segunda-feira, 23 de abril de 2012

Um cão em Inglaterra

Há uma ideia que os ingleses gostam muito de cães, mas não sei se é assim. Tal como os portugueses, os restaurantes de Londres dizem que a lei os proíbe de aceitar a entrada de cães, o que não é verdade como não é . O hotel em que ficámos pôs-nos num quarto na cave (embora com janela) e não se vêem cães a passear na rua com os donos, ao contrário do que é comum nos países civilizados do continente.

Para além disso, apesar de a União Europeia os ter finalmente convencido a deixar entrar no país cães identificados e vacinados sem exigirem quarentenas nem testes serológicos, ainda não se consegue levá-los na cabine de um avião, que é o normal até para a terra dos trolls.




Assim, o Jr teve de viajar de ferry e a sua primeira visão de Inglaterra foi, como a de César, as colinas brancas de Dover.



(Dover, Abril 2012)




Depois andou a passear pelos lugares turísticos, com o sucesso habitual.

(London, Abril 2012)

E como, afinal, em Roma se deve agir como um Romano, foi passear no parque e aí socializou com os cães residentes.

domingo, 22 de abril de 2012

Rigoletto em Londres

Algumas críticas eram devastadoras: uma encenação cansada, um tenor vaidoso e espalhafatoso, uma orgia inicial parva. Parecia salvar a situação o facto de toda a gente cantar muito bem e, apesar de tudo, não é isso que mais importa quando se vai à ópera?

Com as expectativas baixas, ainda para mais tendo comprado bilhetes de banco (os melhores lugares na Royal Opera House têm preços que não me disponho a pagar), encontrei-me sentada a um lado, perto e ligeiramente acima do nível do palco, quase sobre a orquestra, com visão e audição total do que se passava em cena.

E foi assim: a encenação de David McVicar é naturalista, directa, sem conceptualismos nem simbolismos senão o de não adoçar a pílula: a festa inicial é uma orgia para que se entenda o nível de depravação geral no qual Rigoletto é conivente com um horror desesperado que vamos perceber em seguida, tornando toda a história plausível para um público do século XXI habituado a cenas explícitas. As crianças que assistiam não devem ter ficado perturbadas com o que perceberam nem com o que não perceberam. Claro que toda aquela movimentação distrai da música, mas esta não era uma versão de concerto.

O cenário é simples e negro, como afinal a história, numa plataforma giratória que o muda entre cenas e que era bom, acho eu, que girasse mais depressa.

A música é o que é: na minha opinião, uma das três óperas que não têm um momento aborrecido. A orquestra da ROH esteve muito bem dirigida por John Eliot Gardiner, que deu espaço aos cantores sem retirar a vivacidade à partitura. Os solos de violoncelo que acompanham as árias de Rigoletto foram de uma doçura extrema.

No papel principal esteve Dimitri Platanias, que foi o Posa do Don Carlo em Outubro passado no S. Carlos; na altura achei que tinha uma voz bonita e limitações cénicas, e agora confirmei-o, mas ouvia-se muito melhor desta vez - se calhar pelo lugar em que eu estava. Como Rigoletto, a voz de Platanias transmitiu a raiva e o desespero, assim como a ternura paternal. Bem diferente do último Rigoletto a que assisti ao vivo.

Ekaterina Siurina foi uma excelente Gilda, com uma voz bem timbrada e retratando bem a um tempo a inocência e a malícia de uma adolescente apaixonada. Vittorio Grigolo tem sido atacado pela sua vaidade e superficialidade, mas achei-o muito bem num Duca amoral e cruel, para cujo papel tem uma belíssima e potente voz. Só dispensava uma ou duas ornamentações que penso que Verdi não terá escrito. Gostei muito da Maddalena de Christine Rice, e o quarteto foi perfeito (melhor que no video).

Bem igualmente Matthew Rose como Sparafucile e Zhengzhong Zhou como Marullo, assim como a portuguesa Susana Gaspar na condessa Ceprano. Mais fraco o Monterone de Gianfranco Montresor, sem voz nem ira para uma maldição credível.

Talvez tudo isto seja pouco para quem vive em Londres e tem como certa a sua riqueza cultural. Para mim, foi uma alegria.

sábado, 21 de abril de 2012

Kaufmann em Bruxelas

Voltar a ouvir Jonas Kaufmann, dois meses depois de Munique, acompanhado pela Orchestre National de Belgique num programa baseado nos seus CDs Verismo Arias e Sehnsucht era uma oportunidade imperdível.










Imagem Bozar



Os belgas devem ter achado o mesmo, porque a casa, se não estava esgotada, para lá caminhava, e os aplausos foram muitos e sem restrições. A habitual solicitação para que não se fotografasse nem filmasse foi totalmente esquecida no final, graças aos telefones celulares.

(Bruxelles, Abril 2012)

A orquestra começou muito certa, muito afinada, dirigida de maneira clara pelo maestro Jochen Rieder, e servindo o cantor com alguma delicadeza na primeira parte do concerto, menos bem, pareceu-me, na parte final. É certo que nem eu nem provavelmente noventa por cento das pessoas que enchiam a sala Henri Boeuf do Palais des Beaux-Arts de Bruxelas (carinhosamente conhecido como Bozar) lá estávamos para a ouvir, pelo que o alinhamento, que alternava uma peça instrumental com uma ária vocal, rapidamente se converteu - pelo menos para mim - numa irritação.

Kaufmann, esse, esteve perfeito: a voz sensual e expressiva chegando a tudo o que ele quis, a presença elegante e simpática, a disponibilidade para corresponder aos pedidos de mais música. Pontos altos, as árias Giulietta! Son io, La fleur que tu m'avais jetée, e a minha favorita, In Fernem Land.
Ovacionado de pé e chamado repetidamente ao palco, só conseguiu sair depois de cinco encores e contra a vontade de quem ainda o aplaudia.

Pode ver-se aqui, por curiosidade, ou aqui, em melhores condições, alguns momentos gravados à socapa por membros da assistência.

Um museu musical

Entre outros museus extraordinários, Bruxelas conta com o Musée des Instruments de Musique, uma colecção com cerca de oito mil peças vindas de todo o mundo, embora principalmente da Europa, das quais estão visíveis mil e duzentas, instaladas num edifício igualmente extraordinário, de estilo Art Nouveau, com quatro pisos de exposição, uma loja e um restaurante no terraço.

Visitei-o a correr, como de costume, e pareceu-me relativamente escasso em informações, embora ofereça a possibilidade interessante de se ouvir o som de uma boa parte dos instrumentos. Estes são muitos, muito variados e alguns raros e surpreendentes. O museu tem de resto uma publicação chamada 50 instruments insolites que inclui alguns dos meus preferidos, como a harmónica de vidro, a harpa cromática ou este Geigenwerk, no qual as cordas são friccionadas por arcos giratórios accionados pelas teclas.

(Bruxelas, Abril 2012)

Fiquei igualmente a saber uma coisa que se calhar não é novidade para ninguém: o saxofone foi inventado por um belga, o senhor Adolphe Sax, que lhe deu o nome.

domingo, 15 de abril de 2012

Jardins urbanos

Há três ou quatro anos fiquei espantadíssima quando soube que em plena cidade de Londres vivem raposas. E fiquei agora igualmente espantada ao saber que em Bruxelas há papagaios à solta.

E há mesmo. O meu amigo A. mora bem perto do Parc du Cinquantenaire e no jardim do prédio dele há uma azáfama de passarinhos impressionante. Às seis da manhã acordei com um verdadeiro concerto. Depois descobri um casal de gaios que levaram o dia todo a construir um ninho. E, quando estava entretida a fotografá-los, eis que mais abaixo, em voo franco, passaram os papagaios mais verdes que já vi.

Depois disto, corvos no passeio dificilmente surpreendem. Ah, as histórias que vou ter para contar aos meus pardalitos...

(Bruxelas, Abril 2012)

sexta-feira, 13 de abril de 2012

O singular

Numa loja de roupa desportiva.

Eu:
Preciso de uns ténis para o Verão.

A empregada, muito simpática:
Bem, téni, téni, de senhora, de momento não tenho.