quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

Charlie, nós e eles

Diz o sheik Munir que o choca o ataque terrorista ao Charlie Hebdo porque o Islão é uma religião pacífica. Não é verdade: o Islão ortodoxo, fundamentalista, é tão pouco pacífico como foi o cristianismo durante séculos, ou o judaísmo na sua origem. Felizmente uma grande parte da Humanidade percebe, ou simplesmente sente, que acima dos preceitos mesquinhos apregoados pelos pregadores, das abstenções e das proibições, acima de tudo isso está o desejo de viver em paz, cada um consigo mesmo e com os vizinhos.
Outra parte da Humanidade, no entanto, tem prazer em causar sofrimento, e são esses sociopatas que, em nome de deuses ou de causas, de direitos ou deveres, matam, mutilam, violam, humilham, sequestram e torturam. Há-os de todas as cores e de todas as ideologias; desde o 11 de Setembro de 2001 os mais visíveis têm sido muçulmanos.

O ataque ao Charlie Hebdo é o mais recente ataque terrorista islâmico: recente e mediático, acontece depois de tantos outros mas chama a atenção para o que nos inquieta: "eles" estão no meio de nós. Não se trata de uns selvagens decapitadores na Argélia, nem do ISIL no Iraque, dos Boko Haram escravizadores de raparigas na Nigéria ou dos talibãs assassinos de adolescentes no Paquistão. "Eles" já chegaram cá, e podem de um momento para outro entrar aos tiros em qualquer sítio onde estejamos.

Não interessa que o assassino de Oslo não fosse muçulmano, nem que até há pouco tempo fossem cristãos os que armadilhavam carros de polícias no país basco ou na Irlanda do Norte: o inimigo agora usa turbante e barba aos caracóis. Presa fácil para os grupos que até há pouco agrediam homossexuais ou negros. E corremos o risco de não nos indignarmos quando houver agressões a muçulmanos. Et pourtant: os alemães, que ao contrário do que se diz têm bem vivo o seu passado (nie wieder!), desfilam visivelmente nas ruas pela aceitação e pela integração, lembrando a todos o perigo dos pogroms.

Talvez o mais importante seja o que eu espero e desejo: que os muçulmanos que vivem connosco pacificamente se manifestem também contra o terrorismo, que mostrem e digam e insistam que são "nós" e não "eles".

sábado, 3 de janeiro de 2015

Os belgas

Não sei se os belgas existem - eles também não* - mas só uma gente especial construiria uma igreja torta para não alterar o curso de uma ribeira:


e lhe cortaria mais tarde um canto para criar mais passeio para os peões:

(Bruxelles, Novembro 2014)

Por outro lado, se isto não é arte na Bélgica, sê-lo-ia certamente em Nova Iorque:

(Antwerpen, Novembro 2014)

Já este parque de estacionamento, se não fosse flamengo, só poderia ser holandês (o que, queiram eles ou não, é parecido):

(Gent, Novembro 2014)


*Mas César sabia, e dizia deles que eram os mais valentes dos povos que habitavam a Gália, porque viviam mais longe da civilização e estavam continuamente em guerra com os Germanos. Como o tempo pode mudar a geografia!

terça-feira, 30 de dezembro de 2014

Ainda Antuérpia

Antuérpia é uma cidade rica. Percebe-se ao sair do comboio na estação central

ao caminhar por avenidas desafogadas mas não desumanas

passando pelas casas das guildas na Grote Markt

ao chegar à Groenplaatz e avistar a Catedral de Nossa Senhora (Onze-Lieve-Vrouwekathedraal)

(Antwerpen, Novembro 2014)


até finalmente se desembocar na margem do rio Scheld. Tudo isto com uma luz e uma serenidade que me fizeram desejar ficar pelo menos dois dias em vez de poucas horas. Falta-me ainda muito para ver: o Museu de Belas-Artes, o porto que é um dos maiores da Europa, as construções Arte Nova, as lojas de diamantes e, last but not least, o túmulo de Rubens.

segunda-feira, 29 de dezembro de 2014

Rubens em Antuérpia

Voltei a Antuérpia especialmente para visitar a casa de Rubens, pintor que acabou por marcar muito esta viagem.

(Antwerpen, Novembro 2014)

Em Bruxelas, as Bozar focavam-se em Rubens, apresentando-o assim: Rubens was the Quentin Tarantino of his era. The Flemish master painter created scenes that exuded lust and were marked by violence, as well as compassion and elegance. These themes inspired the artists after Rubens for many centuries to come.

Na realidade, a violência e a luxúria de Rubens nunca passam os limites da elegância (não há pingo de sangue nas cenas de caça às feras)

(Bruxelles, Novembro 2014)

o que lhe assegurou a presença em salões e igrejas e uma fortuna pessoal assinalável.

(Antwerpen, Novembro 2014)

O seu atelier produziu mais de cinco centenas de obras; o que espanta já não é que na Catedral de Antuérpia haja quatro

(Antwerpen, Novembro 2014)

e na Catedral de St Baaf em Gent haja outra

(Gent, Novembro 2014)

mas que o nosso Museu Nacional de Arte Antiga não tenha uma sequer.

quinta-feira, 25 de dezembro de 2014

O Altar de Gand

Gand, ou Gent em flamengo, fica ainda mais perto de Bruxelas, e tem canais ainda mais bonitos do que Bruges.

Tem um castelo, uma densidade impressionante de igrejas e edifícios góticos

(Gent, Novembro 2014)

e a Catedral de St Baaf, onde se encontra, em sala especial e guardado à vista, o retábulo conhecido como Altar de Gent ou Cordeiro Místico dos irmãos Hubert e Jan van Eyck, que também figura no filme The Monuments Men.

Imagem de Pol Mayer/ Paul M.R. Maeyaert para Wikimedia commons

Retábulos não faltaram nesta viagem

(Metz, Novembro 2014)

(Antwerp, Novembro 2014)

(Strasbourg, Novembro 2014)

mas o Cordeiro Místico é enorme em vários sentidos (tem quase quatro metros de altura!). Está a ser restaurado painel a painel, pelo que não estão todos expostos, e infelizmente não se pode fotografá-lo, mas neste site pode-se admirá-lo e analisá-lo à vontade.

Bruges

De Bruxelas a Bruges leva-se uma hora no comboio rápido, e da estação vai-se a pé ao centro histórico - nós e mais uns milhares de visitantes, mesmo em Novembro.


Bruges é conhecida pelos seus canais, e chamada a Veneza do Norte, o que é uma patetice, porque há canais noutras cidades flamengas mas nenhuma os habita como Veneza.


Já lá tinha estado num dia de chuva, e a única coisa de que me lembrava era da Marktplatz, onde almocei e bebi um Beaujolais... Reencontrei-a agora num belo dia de sol.


Mas o que realmente me fez ir a Bruges desta vez foi o filme The Monuments Men que me despertou para a existência, na Igreja de Nossa Senhora (Onze Lieve Vrouwekerk), de uma Madonna com o Menino esculpida por Michelangelo. Esta jóia:

(Brugge, Novembro 2014)

O filme é baseado na história verdadeira dos homens que, no final da Segunda Guerra mundial, tiveram como missão resgatar as obras de arte roubadas pelos nazis. Interessante!