quinta-feira, 12 de julho de 2012

Assim de repente

Olhando para o plano de estudos da licenciatura em Ciências Políticas e Relações Internacionais da Universidade Lusófona, alguém acha normal que quem não obteve equivalência à cadeira de Introdução ao Pensamento Contemporâneo (1º ano) a pudesse obter à de Etologia e Antroposociobiologia (2º ano)?

quarta-feira, 11 de julho de 2012

O Inverno do Leão

Quando estive em Bordéus lembrei-me muito do filme The Lion in Winter, que conta as desavenças familiares por causa da sucessão ao trono de Inglaterra, ambicionada pelos três filhos de Henrique II: Ricardo Coração de Leão, Geoffrey e João Sem Terra. A rainha, peça fundamental desse xadrez sem tabuleiro, era Leonor da Aquitânia, uma mulher extraordinária com uma vida extraordinária, casada em primeiras núpcias com o rei de França, divorciada e re-casada com Henrique de Anjou, que viria a ser rei de Inglaterra. No filme era representada por Katharine Hepburn, uma das minhas actrizes favoritas, e o rei era Peter O'Toole.

Pois Peter O'Toole, aos oitenta anos, depois de mais de cinquenta de actividade, em que foi nomeado oito vezes para os Óscares mas só ganhou o prémio de carreira, perdida há muito a beleza estonteante de Lawrence of Arabia, cujos olhos nem pelos de Mel Gibson foram superados, decidiu reformar-se agora. Segundo disse, sai porque já não tem vontade de fazer filmes nem teatro.

Foto daqui


Eu fiquei cheia de inveja porque, no mundo actual, em que se corta tudo o que conforta quem trabalha (os médicos estão hoje em greve!) e em que no entanto a idade da reforma se afasta por imposição de uns quantos que não obedecem à sua própria regra, gostaria que só aos oitenta anos me passasse a vontade de trabalhar, mas não me parece que aconteça.

terça-feira, 3 de julho de 2012

Da cópia

Se não me engano foi ontem que ouvi na Antena2 o primeiro andamento do Concerto para Trompete em Mi bemol de Haydn, tocado por Wynton Marsalis, e percebi que conhecia aquilo de qualquer outro lado.
Oiça-se então logo no princípio, ao minuto 0:37, este tema que é aqui tocado pelas cordas e é repetido mais adiante várias vezes, inclusivamente pelo solista (por exemplo em 1:40):


e agora oiça-se esta ária da ópera Fidelio de Beethoven, onde o mesmo se encontra a partir do minuto 6:10:


A Ana Vidal, no seu post de hoje, propõe que estas coisas se passem quando a mente não reconhece o déjà vu (déjà entendu, no caso) e "acredita" estar a criar uma nova sequência musical, quando, afinal, está apenas a reproduzir uma que tem gravada na memória. Uma boa hipótese, claro, embora para os grandes compositores de antigamente se possa também imaginar, como já tem sido dito neste blogue, que tenham ouvido um tema, gostado e resolvido utilizá-lo, sem grandes problemas quanto à respectiva atribuição.
Nesses séculos, suponho, a questão dos direitos de autor não se devia pôr da mesma maneira.

domingo, 24 de junho de 2012

Da inutilidade do prolongamento

Se há regra inútil e mesmo deletéria em futebol é o prolongamento depois de um jogo empatado.
Parece-me evidente que se em noventa minutos nenhuma equipa conseguiu resolver o assunto, não será mais meia hora, com os jogadores cansadíssimos, que trará a solução. Nem seria justo.

Passem directamente aos "penáltis", enquanto ainda se aguentam nas pernas.

sexta-feira, 22 de junho de 2012

Os vinhos de Bordéus

Quem visita Bordéus não pode deixar de aprender qualquer coisa sobre os vinhos da região nem de visitar um ou dois châteaux e provar os respectivos vinhos.

(Médoc, Junho 2012)

Os châteaux não são mais do que propriedades vinícolas. Podem ter, e frequentemente têm, umas mansões com ar de solar antigo. Umas são antigas, outras nem tanto, e há mesmo telhadinhos pretos muito catitas feitos agora para dar estilo.

(Ch. du Taillan, Haut-Médoc, Junho 2012)

(Ch. Palmer, Margaux, Médoc, Junho 2012)

Dentro da região de Bordéus e a toda a volta da cidade distinguem-se várias sub-regiões que têm direito a usar denominações de origem controlada*: as principais, no sentido dos ponteiros do relógio são Médoc, Blaye e Bourg, St. Émilion, Entre-deux-mers, Sauternes, Graves, Pessac-Léognan. Algumas só produzem vinho tinto, outras só branco, algumas ambos.

Os primeiros vinhos de qualidade foram classificados em 1855 e orgulham-se disso, ostentando nas garrafas o título grand cru classé. No século XX apareceram mais produtores e mais classificações: cru bourgeois, cru artisan... Todos eles se baseiam nas mesmas castas, com variações de percentagem; assim, os tintos são feitos de uma mistura de Cabernet Sauvignon, Merlot e Cabernet Franc, podendo ter percentagens mínimas de outras castas, e os brancos são constituídos por Sauvignon Blanc e Semillon e, nos doces, Muscadelle.

Da uva ao vinho, o processo hoje em dia é mais ou menos o mesmo em todo o lado: se não me engano na cronologia, uma vez colhidas as uvas maduras, separa-se os grãos dos talos e folhas (engaço), espreme-se os grãos (quando eu era criança ainda se pisava), separa-se ou não as peles do mosto, põe-se este em cubas de inox a fermentar, decanta-se, purifica-se e estabiliza-se. Em seguida procede-se à mistura das castas; os tintos podem ser então envelhecidos em barris de madeira de carvalho, os brancos passam logo à fase de engarrafamento.

(Ch. Lynch-Bages, Pauillac, Médoc, Junho 2012)

Para meu gosto pessoal, o Cabernet Sauvignon numa percentagem superior a 75% resulta num aroma animal demasiado forte, e os Médoc podem ir muito além disso. Gostei bastante dos brancos de Graves e Pessac-Léognan. O Entre-deux-mers branco foi o mais fraco de tudo o que bebi. Mas os melhores vinhos, lá como cá, têm preços impossíveis e os châteaux mais afamados não fazem provas abertas ao comum dos mortais.



*AOC = appelation d'origine controlée