Herculaneum, circa 40 BCE. At the villa Pisonis the Epicurean School of Philodemus of Gadara is an informal gathering place for those who enjoy discussing philosophy, literature, general politics, the nature of things and how to live better.
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domingo, 31 de março de 2013
La Cenerentola
Ópera na rtp2! Não acredito! Será serviço público ou milagre de Páscoa???
domingo, 24 de março de 2013
Motivos de irritação
1. O Blogger mudou a maneira de escrever os posts em HTML; praticamente obriga-me a optar pela escrita wysiwyg. Grrr.
2. O Google Reader vai acabar a 1 de Julho. Não percebo porquê.
3. O Mezzo deve andar sem dinheiro para pagar direitos de autor e desde o princípio do ano repete até ao infinito a mesma meia-dúzia de concertos.
2. O Google Reader vai acabar a 1 de Julho. Não percebo porquê.
3. O Mezzo deve andar sem dinheiro para pagar direitos de autor e desde o princípio do ano repete até ao infinito a mesma meia-dúzia de concertos.
sexta-feira, 8 de março de 2013
Um Holandês em Milão
Logo depois de Parsifal ver o Holandês Voador? Hmmm... Porque não? No Teatro alla Scala, no qual já tinha entrado como visitante mas nunca como espectadora, e com Bryn Terfel no papel principal, pareceu-me uma boa opção, pelo menos até ter ouvido excertos da transmissão radiofónica da estreia no blogue In Fernem Land. Talvez fosse artefacto, pensei esperançosa. E lá fui esta quarta-feira.
Esta era mais uma ópera que nunca tinha ouvido de fio a pavio, mas cuja história me era familiar. Qual não foi o meu choque ao ver o primeiro acto, em que o Holandês e Daland se conhecem quando a tempestade que irrompeu na abertura empurra os respectivos navios para um fiorde norueguês, transplantado para o escritório vitoriano do armador naval em que Daland se transformou! Contudo, de vez em quando o pessoal no escritório balançava como se estivesse num navio sob o vento gerado por uma máquina infernal que não sei onde nem para que foram desencantar. No segundo acto Senta e as amigas, em vez de rocas e fusos, tinham máquinas de escrever, o que já achei quase normal. Pelo menos não as usaram! Senta e o Holandês puderam namorar em casa dela, simbolizada por um sofá e um quadro que era realmente um écran. No terceiro acto, voltámos ao escritório do armador.
Nisto tudo, os marinheiros passaram a amanuenses, as raparigas a secretárias, só Erik conservou o estatuto de caçador, talvez porque a arma deu jeito para com ela Senta se suicidar no fim, visto que mar só nos quadros na parede. Para que conste, o encenador foi Andreas Homoki. O Scala tem produções antigas tão interessantes, não havia necessidade...
A orquestra foi dirigida por Hartmut Haenchen. Eu fiquei num camarote quase por cima dela, e gostei de observar a perfeita sincronia dos violinos. Aliás, ao contrário do que terá acontecido na estreia, não dei conta de desacertos. Assim, pude aperceber-me de algumas características desta ópera, que oscila entre o modelo italiano (os duetos, por exemplo, passariam bem por Verdi) e as frases longas e mesmo os fios condutores típicos de Wagner.
A soprano Anja Kampe como Senta foi, para mim, a melhor voz da noite, bonita e brilhante, logo seguida por Ain Anger como Daland, uma voz de baixo muito correcta e potente. Tinha curiosidade em ouvir Klaus Florian Voigt, que cantou o papel de Erik: esteve bem, não me maravilhou, achei uma voz clara mas indiferente. A grande decepção, para a qual feliz ou infelizmente já ia alertada, foi o protagonista. A voz de Terfel tem um timbre agradável, mas frequentemente foi abafada pela orquestra, e não conseguia sustentar as notas longas de Wagner, parecia uma ovelha a balir. Se agora canta assim, só lhe posso sugerir que volte a Mozart...
No final, o público, que incluía claramente muitos visitantes, aplaudiu mas também não se excedeu.
Esta era mais uma ópera que nunca tinha ouvido de fio a pavio, mas cuja história me era familiar. Qual não foi o meu choque ao ver o primeiro acto, em que o Holandês e Daland se conhecem quando a tempestade que irrompeu na abertura empurra os respectivos navios para um fiorde norueguês, transplantado para o escritório vitoriano do armador naval em que Daland se transformou! Contudo, de vez em quando o pessoal no escritório balançava como se estivesse num navio sob o vento gerado por uma máquina infernal que não sei onde nem para que foram desencantar. No segundo acto Senta e as amigas, em vez de rocas e fusos, tinham máquinas de escrever, o que já achei quase normal. Pelo menos não as usaram! Senta e o Holandês puderam namorar em casa dela, simbolizada por um sofá e um quadro que era realmente um écran. No terceiro acto, voltámos ao escritório do armador.
Nisto tudo, os marinheiros passaram a amanuenses, as raparigas a secretárias, só Erik conservou o estatuto de caçador, talvez porque a arma deu jeito para com ela Senta se suicidar no fim, visto que mar só nos quadros na parede. Para que conste, o encenador foi Andreas Homoki. O Scala tem produções antigas tão interessantes, não havia necessidade...
A orquestra foi dirigida por Hartmut Haenchen. Eu fiquei num camarote quase por cima dela, e gostei de observar a perfeita sincronia dos violinos. Aliás, ao contrário do que terá acontecido na estreia, não dei conta de desacertos. Assim, pude aperceber-me de algumas características desta ópera, que oscila entre o modelo italiano (os duetos, por exemplo, passariam bem por Verdi) e as frases longas e mesmo os fios condutores típicos de Wagner.
A soprano Anja Kampe como Senta foi, para mim, a melhor voz da noite, bonita e brilhante, logo seguida por Ain Anger como Daland, uma voz de baixo muito correcta e potente. Tinha curiosidade em ouvir Klaus Florian Voigt, que cantou o papel de Erik: esteve bem, não me maravilhou, achei uma voz clara mas indiferente. A grande decepção, para a qual feliz ou infelizmente já ia alertada, foi o protagonista. A voz de Terfel tem um timbre agradável, mas frequentemente foi abafada pela orquestra, e não conseguia sustentar as notas longas de Wagner, parecia uma ovelha a balir. Se agora canta assim, só lhe posso sugerir que volte a Mozart...
No final, o público, que incluía claramente muitos visitantes, aplaudiu mas também não se excedeu.
terça-feira, 5 de março de 2013
Parsifal na Gulbenkian
No sábado passado foi a vez da transmissão directa do Parsifal a partir do Met para a Gulbenkian.
Quando o maestro Daniele Gatti começou a abertura de forma lentíssima, pensei: Isto vai correr mal. Por muito bonita que seja a música de Wagner, seis horas aqui dentro é difícil aguentar. Ao pé de mim, houve quem dormisse no primeiro acto e quem dormisse no segundo. A sala, no terceiro, tinha quase mais clareiras que floresta.
O que me leva directamente à encenação e à cenografia. Li algures que a tese do encenador François Girard é trazer a história para o presente ou para um futuro próximo, não faço ideia com que argumento. Assim, Montsalvat torna-se um ermo pós-apocalíptico sob um céu de tempestade. Quando Gurnemanz diz que é meio-dia, é mais um artigo de fé, porque não se nota a diferença.
O jardim de Klingsor é mais rebuscado, porque atravessado por um rio de sangue, em que toda a gente mais cedo ou mais tarde se banha. Sangue de quem? De Amfortas? De Cristo? Das mulheres?
Em todo o caso, simbólica e despida, parada, mesmo feia, é uma encenação que não contradiz a intenção do compositor, o que já não é mau. E foge ao óbvio: se Klingsor tem ar de dono de bordel ordinário, as raparigas-flores estão longe de parecer prostitutas rascas: pelo contrário, são encantadoras, vozes cristalinas e corpos graciosos numa coreografia delicada. Quase irresistíveis.
Irresistível é a música, e como foi bem cantada! René Pape foi um Gurnemanz impecável, a voz sem quebras num papel extensíssimo (vá lá, tem todo o segundo acto para descansar) e a combinação certa de emoção e distanciamento para o homem que faz, de certa maneira, a ponte entre os cavaleiros do Graal e o resto da humanidade, mantendo o bom-senso e a esperança. Peter Mattei foi uma revelação como Amfortas: uma voz lindíssima, potente (ah, mas como afirmá-lo, se as vozes do Met vêm amplificadas?), com uma força dramática extraordinária a transmitir o sofrimento do chefe dos cavaleiros.
O segundo acto é a moldura para o dueto de Parsifal e Kundry. Mas antes do dueto surge o maléfico Klingsor, interpretado por Evgeny Nikitin, com as tatuagens cobertas, a voz apenas menos apetitosa por comparação com as outras.
Katarina Dalayman fez uma Kundry muito interessante, transformando a bruxa associal (na malvadez de Kundry só Kundry acredita) do primeiro acto na mulher madura e tentadora do segundo. É um belíssimo soprano com uma voz substancial. Achei magnífica a sua passagem por todas as variantes da tentação. Quanto ao Parsifal de Jonas Kaufmann, que dizer, se eu me tornei já há tempos totalmente fã dele, da sua voz e da sua entrega em palco? Acabei o segundo acto sem fôlego.
O problema é que já tive muita dificuldade em aguentar o terceiro acto. Toda aquela espiritualidade me deixou indiferente, odiei a peruca que Kaufmann teve de usar, perguntei-me porque tinha a missa de se transformar num rito não cristão enquanto a Kundry passava a Madalena - em resumo, distraí-me com quase tudo e não consegui apreciar o fundamental. Se, como é provável, sair um DVD, sou capaz de ouver este último acto sozinho, e tentar então saboreá-lo.
Quando o maestro Daniele Gatti começou a abertura de forma lentíssima, pensei: Isto vai correr mal. Por muito bonita que seja a música de Wagner, seis horas aqui dentro é difícil aguentar. Ao pé de mim, houve quem dormisse no primeiro acto e quem dormisse no segundo. A sala, no terceiro, tinha quase mais clareiras que floresta.
O que me leva directamente à encenação e à cenografia. Li algures que a tese do encenador François Girard é trazer a história para o presente ou para um futuro próximo, não faço ideia com que argumento. Assim, Montsalvat torna-se um ermo pós-apocalíptico sob um céu de tempestade. Quando Gurnemanz diz que é meio-dia, é mais um artigo de fé, porque não se nota a diferença.
O jardim de Klingsor é mais rebuscado, porque atravessado por um rio de sangue, em que toda a gente mais cedo ou mais tarde se banha. Sangue de quem? De Amfortas? De Cristo? Das mulheres?
Em todo o caso, simbólica e despida, parada, mesmo feia, é uma encenação que não contradiz a intenção do compositor, o que já não é mau. E foge ao óbvio: se Klingsor tem ar de dono de bordel ordinário, as raparigas-flores estão longe de parecer prostitutas rascas: pelo contrário, são encantadoras, vozes cristalinas e corpos graciosos numa coreografia delicada. Quase irresistíveis.
Irresistível é a música, e como foi bem cantada! René Pape foi um Gurnemanz impecável, a voz sem quebras num papel extensíssimo (vá lá, tem todo o segundo acto para descansar) e a combinação certa de emoção e distanciamento para o homem que faz, de certa maneira, a ponte entre os cavaleiros do Graal e o resto da humanidade, mantendo o bom-senso e a esperança. Peter Mattei foi uma revelação como Amfortas: uma voz lindíssima, potente (ah, mas como afirmá-lo, se as vozes do Met vêm amplificadas?), com uma força dramática extraordinária a transmitir o sofrimento do chefe dos cavaleiros.
O segundo acto é a moldura para o dueto de Parsifal e Kundry. Mas antes do dueto surge o maléfico Klingsor, interpretado por Evgeny Nikitin, com as tatuagens cobertas, a voz apenas menos apetitosa por comparação com as outras.
Katarina Dalayman fez uma Kundry muito interessante, transformando a bruxa associal (na malvadez de Kundry só Kundry acredita) do primeiro acto na mulher madura e tentadora do segundo. É um belíssimo soprano com uma voz substancial. Achei magnífica a sua passagem por todas as variantes da tentação. Quanto ao Parsifal de Jonas Kaufmann, que dizer, se eu me tornei já há tempos totalmente fã dele, da sua voz e da sua entrega em palco? Acabei o segundo acto sem fôlego.
O problema é que já tive muita dificuldade em aguentar o terceiro acto. Toda aquela espiritualidade me deixou indiferente, odiei a peruca que Kaufmann teve de usar, perguntei-me porque tinha a missa de se transformar num rito não cristão enquanto a Kundry passava a Madalena - em resumo, distraí-me com quase tudo e não consegui apreciar o fundamental. Se, como é provável, sair um DVD, sou capaz de ouver este último acto sozinho, e tentar então saboreá-lo.
Clarinete na Gulbenkian
Sexta-feira passada fui à Gulbenkian para ouvir o concerto para clarinete de Mozart, tocado por Jörg Widmann com a orquestra Gulbenkian dirigida por René Jacobs. Vinha embrulhado na sinfonia nº 104 de Haydn e na nº 6 de Schubert.
Só assisti à primeira parte, e resumo: gosto muito do concerto para clarinete e Widmann tocou-o com vivacidade e alegria. Embora aprecie algumas obras de Haydn, não tenho grande pachorra para as sinfonias dele. A orquestra Gulbenkian esteve bem. O maestro Jacobs dirige enrolado sobre si próprio, sem o gesto claro que ajuda a entender o que se está a passar.
Fica aqui parte de uma versão pela clarinetista Sabine Meyer. O maestro é Pedro Halffter, que já ouvi dirigir a Real Orquestra Sinfonica de Sevilha.
Só assisti à primeira parte, e resumo: gosto muito do concerto para clarinete e Widmann tocou-o com vivacidade e alegria. Embora aprecie algumas obras de Haydn, não tenho grande pachorra para as sinfonias dele. A orquestra Gulbenkian esteve bem. O maestro Jacobs dirige enrolado sobre si próprio, sem o gesto claro que ajuda a entender o que se está a passar.
Fica aqui parte de uma versão pela clarinetista Sabine Meyer. O maestro é Pedro Halffter, que já ouvi dirigir a Real Orquestra Sinfonica de Sevilha.
terça-feira, 5 de fevereiro de 2013
Joyce DiDonato em Lisboa
Finalmente realizou-se o meu desejo de ver esta senhora no grande auditório da Fundação Gulbenkian. Acompanhada pelo agrupamento de Alan Curtis, Il Complesso Barocco, no sábado sob a direcção do violinista e contra-tenor Dmitry Sinkovsky, veio apresentar o seu mais recente CD, Drama Queens.
Que dizer mais acerca de Joyce DiDonato? Talvez que, quando faz qualquer coisa, é para a fazer bem. Recentemente vi parte da transmissão directa de uma lição que deu aos alunos da Juilliard School, na qual recomendava a um jovem barítono que fosse às fontes. Explicava: procura saber em que se inspirou o compositor. Quem é Figaro? Como eram os barbeiros daquela época? O que faziam? Como se vestiam? Vai aos museus: há retratos? Que atitude mostram, que gestos?
DiDonato resolveu assumir neste recital o papel de rainha do drama, e apareceu de cabelos presos ao alto, numa espécie de coroa, e num vestido extraordinário (mais do que bonito) desenhado pela estilista inglesa Vivienne Westwood em seda escarlate, com laços e folhos, mangas amovíveis e ancas isabelinas adicionadas no intervalo. Com esta encenação dedicou-se a percorrer as paixões e emoções excessivas de que tanto gosta. Como já escrevi antes, ela nunca me decepciona, e que prazer é poder sentar-me, descontrair-me e acompanhar a riqueza de uma voz belíssima e de uma técnica excepcional, sem recear qualquer agressão aos meus ouvidos.
Este filme pirata repescado no Youtube mostra um bocadinho do que também aconteceu cá:
O público respondeu aplaudindo-a como nunca ouvi, chamando-a inúmeras vezes ao palco pelo prazer e pela necessidade de a aplaudir, muito mais do que a pedir os encores (quatro, dois deles repetidos) que no entanto, obviamente, apreciou.
Depois do espectáculo recebeu os admiradores e assinou programas e discos. Estava radiosa, e eu devia tê-la fotografado, mas esqueci-me. Ofereci-lhe pastéis de Belém: espero que tenha gostado.
Que dizer mais acerca de Joyce DiDonato? Talvez que, quando faz qualquer coisa, é para a fazer bem. Recentemente vi parte da transmissão directa de uma lição que deu aos alunos da Juilliard School, na qual recomendava a um jovem barítono que fosse às fontes. Explicava: procura saber em que se inspirou o compositor. Quem é Figaro? Como eram os barbeiros daquela época? O que faziam? Como se vestiam? Vai aos museus: há retratos? Que atitude mostram, que gestos?
DiDonato resolveu assumir neste recital o papel de rainha do drama, e apareceu de cabelos presos ao alto, numa espécie de coroa, e num vestido extraordinário (mais do que bonito) desenhado pela estilista inglesa Vivienne Westwood em seda escarlate, com laços e folhos, mangas amovíveis e ancas isabelinas adicionadas no intervalo. Com esta encenação dedicou-se a percorrer as paixões e emoções excessivas de que tanto gosta. Como já escrevi antes, ela nunca me decepciona, e que prazer é poder sentar-me, descontrair-me e acompanhar a riqueza de uma voz belíssima e de uma técnica excepcional, sem recear qualquer agressão aos meus ouvidos.
Este filme pirata repescado no Youtube mostra um bocadinho do que também aconteceu cá:
O público respondeu aplaudindo-a como nunca ouvi, chamando-a inúmeras vezes ao palco pelo prazer e pela necessidade de a aplaudir, muito mais do que a pedir os encores (quatro, dois deles repetidos) que no entanto, obviamente, apreciou.
Depois do espectáculo recebeu os admiradores e assinou programas e discos. Estava radiosa, e eu devia tê-la fotografado, mas esqueci-me. Ofereci-lhe pastéis de Belém: espero que tenha gostado.
sábado, 2 de fevereiro de 2013
Querida Mattila
Do mini-recital de Karita Mattila a noite passada na Fundação Gulbenkian, posso dizer que a cantora tem boa presença e uma voz bonita, calorosa e afinada se se ouvisse...
domingo, 27 de janeiro de 2013
Vida e morte de Maria Stuarda
Já passou uma semana e ainda não comentei a transmissão directa MetLive in HD para a Fundação Gulbenkian da ópera Maria Stuarda de Donizetti.
Eu não conhecia esta ópera, não conhecia sequer uma ária, e achei-a tão bonita que não entendo porque não é mais representada.
Esta encenação de David McVicar foi, como já me vai habituando, simples mas eficaz*, com uma boa caracterização das duas figuras principais, as rainhas Isabel I de Inglaterra e Maria da Escócia, primas e adversárias nas guerras político-religiosas do século XVI - mas não, que se saiba, e ao contrário do que propõe o libretto, no coração do duque de Leicester.
A acção foi deixada na época a que pertence, os cenários, embora simplificados, representam o que é suposto representarem, os figurinos, de uma forma geral, são apropriados, com a provável excepção do horrendo fato de caça de Elisabetta. Gostei das movimentações do coro, que por vezes parecia posar para um pintor - e que cantou, como é costume, muito bem. A orquestra do Met foi dirigida por Maurizio Benini.
Maria foi interpretada por Joyce DiDonato, que é, na minha opinião, uma cantora maravilhosa. Já tive o privilégio de a ver em palco duas vezes** e estou entusiasmadíssima com a perspectiva de a voltar a ver no próximo sábado, novamente em recital, desta vez em Lisboa. Tem uma belíssima voz, uma técnica impecável, uma atitude fantástica. Desde os momentos mais líricos aos mais dramáticos, nunca me decepciona. Também já cantou o papel da antagonista.
Desta vez quem fez a Elisabetta foi a soprano Elza van den Heever: tem uma voz um bocadinho áspera mas cheia, afinada, e com um bom domínio da coloratura. Duas curiosidades: começou a carreira como mezzo-soprano, e rapou o cabelo para lhe assentarem melhor as perucas deste papel. Talvez tenha exagerado um tanto os tiques que McVicar lhe encomendou.
O tenor Matthew Polenzani fez Leicester: tem uma voz de timbre agradável (nesta transmissão não encontrei o metal do Don Pasquale) e, não sendo grande actor, esteve aceitável no palco. Gostei do baixo Matthew Rose, que vi em Londres, agora no papel de Talbot; Joshua Hopkins em Cecil e Maria Zifchak na aia, ouviram-se com prazer.
* Acabei de ler uma crítica de Jorge Calado que usa exactamente as mesmas palavras para a definir.
**Conforme contei aqui e aqui.
Eu não conhecia esta ópera, não conhecia sequer uma ária, e achei-a tão bonita que não entendo porque não é mais representada.
Esta encenação de David McVicar foi, como já me vai habituando, simples mas eficaz*, com uma boa caracterização das duas figuras principais, as rainhas Isabel I de Inglaterra e Maria da Escócia, primas e adversárias nas guerras político-religiosas do século XVI - mas não, que se saiba, e ao contrário do que propõe o libretto, no coração do duque de Leicester.
A acção foi deixada na época a que pertence, os cenários, embora simplificados, representam o que é suposto representarem, os figurinos, de uma forma geral, são apropriados, com a provável excepção do horrendo fato de caça de Elisabetta. Gostei das movimentações do coro, que por vezes parecia posar para um pintor - e que cantou, como é costume, muito bem. A orquestra do Met foi dirigida por Maurizio Benini.
Maria foi interpretada por Joyce DiDonato, que é, na minha opinião, uma cantora maravilhosa. Já tive o privilégio de a ver em palco duas vezes** e estou entusiasmadíssima com a perspectiva de a voltar a ver no próximo sábado, novamente em recital, desta vez em Lisboa. Tem uma belíssima voz, uma técnica impecável, uma atitude fantástica. Desde os momentos mais líricos aos mais dramáticos, nunca me decepciona. Também já cantou o papel da antagonista.
Desta vez quem fez a Elisabetta foi a soprano Elza van den Heever: tem uma voz um bocadinho áspera mas cheia, afinada, e com um bom domínio da coloratura. Duas curiosidades: começou a carreira como mezzo-soprano, e rapou o cabelo para lhe assentarem melhor as perucas deste papel. Talvez tenha exagerado um tanto os tiques que McVicar lhe encomendou.
O tenor Matthew Polenzani fez Leicester: tem uma voz de timbre agradável (nesta transmissão não encontrei o metal do Don Pasquale) e, não sendo grande actor, esteve aceitável no palco. Gostei do baixo Matthew Rose, que vi em Londres, agora no papel de Talbot; Joshua Hopkins em Cecil e Maria Zifchak na aia, ouviram-se com prazer.
* Acabei de ler uma crítica de Jorge Calado que usa exactamente as mesmas palavras para a definir.
**Conforme contei aqui e aqui.
terça-feira, 25 de dezembro de 2012
Mozart no sapatinho
Há muitos anos, durante uma viagem de InterRail, encontrei-me com amigos em Salzburg e andámos a visitar a cidade antiga. De repente, atrás de uma porta fechada, ouvi um coro lindíssimo que o meu amigo Patrick me disse ser a Grande Missa Solene de Mozart.
A Grande Missa Solene, ou Missa em Dó menor, ouviu-se no sábado passado na Fundação Gulbenkian, pela Orquestra e pelo Coro da casa, dirigidos por Michel Corboz, depois de uma primeira parte constituída por duas obras de Bach (Prelúdio e Fuga em Lá menor, BWV 543 e cantata Gloria in excelsis Deo, BWV 191) que serviram para aquecer.
Os meus momentos preferidos foram protagonizados pelo contrabaixo, pela flauta e pelo oboé. E pelo coro. Aqui fica, em jeito de presente de Natal, o Qui tollis dirigido por Bernstein.
A Grande Missa Solene, ou Missa em Dó menor, ouviu-se no sábado passado na Fundação Gulbenkian, pela Orquestra e pelo Coro da casa, dirigidos por Michel Corboz, depois de uma primeira parte constituída por duas obras de Bach (Prelúdio e Fuga em Lá menor, BWV 543 e cantata Gloria in excelsis Deo, BWV 191) que serviram para aquecer.
Os meus momentos preferidos foram protagonizados pelo contrabaixo, pela flauta e pelo oboé. E pelo coro. Aqui fica, em jeito de presente de Natal, o Qui tollis dirigido por Bernstein.
domingo, 9 de dezembro de 2012
O baile e as máscaras
No sábado passado lá regressei à Fundação Gulbenkian para mais uma transmissão da série Met Live in HD. Desta vez tratava-se de Un Ballo in Maschera, uma ópera que eu nunca tinha visto mas apenas ouvido, e que não me tinha seduzido, não sei porquê, visto que tem todos os ingredientes verdianos: a história de amor e política, árias bonitas, coros e ensembles, e o que presumo fosse um momento de bailado no terceiro acto.
A encenação de David Alden é uma mistura de clássico e diferente: clássico no sentido de que os protagonistas são tratados muito mais como cantores do que como actores, sendo mesmo muitas vezes prantados a cantar sem interagir fisicamente; diferente porquanto personagens e relacionamentos são caracterizados segundo conceitos talvez menos óbvios. Um exemplo, o rei Gustavo como um homem com vontade de fugir às suas responsabilidades metendo-se em aventuras pouco apropriadas. Outro exemplo: o amor entre Gustavo e Amelia é casto, enquanto há uma forte ligação erótica entre Amelia e o marido, Renato, e é essa ligação que salva a rapariga e o casamento.
Havia coisas que não percebi, como o simbolismo das asas brancas do pagem, Oscar, a possível relação com o quadro A Queda de Ícaro que decora o palácio real, ou a razão para a história decorrer nos anos de 1930. Debbie Voigt, a apresentadora da noite, deu-nos algumas pistas, nomeadamente para os bailados tipo Broadway, explicando que nos contrastes desta peça alguns números mais alegres remetiam para a opereta.
A orquestra foi dirigida por Fabio Luisi, que a soprano Sondra Radvanovsky elogiou por saber "respirar com os cantores", o que acho muito interessante.
De Sondra Radvanovsky (Amelia) já tinha ouvido falar: tem uma voz interessante, com bons graves e agudos muito agradáveis; e uma dicção muito difícil de entender. Marcelo Álvarez (Gustavo) pareceu-me o típico tenor verdiano que canta mais em potência que em elegância mas, não conhecendo a partitura, eu sei lá se há alguma coisa apontada excepto forte e fortissimo?
Dimitri Hvorostovsky (Renato) foi igual a si próprio excepto na ária Eri tu che macchiavi, em que se superou, transmitindo magnificamente toda uma série de emoções. Stephanie Blythe (Ulrica), que me tinha impressionado como Fricka, está cada vez mais gorda, e pareceu-me menos bem nos agudos, mas bem no registo grave.
Os secundários cumpriram; gostei de Scott Scully no pequeníssimo papel de criado de Amelia. A soprano Kathleen Kim (Oscar) é incrivelmente desajeitada para uma pessoa tão pequena, e tem uma voz um bocadinho estridente. Diz o Joaquim que ela vai cantar a Olympia nos Contos de Hoffmann no Liceu: engraçado que foi exactamente nesse papel que ela me fez pensar.
A encenação de David Alden é uma mistura de clássico e diferente: clássico no sentido de que os protagonistas são tratados muito mais como cantores do que como actores, sendo mesmo muitas vezes prantados a cantar sem interagir fisicamente; diferente porquanto personagens e relacionamentos são caracterizados segundo conceitos talvez menos óbvios. Um exemplo, o rei Gustavo como um homem com vontade de fugir às suas responsabilidades metendo-se em aventuras pouco apropriadas. Outro exemplo: o amor entre Gustavo e Amelia é casto, enquanto há uma forte ligação erótica entre Amelia e o marido, Renato, e é essa ligação que salva a rapariga e o casamento.
Havia coisas que não percebi, como o simbolismo das asas brancas do pagem, Oscar, a possível relação com o quadro A Queda de Ícaro que decora o palácio real, ou a razão para a história decorrer nos anos de 1930. Debbie Voigt, a apresentadora da noite, deu-nos algumas pistas, nomeadamente para os bailados tipo Broadway, explicando que nos contrastes desta peça alguns números mais alegres remetiam para a opereta.
A orquestra foi dirigida por Fabio Luisi, que a soprano Sondra Radvanovsky elogiou por saber "respirar com os cantores", o que acho muito interessante.
De Sondra Radvanovsky (Amelia) já tinha ouvido falar: tem uma voz interessante, com bons graves e agudos muito agradáveis; e uma dicção muito difícil de entender. Marcelo Álvarez (Gustavo) pareceu-me o típico tenor verdiano que canta mais em potência que em elegância mas, não conhecendo a partitura, eu sei lá se há alguma coisa apontada excepto forte e fortissimo?
Dimitri Hvorostovsky (Renato) foi igual a si próprio excepto na ária Eri tu che macchiavi, em que se superou, transmitindo magnificamente toda uma série de emoções. Stephanie Blythe (Ulrica), que me tinha impressionado como Fricka, está cada vez mais gorda, e pareceu-me menos bem nos agudos, mas bem no registo grave.
Os secundários cumpriram; gostei de Scott Scully no pequeníssimo papel de criado de Amelia. A soprano Kathleen Kim (Oscar) é incrivelmente desajeitada para uma pessoa tão pequena, e tem uma voz um bocadinho estridente. Diz o Joaquim que ela vai cantar a Olympia nos Contos de Hoffmann no Liceu: engraçado que foi exactamente nesse papel que ela me fez pensar.
quinta-feira, 6 de dezembro de 2012
Take five
Hoje é dia de obituário: morreu Oscar Niemeyer, o arquitecto de Brasília, que em Portugal deixou o Casino Park Hotel do Funchal. E morreu Dave Brubeck, o pianista de jazz cuja peça Take Five me acompanhou muitas vezes na rádio, no caminho para o hospital, quando vivi em Miami.
Aqui fica ela, em homenagem a dois grandes que foram agora descansar.
Aqui fica ela, em homenagem a dois grandes que foram agora descansar.
domingo, 2 de dezembro de 2012
La Clemenza di Tito
Apesar de a temporada de transmissões do Met (porque lhe chamamos o Met se o nome oficial é a casa, por isso feminino? Adiante) para a Fundação Gulbenkian já ir em velocidade de cruzeiro, só ontem nela embarquei, com a última de Mozart, La Clemenza di Tito, na encenação de Jean-Pierre Ponnelle, ambientada na época em que a obra foi criada em vez daquela em que decorre a acção.
Este detalhe àparte, nada de especial a assinalar numa encenação com quase trinta anos, que segue fielmente o libretto e se preocupa com a movimentação dos cantores. Cenários e figurinos são de modelo apropriado mas não os achei bonitos.
O maestro Harry Bicket, que é director da orquestra barroca The English Concert, diz que à Orquestra do Met não se deve pedir um som diferente do que ela tem; depois daqueles solos sublimes dos sopros, eu certamente não peço.
Os cantores: as duas mezzos, Elina Garanča e Kate Lindsey, nos papéis de Sesto e Annio, têm vozes muito bonitas e expressivas; a soprano Barbara Frittoli, graças a um grande domínio técnico, aguentou-se nas difíceis árias de Vitellia, e particularmente em Non più di fiori, foi mesmo aplaudida pela orquestra; pelo contrário, Giuseppe Filianoti viu-se aflito com a coloratura. Gostei dos agudos cristalinos de Lucy Crowe como Servilia e o baixo Oren Gradus, como Publio, também esteve bem. O coro cumpriu mas não me emocionou.
Para a semana há mais. E na sexta-feira, para quem tiver o canal Arte na televisão, há a transmissão directa da abertura da temporada do Teatro alla Scala, com o Lohengrin de sonho para o qual não consegui bilhetes nas récitas "normais". Agradeço ao Paulo esta informação.
Este detalhe àparte, nada de especial a assinalar numa encenação com quase trinta anos, que segue fielmente o libretto e se preocupa com a movimentação dos cantores. Cenários e figurinos são de modelo apropriado mas não os achei bonitos.
O maestro Harry Bicket, que é director da orquestra barroca The English Concert, diz que à Orquestra do Met não se deve pedir um som diferente do que ela tem; depois daqueles solos sublimes dos sopros, eu certamente não peço.
Os cantores: as duas mezzos, Elina Garanča e Kate Lindsey, nos papéis de Sesto e Annio, têm vozes muito bonitas e expressivas; a soprano Barbara Frittoli, graças a um grande domínio técnico, aguentou-se nas difíceis árias de Vitellia, e particularmente em Non più di fiori, foi mesmo aplaudida pela orquestra; pelo contrário, Giuseppe Filianoti viu-se aflito com a coloratura. Gostei dos agudos cristalinos de Lucy Crowe como Servilia e o baixo Oren Gradus, como Publio, também esteve bem. O coro cumpriu mas não me emocionou.
Para a semana há mais. E na sexta-feira, para quem tiver o canal Arte na televisão, há a transmissão directa da abertura da temporada do Teatro alla Scala, com o Lohengrin de sonho para o qual não consegui bilhetes nas récitas "normais". Agradeço ao Paulo esta informação.
quinta-feira, 8 de novembro de 2012
O céu na Gulbenkian
Se bem me lembro, o autor do Apocalipse descreve assim a bem-aventurança celeste: há um trono no qual o Senhor está sentado; em volta há quatro figuras (um touro, um leão, uma águia e um homem) que se supõe corresponderem aos quatro evangelistas, e em redor, a perder de vista, os eleitos que cantam em coro, Santo, santo, santo é o Senhor nosso deus*. Uma seca por toda a eternidade.
Aquilo foi escrito há muito tempo, o Senhor é capaz de se ter tornado mais exigente e é possível que o cântico tenha sido substituído por qualquer coisa como o Messias de Händel, peça que nunca me tinha interessado particularmente mas me levou na sexta-feira passada (ai! como o tempo corre) à Fundação Gulbenkian.
É possível que a Fundação tenha avisado da substituição da soprano Miah Persson por Rosemary Joshua e eu não tenha recebido o aviso; é certo que teria ido na mesma, embora preparada para não a ouvir. No início não gostei nada da voz de Joshua, que achei um bocado esganiçada mas, à medida que foi aquecendo, foi soando melhor. Melhorou igualmente o tenor Robin Tritschler, com uma voz bonita embora pequena.
Já o barítono Johannes Weisser tem uma voz potente, para além do timbre agradável, enquanto a da mezzo Mary Phillips me pareceu um tanto baça e desigual. O coro esteve excelente, a orquestra tocou muito bem mas talvez tenha faltado ao maestro J. David Jackson um toque de brilhantismo, que a música de Händel pediria, na ausência de árias espectaculares e de acção no palco, para não se tornar monótona.
Na verdade, concordo em vários pontos com a apreciação do Fanático_Um, que assistiu ao espectáculo na noite anterior.
Uma nota positiva para os instrumentistas solistas: o trompetista, que suponho ter sido Stephen Mason, e Michael Leopold que andou atarefadíssimo com o arquialaúde, a tiorba e a viola barroca.
A sala, que estava cheia no princípio, esvaziou-se de um terço ao intervalo e, na segunda parte, as tosses aumentaram significativamente. Em todo o caso, espero que no céu o Senhor já tenha mudado outra vez o cântico oficial.
* Afinal não é bem assim, mas é muito parecido.
Aquilo foi escrito há muito tempo, o Senhor é capaz de se ter tornado mais exigente e é possível que o cântico tenha sido substituído por qualquer coisa como o Messias de Händel, peça que nunca me tinha interessado particularmente mas me levou na sexta-feira passada (ai! como o tempo corre) à Fundação Gulbenkian.
É possível que a Fundação tenha avisado da substituição da soprano Miah Persson por Rosemary Joshua e eu não tenha recebido o aviso; é certo que teria ido na mesma, embora preparada para não a ouvir. No início não gostei nada da voz de Joshua, que achei um bocado esganiçada mas, à medida que foi aquecendo, foi soando melhor. Melhorou igualmente o tenor Robin Tritschler, com uma voz bonita embora pequena.
Já o barítono Johannes Weisser tem uma voz potente, para além do timbre agradável, enquanto a da mezzo Mary Phillips me pareceu um tanto baça e desigual. O coro esteve excelente, a orquestra tocou muito bem mas talvez tenha faltado ao maestro J. David Jackson um toque de brilhantismo, que a música de Händel pediria, na ausência de árias espectaculares e de acção no palco, para não se tornar monótona.
Na verdade, concordo em vários pontos com a apreciação do Fanático_Um, que assistiu ao espectáculo na noite anterior.
Uma nota positiva para os instrumentistas solistas: o trompetista, que suponho ter sido Stephen Mason, e Michael Leopold que andou atarefadíssimo com o arquialaúde, a tiorba e a viola barroca.
A sala, que estava cheia no princípio, esvaziou-se de um terço ao intervalo e, na segunda parte, as tosses aumentaram significativamente. Em todo o caso, espero que no céu o Senhor já tenha mudado outra vez o cântico oficial.
* Afinal não é bem assim, mas é muito parecido.
domingo, 28 de outubro de 2012
Thaïs em Sevilha
Quando, em 2008 no Met, Placido Domingo apresentou a Thaïs de Massenet (interpretada por Thomas Hampson e uma radiosa Renée Fleming), lamentou não poder cantar o monge Athanaël por se tratar de um papel para barítono.
Agora que anda a brincar com esse repertório, o Teatro de la Maestranza fez-lhe o mimo: importou uma produção de Nicola Raab, o maestro Pedro Halffter conduziu a Real Orquestra Sinfónica de Sevilla e o público esgotou as três récitas.
Não é uma ópera fácil, apesar de ter música bonita e um libretto inteligente, porque não tem praticamente árias com impacto, à excepção talvez de Dis-moi que je suis belle. Se a encenação for tonta e os cantores fracos, torna-se uma seca.
Raab transportou a acção para a Paris do século XIX, não faço ideia porquê: para agradar ao cenógrafo que transformou a casa de Nicias num teatro e o deserto numa plateia empoeirada, e ao figurinista que pôs os monges de casaca? Numa ópera que fala de sexo e desejo o único assomo de sensualidade é o caminhar de Nino Machaidze. Bem sei que despir Placido Domingo no palco, na idade dele, é capaz de não ser muito boa ideia, mas nunca por nunca o vi ser sujeito à tentação.
Infelizmente nunca apanhei Domingo em cena nos seus bons tempos (assisti ao concerto que deu no estádio do Belenenses numa noite gelada de 1998, mas isso pouco conta) mas também não me parece boa ideia, depois de agora o ouvir ao vivo, que pretenda acabar a carreira como barítono porque, tendo perdido o brilho dos agudos, não tem graves nem potência para compensar. O timbre baritonal que fazia única e sexy a sua voz de tenor (e faz agora o mesmo pela de Jonas Kaufmann) perde o interesse e torna-se vulgar.
E já que se fala de tessituras, penso que independentemente de outros valores devia ser levado mais a sério por quem canta e por quem contrata a adequação das vozes aos papéis, porque, obviamente, nem todos os sopranos são capazes de cantar as mesmas coisas: eu odeio agudos gritados e Machaidze gritou-os sempre. Como pode uma voz assim esforçada ter um percurso decente?
De entre os cantores secundários o único que vale a pena mencionar foi o baixo Stefano Palatchi no papel de Palémon.
Salvou-se o coro afinado e atento, apesar do sotaque - mas de sotaques é melhor nem falar - e os solistas da orquestra. Boa parte do público aplaudiu alegremente, e outra parte saiu sem esperar pelo ritual dos agradecimentos.
Placido Domingo criou agora um festival com o seu nome a ter lugar na Andaluzia. Tem dado muito e tem muito ainda para dar e só pode ser acarinhado e respeitado, quer como músico quer como pessoa. Não me parece é que continuar a cantar seja a melhor opção.
Agora que anda a brincar com esse repertório, o Teatro de la Maestranza fez-lhe o mimo: importou uma produção de Nicola Raab, o maestro Pedro Halffter conduziu a Real Orquestra Sinfónica de Sevilla e o público esgotou as três récitas.
Não é uma ópera fácil, apesar de ter música bonita e um libretto inteligente, porque não tem praticamente árias com impacto, à excepção talvez de Dis-moi que je suis belle. Se a encenação for tonta e os cantores fracos, torna-se uma seca.
Raab transportou a acção para a Paris do século XIX, não faço ideia porquê: para agradar ao cenógrafo que transformou a casa de Nicias num teatro e o deserto numa plateia empoeirada, e ao figurinista que pôs os monges de casaca? Numa ópera que fala de sexo e desejo o único assomo de sensualidade é o caminhar de Nino Machaidze. Bem sei que despir Placido Domingo no palco, na idade dele, é capaz de não ser muito boa ideia, mas nunca por nunca o vi ser sujeito à tentação.
Infelizmente nunca apanhei Domingo em cena nos seus bons tempos (assisti ao concerto que deu no estádio do Belenenses numa noite gelada de 1998, mas isso pouco conta) mas também não me parece boa ideia, depois de agora o ouvir ao vivo, que pretenda acabar a carreira como barítono porque, tendo perdido o brilho dos agudos, não tem graves nem potência para compensar. O timbre baritonal que fazia única e sexy a sua voz de tenor (e faz agora o mesmo pela de Jonas Kaufmann) perde o interesse e torna-se vulgar.
E já que se fala de tessituras, penso que independentemente de outros valores devia ser levado mais a sério por quem canta e por quem contrata a adequação das vozes aos papéis, porque, obviamente, nem todos os sopranos são capazes de cantar as mesmas coisas: eu odeio agudos gritados e Machaidze gritou-os sempre. Como pode uma voz assim esforçada ter um percurso decente?
De entre os cantores secundários o único que vale a pena mencionar foi o baixo Stefano Palatchi no papel de Palémon.
Salvou-se o coro afinado e atento, apesar do sotaque - mas de sotaques é melhor nem falar - e os solistas da orquestra. Boa parte do público aplaudiu alegremente, e outra parte saiu sem esperar pelo ritual dos agradecimentos.
Placido Domingo criou agora um festival com o seu nome a ter lugar na Andaluzia. Tem dado muito e tem muito ainda para dar e só pode ser acarinhado e respeitado, quer como músico quer como pessoa. Não me parece é que continuar a cantar seja a melhor opção.
quarta-feira, 17 de outubro de 2012
Em Roma com Woody Allen
Já há muitos anos que não via um filme de Woody Allen, suponho que desde o século passado; neste fim de semana, por recomendações várias, entre as quais a da Helena, resolvi ver o mais recente, To Rome with Love, e encontrei um filme leve e divertido.
É óbvio que Allen está mais velho: a ironia não o abandonou, mas serve-lhe agora para desmontar os excessos da intelectualidade com que nos entreteve e fascinou nos anos setenta e oitenta. Diverte-se, e diverte-nos, a arrasar clichés, e nisso tanto vale Alec Baldwin, espécie de génio da lâmpada a denunciar a actriz supostamente inteligente, como o absurdo da personagem de Roberto Benigni, a celebridade instantânea. Mas Allen não se livra, ele mesmo, de clichés.
A Roma que nos oferece é a de um postal ilustrado de há cinquenta anos: a música italiana é Volare, as cenas concentram-se entre a Piazza di Spagna e a Fontana di Trevi, as mulheres italianas usam vestidinhos à Anna Magnani e cozinham, ou têm mamas como a Sofia Loren e são putas. O actor italiano é um personagem de Fellini. Já vimos (eu já vi) boa parte daquelas histórias.
A surpresa, e a razão por que fui ao cinema, é o cangalheiro que canta ópera no duche: porque é nada mais nada menos que Fabio Armiliato, e quem esperaria que um tenor se desembaraçasse tão bem como actor de cinema?
Quanto à ópera, a visão de Woody Allen, que encenou Gianni Schicchi na Ópera de Los Angeles em 2008, é uma visão americana. Ou então não é nada disso: o filme é que tem como público-alvo os americanos. Esta é a Roma que eles querem, a ópera que eles reconhecem, as piadas que pagam as contas.
Eu saí bem disposta. Nestes dias, isso já é muito bom.
É óbvio que Allen está mais velho: a ironia não o abandonou, mas serve-lhe agora para desmontar os excessos da intelectualidade com que nos entreteve e fascinou nos anos setenta e oitenta. Diverte-se, e diverte-nos, a arrasar clichés, e nisso tanto vale Alec Baldwin, espécie de génio da lâmpada a denunciar a actriz supostamente inteligente, como o absurdo da personagem de Roberto Benigni, a celebridade instantânea. Mas Allen não se livra, ele mesmo, de clichés.
A Roma que nos oferece é a de um postal ilustrado de há cinquenta anos: a música italiana é Volare, as cenas concentram-se entre a Piazza di Spagna e a Fontana di Trevi, as mulheres italianas usam vestidinhos à Anna Magnani e cozinham, ou têm mamas como a Sofia Loren e são putas. O actor italiano é um personagem de Fellini. Já vimos (eu já vi) boa parte daquelas histórias.
A surpresa, e a razão por que fui ao cinema, é o cangalheiro que canta ópera no duche: porque é nada mais nada menos que Fabio Armiliato, e quem esperaria que um tenor se desembaraçasse tão bem como actor de cinema?
Quanto à ópera, a visão de Woody Allen, que encenou Gianni Schicchi na Ópera de Los Angeles em 2008, é uma visão americana. Ou então não é nada disso: o filme é que tem como público-alvo os americanos. Esta é a Roma que eles querem, a ópera que eles reconhecem, as piadas que pagam as contas.
Eu saí bem disposta. Nestes dias, isso já é muito bom.
terça-feira, 25 de setembro de 2012
Impressões da Alemanha Parte VI
O tempo nesse dia não estava grande coisa, mas ainda assim o passeio de barco pelo porto de Hamburgo, o segundo maior da Europa apesar de ficar a cerca de oitenta quilómetros do mar, foi muito interessante.
Há ali de tudo, e eu não vi um centésimo. Gruas enormes, por supuesto:
navios de cruzeiro:
mas também praias:
cargueiros tão atulhados que me perguntei como é que metade daqueles contentores não cai ao mar durante as tempestades do mar do Norte:
arquitectura moderníssima, como o edifício da Unilever*:
ou a nova Elbphilharmonie:
Quando esta estiver pronta, volto a Hamburgo. Pode ser que tenha a sorte de apanhar um concerto como este:
que teve críticas fantásticas, como o Paulo descobriu aqui, aqui, aqui...
*Só a ponho no blogue porque diz que está a fazer um grande esforço para abandonar os testes em animais.
Há ali de tudo, e eu não vi um centésimo. Gruas enormes, por supuesto:
navios de cruzeiro:
mas também praias:
cargueiros tão atulhados que me perguntei como é que metade daqueles contentores não cai ao mar durante as tempestades do mar do Norte:
arquitectura moderníssima, como o edifício da Unilever*:
ou a nova Elbphilharmonie:
Quando esta estiver pronta, volto a Hamburgo. Pode ser que tenha a sorte de apanhar um concerto como este:
que teve críticas fantásticas, como o Paulo descobriu aqui, aqui, aqui...
(Todas as fotos: Hamburg, Setembro 2012)
*Só a ponho no blogue porque diz que está a fazer um grande esforço para abandonar os testes em animais.
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domingo, 23 de setembro de 2012
Impressões da Alemanha Parte IV
Restauradas, reconstruídas, certas ou em dúvida de autenticidade, mais ou menos interessantes, não têm conta as casas de celebridades que se podem visitar.
a de Thomas Mann em Lübeck, que só vi por fora;
a de Händel em Halle, muito aldrabada;
a de Liszt em Weimar, pobrezinha, mas os pianos eram mesmo dele;
a de Goethe em Weimar, abastada mas com algum mau gosto, com peças autênticas, incluindo a biblioteca:
a de Bach em Eisenach, talvez a mais interessante como museu, mas provavelmente a casa errada. Tem o único objecto caseiro que se sabe ter pertencido a Bach, este copo de vidro:
Divertido mesmo foi fazer um piquenique junto da porta de serviço da outra casa de Goethe em Weimar (a casa no parque, Goethes Gartenhaus), fechada nesse dia, enquanto os passantes nos olhavam espantados.
a de Thomas Mann em Lübeck, que só vi por fora;
a de Händel em Halle, muito aldrabada;
a de Liszt em Weimar, pobrezinha, mas os pianos eram mesmo dele;
a de Goethe em Weimar, abastada mas com algum mau gosto, com peças autênticas, incluindo a biblioteca:
(Weimar, Setembro 2012)
a de Schiller em Weimar, na qual pouco mais que os armários é genuíno;a de Bach em Eisenach, talvez a mais interessante como museu, mas provavelmente a casa errada. Tem o único objecto caseiro que se sabe ter pertencido a Bach, este copo de vidro:
(Eisenach, Setembro 2012)
a de Lutero em Eisenach, onde o maior destaque é dado à vida num vicariato.Divertido mesmo foi fazer um piquenique junto da porta de serviço da outra casa de Goethe em Weimar (a casa no parque, Goethes Gartenhaus), fechada nesse dia, enquanto os passantes nos olhavam espantados.
(Weimar, Setembro 2012)
segunda-feira, 3 de setembro de 2012
Férias!
Heil dir, Sonne!
Heil dir, Licht!
Heil dir, leuchtender Tag!
Lang war mein Schlaf;
ich bin erwacht.
O resto da letra e respectiva tradução pode ser encontrado aqui e aqui, assim como algumas excelentes interpretações, mas a música mesmo antes das primeiras palavras de Brünnhilde é igualmente gloriosa.
Heil dir, Licht!
Heil dir, leuchtender Tag!
Lang war mein Schlaf;
ich bin erwacht.
O resto da letra e respectiva tradução pode ser encontrado aqui e aqui, assim como algumas excelentes interpretações, mas a música mesmo antes das primeiras palavras de Brünnhilde é igualmente gloriosa.
sexta-feira, 17 de agosto de 2012
Descoberta do dia
Ouvi hoje pela primeira vez na rádio e, surpresa!, gostei deste Concerto para dois pianos de Igor Stravinsky.
terça-feira, 24 de julho de 2012
A cidade dos mortos
Quem visita o Cemitério dos Prazeres em Lisboa depressa se familiariza com o talhão dos artistas, com o jazigo do marquês de Valle Flor
ou o do Monteiro dos Milhões, senhor da Quinta da Regaleira
Mas há sempre outras preciosidades a descobrir, como este túmulo construído por um tal Ricardo José d'Aguiar orgulhoso do seu mister como qualquer almirante ou deputado (clicar na foto para aumentar):
ou este outro, que aguçou logo a minha curiosidade. Alguém sabe quem está ali enterrado?
ou o do Monteiro dos Milhões, senhor da Quinta da Regaleira
Mas há sempre outras preciosidades a descobrir, como este túmulo construído por um tal Ricardo José d'Aguiar orgulhoso do seu mister como qualquer almirante ou deputado (clicar na foto para aumentar):
ou este outro, que aguçou logo a minha curiosidade. Alguém sabe quem está ali enterrado?
(Lisboa, Julho 2012)
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