados pelas nossas oferendas ou pela nossa ira.


(T. Lucretius Carus, De Rerum Natura, Liber II, 646-651)