quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

Take five

Hoje é dia de obituário: morreu Oscar Niemeyer, o arquitecto de Brasília, que em Portugal deixou o Casino Park Hotel do Funchal. E morreu Dave Brubeck, o pianista de jazz cuja peça Take Five me acompanhou muitas vezes na rádio, no caminho para o hospital, quando vivi em Miami.

Aqui fica ela, em homenagem a dois grandes que foram agora descansar.

domingo, 2 de dezembro de 2012

La Clemenza di Tito

Apesar de a temporada de transmissões do Met (porque lhe chamamos o Met se o nome oficial é a casa, por isso feminino? Adiante) para a Fundação Gulbenkian já ir em velocidade de cruzeiro, só ontem nela embarquei, com a última de Mozart, La Clemenza di Tito, na encenação de Jean-Pierre Ponnelle, ambientada na época em que a obra foi criada em vez daquela em que decorre a acção.
Este detalhe àparte, nada de especial a assinalar numa encenação com quase trinta anos, que segue fielmente o libretto e se preocupa com a movimentação dos cantores. Cenários e figurinos são de modelo apropriado mas não os achei bonitos.

O maestro Harry Bicket, que é director da orquestra barroca The English Concert, diz que à Orquestra do Met não se deve pedir um som diferente do que ela tem; depois daqueles solos sublimes dos sopros, eu certamente não peço.

Os cantores: as duas mezzos, Elina Garanča e Kate Lindsey, nos papéis de Sesto e Annio, têm vozes muito bonitas e expressivas; a soprano Barbara Frittoli, graças a um grande domínio técnico, aguentou-se nas difíceis árias de Vitellia, e particularmente em Non più di fiori, foi mesmo aplaudida pela orquestra; pelo contrário, Giuseppe Filianoti viu-se aflito com a coloratura. Gostei dos agudos cristalinos de Lucy Crowe como Servilia e o baixo Oren Gradus, como Publio, também esteve bem. O coro cumpriu mas não me emocionou.


Para a semana há mais. E na sexta-feira, para quem tiver o canal Arte na televisão, há a transmissão directa da abertura da temporada do Teatro alla Scala, com o Lohengrin de sonho para o qual não consegui bilhetes nas récitas "normais". Agradeço ao Paulo esta informação.

quinta-feira, 29 de novembro de 2012

Três perguntas

Qual a vantagem que as televisões nacionais encontram ainda neste modelo de debate/frente-a-frente/entrevista em que todos os comentadores, sejam políticos, economistas, jornalistas, professores ou outros, não fazem mais que repetir as mesmas coisas, ainda que com o ar de terem descoberto a pólvora?

O pessoal ainda vê, apesar de toda a gente, incluindo taxistas e empregadas de limpeza, já ser capaz de papaguear os mesmos chavões sobre como o aumento brutal dos impostos leva a mais desemprego e à destruição da economia?

Finalmente: quando toda a gente diz o mesmo, tem razão ou está na altura de procurar outra verdade?

quarta-feira, 28 de novembro de 2012

A luta continua

Notícia do Público:

Cientistas portugueses obrigam células cancerosas a suicidarem-se
Teresa Firmino   27/11/2012 - 07:44
O controlo de uma única reacção química numa proteína teve como consequência a morte de células que, por definição, são imortais. Patente para esta inovação foi pedida para a Europa.
(...)


Em resumo, um dos problemas com as células cancerosas está na falta de contenção do seu processo de divisão/multiplicação. A estabilidade deste processo é regulada por uma proteína, a CLASP2, que sofre uma modificação mediada por outra proteína, a Plk1.
Se se actuar sobre esta última, pode-se impedir a modificação da primeira e desestabilizar o processo de divisão celular, impedindo-o.

(...) 
“Quando impedimos que esta modificação acontecesse, as células não conseguiam estabilizar o interface e não conseguiam (...) dividir-se”, explica Hélder Maiato. “Acabavam por morrer, sem conseguirem dividir-se.”
(...)

Ou seja: interrompe-se o crescimento do tumor por não haver aumento do número de células, sendo que as que não conseguem dividir-se acabam por morrer.

Esta parece-me ser a notícia mais importante do dia. O resumo do artigo original está no Journal of Cell Biology.

terça-feira, 20 de novembro de 2012

Haverá agricultores budistas?

O respeito por todos os animais é muito bonito, mas eu não andei a plantar couves para serem devoradas por caracóis. E aquela história de os desviar para um prato com cerveja onde se afogariam bêbados e felizes, é um mito.

(Hoje, na minha horta)

A não ser que tenha razão quem me disse que foi porque não lhes ofereci tremoços e amendoins ;-)

segunda-feira, 12 de novembro de 2012

007 Skyfall

Depois de ler as críticas positivas nos blogues O Livro de Areia e In Fernem Land, lá me enchi de esperança e fui ver o último filme de James Bond, Skyfall.
Se calhar ando muito exigente... A verdade é que estive entretida durante duas horas, mas foi uma decepção. Não encontrei praticamente nada de Bond.

Falta-lhe principalmente o humor característico. Há sarcasmo e algumas boas respostas (What makes you think it's my first time?), mas toda a gente, incluindo o próprio Bond, se leva muito a sério. Pode até dizer-se que tudo o que acontece neste filme se deve a que os personagens se tomam demasiado a sério (mesmo Eve, que é um sério caso de baixa auto-estima). O que não é o mesmo que densidade psicológica, que não vi em lado nenhum.

A propósito, continuo a não gostar de Daniel Craig neste papel, e a achar que seria muito melhor aproveitado como vilão. Javier Barden, àparte a peruca loira horrorosa, é um mau muito civilizado e que mantém os seus sequazes sempre sob controle. Não há monstros e não há situações impossíveis para Bond.

Nas cenas de acção, há muitos tiros e muitos incêndios, uma perseguição de carros ou duas, umas quedas de lugares altos, um comboio, nada que não tenhamos já visto, e uma excelente perseguição de motas pelos telhados de Istambul. E que é dos brinquedos extraordinários, das canetas explosivas e dos carros anfíbios? O novo Q não passa de um hacker importado de uma série de televisão tipo 24 horas.

Falemos também de destinos exóticos: a escolha do realizador Sam Mendes de só mostrar Xangai de noite tem como resultado uma perspectiva muito asséptica da cidade. Fica-se, claro, com a sensação da sua vastidão e modernidade urbanística, mas faltam as multidões chinesas, o ar poluído, o ruído, o trânsito, as bicicletas, aquilo que (imagino) deve ser Xangai. Quanto a Macau, ficou praticamente reduzida a um casino, e a Escócia a uma paisagem desolada e um casarão abandonado cujo protagonismo (dá o nome ao filme!) é mentira.

Sem entrar em outros pormenores, menciono ainda a banda sonora, e só para dizer que o tema de Bond só aparece a três quartos do filme, a acompanhar o Aston-Martin DB5 de boa memória, que lá consegue dar um ar da sua graça antes de ser completamente destruído.

É pois esta a conclusão a que chego sobre este filme: sem carro, sem brinquedos, sem tema musical, sem namoradas e praticamente sem sexo, sem humor, sem final feliz, este é um policial negro e, intencionalmente ou não, o assassinato do mito 007.