O pardalito voltou - tem voltado todos os dias. Primeiro pensei que tinha vindo pela alpista, mas percebi que não era assim: veio porque nos acha graça, acha graça a não ter medo de nós, e acha graça a que lhe atiremos umas gulodices. Passeia-se a meio metro de mim e do Jr, que o observa, só um bocado ciumento desde que teve de partilhar com ele um dos mini-queques do Continente.
(Hoje, no meu jardim)
Os outros vêm à meia-dúzia, quando não está nenhum humano à vista, e fogem assim que pressentem um movimento. Ele vem sozinho, a horas mais ou menos certas, como quem diz: Sou da casa, está bem?
Claro que está bem. Vou chamar-lhe Aurélio.
Acabei de ler Portugal na Hora da Verdade, o mais recente livro do ministro da Economia e amigo blogueiro, Álvaro Santos Pereira.
Do meu ponto de vista é um livro bem construído: começa pelo diagnóstico, estuda as causas da doença, propõe a terapêutica e o programa de reabilitação.
Diz coisas que toda a gente já percebeu e outras que para mim são novidade, ou que precisavam de ser reforçadas.
Imagem da editora
Alguns exemplos:
sobre o euro:
A verdade é que, a longo prazo, as desvalorizações não contribuem para a competitividade das economias
pg 40
(...) as empresas dos países com moedas fortes são forçadas a obter melhorias de produtividade significativas para se poderem manter competitivas nos mercados internacionais.
pg 354
sobre as obras públicas:
(...) em Portugal não existe um keynesianismo empedernido, mas sim um fontismo extremado.
pg 46
(...) se a política fontista de desenvolvimento de infra-estruturas se justificava perfeitamente nos anos 1980 e 1990, por causa do nosso evidente atraso nesta área (...) na última década (...) tem sido uma verdadeira desgraça para a economia nacional.
pg 47
As obras públicas só devem avançar quando ajudarem a melhorar a competitividade das nossas exportações e houver condições para financiá-las.
pg 427
(...) uma medida simbólica para combater o fontismo do nosso Estado seria extinguir de uma vez por todas o Ministério das Obras Públicas.
pg 525
A produtividade nacional não depende dos investimentos públicos nem de grandes obras públicas. Ponto final. Parágrafo.
pg 526
sobre a reforma do Estado:
O S[ector]E[empresarial do] E[stado] tem variado imenso nas últimas décadas, atingindo um máximo de 15% do PIB após as nacionalizações que caracterizaram o período pós revolucionário, quando uma boa parte das nossas empresas industriais e financeiras foi colocada (à força) nas mãos do Estado, com o pretexto de eliminar monopólios privados e de aumentar a eficiência e a gestão dessas mesmas empresas. Obviamente, nem os monopólios acabaram nem a eficiência melhorou.
pg 113
(...) os institutos públicos são um instrumento ao dispôr dos ministros para poderem aumentar a sua esfera de influência na administração pública e na própria sociedade.
pg 123
(...) o próximo governo devia criar um ministério temporário para a reforma do Estado (...)com um período de vigência não superior a dois anos. (...) Acabada a reorganização, deve terminar o mandato desse ministério temporário.
pg 527
sobre a reforma das leis laborais:
Se a fábula dos direitos adquiridos não faz sentido no mundo actual, também não é razoável, nem sequer aconselhável, tentar implementar uma nova reforma laboral sem explicar devidamente aos trabalhadores e sindicatos o que está em causa.
pg 217
(...) porque não introduzir uma flexibilização laboral ao nível sectorial, nos sectores mais abertos à concorrência internacional? (...) poderemos utilizar a experiência para verificar se, realmente, uma maior liberalização laboral conduz a mais desemprego e precaridade.
pg 414
sobre as contas públicas:
(...) em tempos de crise, todas as migalhas contam para conseguirmos dar a volta à delicada situação fiscal do nosso Estado.
pg 304
(...) nenhum destes esforços orçamentais seria, por si só, suficiente para assegurar uma diminuição da dívida pública alargada para níveis significativamente abaixo de 100% do PIB. (...) é bastante possível que, mais cedo ou mais tarde, um governo português se declare impotente para pagar a totalidade da dívida pública.
pg 459
sobre a diminuição dos salários:
Paul Krugman, prémio Nobel da Economia em 2008, (...) estimou recentemente que Portugal necessitava de uma descida de salários entre os 20% e os 30% para que as exportações nacionais se pudessem tornar novamente competitivas.
pg 359
Segundo Ferreira do Amaral (...) [a] descida de salários é um instrumento particularmente ineficaz para melhorar a competitividade externa. (...) teriam de descer 60%!
pg 361
sobre a aposta na agricultura e actividades tradicionais:
(...) muitos outros países e regiões avançadas e com sucesso o fazem e tornaram a agricultura um dos seus maiores sectores exportadores. (...) é o que se passa em Espanha, em França, no Canadá e até mesmo na Califórnia (...)
pg 401
É um programa corajosamente liberal (corajosamente porque em Portugal liberal é uma palavra usada como um insulto). Para resultar, o ataque à doença teria que ser feito sem delongas, com a dose útil recomendada dos medicamentos de primeira linha, para evitar as resistências dos (micro)organismos patogénicos instalados. Como o próprio Álvaro escreve sobre a baixa da Taxa Social Única:
(...) só valerá a pena se for substancial. (...) Tentar fazê-lo a conta-gotas retiraria toda a força da medida.
pg 368
E no entanto, no clima internacional actual, valerá alguma coisa?
Devia vir cheio de fome. Chegou à hora (tardia) do almoço e, corajoso, aproximou-se da mesa. Atirámos-lhe um bocadinho de milho frito. Comeu, gostou, pediu mais. Fiquei a pensar se iria contar aos outros ou guardaria segredo.
Mais tarde, regressou. Dei-lhe alpista. Comeu. Mesmo correndo o risco de se tornar o pardalito mais gordinho da vizinhança, espero que volte amanhã.
(Hoje, no meu jardim)
A edição impressa do Expresso vem cheia de protestos contra as agências de notação.
Espero que não passem de desabafos como o meu ou o do próprio Passos Coelho. Porque a Moody's tem, em princípio, razão, e nós só (só nós) podemos desmenti-la, com uma boa governação, muito trabalho, grandes sacrifícios e umas toneladas de sorte.
Notícia do Público:
Oliveira com 2850 anos
Árvore mais velha de Portugal certificada este sábado vive em Santa Iria da Azóia
07.07.2011 - 20:16 Por Tiago Pereira Carvalho
Uma oliveira bravia com 2850 anos foi identificada como a árvore mais velha do país por um grupo de investigadores da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro (UTAD). Vive em Santa Iria da Azóia, concelho de Loures, e teve o guerreiro Viriato como contemporâneo.
(...)
Já em 2009 o Público dera notícia de outra oliveira antiquíssima, que mora aqui na mourama e que, vergonha!, ainda não visitei - e essa sim, é praticamente contemporânea de Viriato, enquanto a de Santa Iria da Azóia é mais velha que a própria Roma.
Haja respeito pelas árvores. As oliveiras, então, que como nós se vão torcendo e retorcendo à medida que a idade avança, num processo talvez igualmente doloroso e, pelos vistos, tão mais longo.
Notícia do Observatório do Algarve:
Saramago: Autarquias de "A Viagem do Elefante" apostadas em fazer uma rota turística
07-07-2011 9:58:00
As autarquias das paragens por onde andou Salomão, o elefante do livro de José Saramago, estão apostadas em fazer do percurso do paquiderme uma rota turística. O primeiro passo será dado hoje pela câmara de Figueira de Castelo Rodrigo.
(...) Lisboa, Fundão, Pinhel, Belmonte, Sabugal e Constância – “já mostraram interesse” em aderir à rota idealizada por aquela autarquia.
Este género de iniciativas parece-me muito interessante, tanto do ponto de vista turístico quanto cultural, e espero que vá por diante. Mas já o ano passado o mesmo jornal online noticiou a criação de uma Rede de Cidades Romanas do Atlântico, da qual nunca mais ouvi falar.