Quando pensamos que já lavámos a loiça toda e arrumamos o esfregão, há sempre uma última peça esquecida algures atrás de nós.
Herculaneum, circa 40 BCE. At the villa Pisonis the Epicurean School of Philodemus of Gadara is an informal gathering place for those who enjoy discussing philosophy, literature, general politics, the nature of things and how to live better.
segunda-feira, 3 de março de 2014
segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014
terça-feira, 4 de fevereiro de 2014
segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014
terça-feira, 28 de janeiro de 2014
Do poder de uns homens sobre os outros
Vi recentemente dois filmes que lidavam com os direitos civis (ou a falta deles) dos negros americanos, 12 Years a Slave e The Butler.
O primeiro conta a história de um negro livre, nascido e criado em Nova Iorque em meados do século XIX, educado, profissional respeitado, com família, que é raptado e vendido como escravo num dos Estados sulistas. Durante doze anos aquele homem faz o que pode para sobreviver, confrontando-se com patrões, capatazes e outros escravos melhores e piores, mas convencidos de que os homens não são todos iguais e uns têm por lei humana e divina direito de propriedade absoluta sobre outros.
O segundo passa-se no século XX. O protagonista nasceu numa plantação de um Estado do sul, onde os negros já não são escravos mas são tratados como tal. Procura melhor vida viajando para norte e é contratado como criado (chamam-lhe mordomo, mas só de nome) para a Casa Branca. A sua vida e a da sua família correm ao longo dos anos desde a presidência de Eisenhower à de Reagan e por aí fora, já reformado, à de Obama. Ao longo desses anos ele mantém-se afastado das lutas pela integração racial, mas o seu filho mais velho torna-se activista nelas.
De ambos os filmes se pode dizer que acabam bem, o que para mim já vai sendo importante. Como dizia o meu avô, amarguras, só as da vida. Mas ambos põem questões que parecem não desaparecer ao longo da história da humanidade, e que se resumem ao paradoxo de alguns se considerarem superiores a outros (cristãos, não-cristãos, negros, judeus, homossexuais) e por isso com o direito de maltratar estes últimos. Paradoxo porque me parece que, mesmo que isso fosse verdade e houvesse grupos "inferiores" por terem menor capacidade física ou intelectual, deveriam ser acarinhados e protegidos, como devem ser acarinhados e protegidos os mais fracos, sejam velhos, crianças, doentes ou inclusivamente os animais.
Continua válido o provérbio que outro dia me citaram: para veres o vilão, põe-lhe o pau na mão. Agora que estão na ordem do dia as praxes académicas (ver os posts da Helena sobre o tema), a única diferença parece ser a aparente anuência das "bestas" na sua própria bestialização.
O primeiro conta a história de um negro livre, nascido e criado em Nova Iorque em meados do século XIX, educado, profissional respeitado, com família, que é raptado e vendido como escravo num dos Estados sulistas. Durante doze anos aquele homem faz o que pode para sobreviver, confrontando-se com patrões, capatazes e outros escravos melhores e piores, mas convencidos de que os homens não são todos iguais e uns têm por lei humana e divina direito de propriedade absoluta sobre outros.
O segundo passa-se no século XX. O protagonista nasceu numa plantação de um Estado do sul, onde os negros já não são escravos mas são tratados como tal. Procura melhor vida viajando para norte e é contratado como criado (chamam-lhe mordomo, mas só de nome) para a Casa Branca. A sua vida e a da sua família correm ao longo dos anos desde a presidência de Eisenhower à de Reagan e por aí fora, já reformado, à de Obama. Ao longo desses anos ele mantém-se afastado das lutas pela integração racial, mas o seu filho mais velho torna-se activista nelas.
De ambos os filmes se pode dizer que acabam bem, o que para mim já vai sendo importante. Como dizia o meu avô, amarguras, só as da vida. Mas ambos põem questões que parecem não desaparecer ao longo da história da humanidade, e que se resumem ao paradoxo de alguns se considerarem superiores a outros (cristãos, não-cristãos, negros, judeus, homossexuais) e por isso com o direito de maltratar estes últimos. Paradoxo porque me parece que, mesmo que isso fosse verdade e houvesse grupos "inferiores" por terem menor capacidade física ou intelectual, deveriam ser acarinhados e protegidos, como devem ser acarinhados e protegidos os mais fracos, sejam velhos, crianças, doentes ou inclusivamente os animais.
Continua válido o provérbio que outro dia me citaram: para veres o vilão, põe-lhe o pau na mão. Agora que estão na ordem do dia as praxes académicas (ver os posts da Helena sobre o tema), a única diferença parece ser a aparente anuência das "bestas" na sua própria bestialização.
domingo, 26 de janeiro de 2014
Estrelas no S. Carlos
Sobre a maneira como decorreu o concerto do dia 19 de Janeiro no Teatro S. Carlos pode ler-se este post do Valkirio.
Em resumo, a casa estava praticamente cheia, as peças foram bem escolhidas e bem interpretadas, e ficámos muito contentes por ter ali no piano Artur Pizarro e na direcção da orquestra da casa Joana Carneiro, quando duas semanas antes ninguém sabia ao certo o que ia acontecer.
É sempre para mim um prazer ver Pizarro tocar, porque ele tem com o piano uma relação especial: vê-se que gosta do instrumento e acho que este, se tivesse sentimentos, também gostaria dele. Na Fantasia Coral de Beethoven essa atitude transmite a ideia de um Beethoven brincalhão, que começa a compor ao piano numa postura de vamos ver o que sai daqui, continua como hoje até estou bem-disposto, sai uma à moda de Mozart e a certa altura tem um repente, já chega, eu não sou Mozart, sou Beethoven, junta-lhe a orquestra, oh alegria, e segue por ali adiante com aquele ímpeto, com aquela emoção, e no fim acrescenta um coro heróico (muito bem, o Coro do S. Carlos) e acaba com um eh lá, tenho aqui matéria para mais uma sinfonia!
As outras peças foram Before Spring - a tribute to the Rite, de Luís Tinoco, inicialmente composta como uma espécie de abertura para ser tocada antes d'A Sagração da Primavera de Stravinski, naturalmente por ela influenciada na linguagem e na tensão e muito mais agradável ao ouvido do que eu previa, e a 6ª Sinfonia (Pastoral) de Beethoven.
Dei-me conta que conheço muito melhor as sinfonias ímpares de Beethoven do que as pares. Talvez haja uma boa razão para isso, mas se a sexta não me entusiasma (ainda) tanto como a sétima ou a nona, tem também características que para mim são tipicamente beethovenianas, os múltiplos temas cada um pelo menos tão bonito como o anterior, as re-exposições, os momentos surpresa como quando os violinos fazem o acompanhamento e a melodia principal é tocada pelos violoncelos e contrabaixos... Só ele, não?
Joana Carneiro, que eu só tinha visto ao vivo já há uns anos no Auditório Municipal de Lagos, conduz com vivacidade e entrega, com gestos largos, debruçada para a orquestra que lhe responde gostosamente.
Em resumo, a casa estava praticamente cheia, as peças foram bem escolhidas e bem interpretadas, e ficámos muito contentes por ter ali no piano Artur Pizarro e na direcção da orquestra da casa Joana Carneiro, quando duas semanas antes ninguém sabia ao certo o que ia acontecer.
É sempre para mim um prazer ver Pizarro tocar, porque ele tem com o piano uma relação especial: vê-se que gosta do instrumento e acho que este, se tivesse sentimentos, também gostaria dele. Na Fantasia Coral de Beethoven essa atitude transmite a ideia de um Beethoven brincalhão, que começa a compor ao piano numa postura de vamos ver o que sai daqui, continua como hoje até estou bem-disposto, sai uma à moda de Mozart e a certa altura tem um repente, já chega, eu não sou Mozart, sou Beethoven, junta-lhe a orquestra, oh alegria, e segue por ali adiante com aquele ímpeto, com aquela emoção, e no fim acrescenta um coro heróico (muito bem, o Coro do S. Carlos) e acaba com um eh lá, tenho aqui matéria para mais uma sinfonia!
As outras peças foram Before Spring - a tribute to the Rite, de Luís Tinoco, inicialmente composta como uma espécie de abertura para ser tocada antes d'A Sagração da Primavera de Stravinski, naturalmente por ela influenciada na linguagem e na tensão e muito mais agradável ao ouvido do que eu previa, e a 6ª Sinfonia (Pastoral) de Beethoven.
Dei-me conta que conheço muito melhor as sinfonias ímpares de Beethoven do que as pares. Talvez haja uma boa razão para isso, mas se a sexta não me entusiasma (ainda) tanto como a sétima ou a nona, tem também características que para mim são tipicamente beethovenianas, os múltiplos temas cada um pelo menos tão bonito como o anterior, as re-exposições, os momentos surpresa como quando os violinos fazem o acompanhamento e a melodia principal é tocada pelos violoncelos e contrabaixos... Só ele, não?
Joana Carneiro, que eu só tinha visto ao vivo já há uns anos no Auditório Municipal de Lagos, conduz com vivacidade e entrega, com gestos largos, debruçada para a orquestra que lhe responde gostosamente.
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