No único dia de chuva que apanhei em Berlim fui visitar a cúpula do Parlamento alemão. É preciso marcar com antecedência, o que pode ser feito facilmente online; a visita é gratuita, dura cerca de meia-hora e há áudio-guia em português: um luxo. Enquanto se sobe a rampa em espiral
vamos sendo informados sobre o Parlamento e sobre os edifícios que dali se avistam:
Ao chegar ao topo descobre-se a enorme abertura central que explica o frio sentido durante a subida:
É o momento de olhar com superioridade legítima ;-) a sala onde os deputados federais decidem o futuro da Europa!
(Berlin, Março 2015)
* O Reichstag é o edifício, o Bundestag a instituição.
Fui à procura do Muro com que os comunistas dividiram Berlim debaixo do olhar inerte dos restantes "Aliados".
Os berlinenses guardam da sua extensão uma memória discreta no empedrado das ruas e, em certos lugares, memoriais mais visíveis: um deles fica na Bernauer Strasse, que é um local especial porque as casas mesmas faziam parte da barreira, de maneira que nos primeiros tempos depois de Agosto de 1961 as pessoas fugiam pelas janelas, até que estas foram emparedadas e, finalmente, os residentes foram forçados a abandonar as suas casas.
Estas fotos de um folheto do Gedenkstätte Berliner Mauer, tiradas por Alex Waidmann, são muito claras:
A rua onde os bombeiros tentam apanhar os fugitivos fazia parte da cidade ocidental, enquanto os prédios ficavam na porção oriental.
Hoje restam ali 220 metros de muro e fortificações originais
a Janela da Memória preserva a identidade de cada um dos que morreram ao tentar a fuga
e o trajecto está marcado ao longo de quase quilómetro e meio
Dias depois encontrei, quase à porta do meu hotel junto do rio Spree, mais este bocadinho de muro
Notícia do Observador: MARGEM SUL Explosão violenta, apesar de
“controlada”, numa pedreira
em Sesimbra 1/4/2015, 23:14 A explosão foi enorme, conta quem a sentiu. O presidente da Câmara de
Sesimbra diz que foi uma queima de cordão detonante que correu mal.
Curioso, curioso, é o presidente da Câmara de Sesimbra chamar-se Augusto... Pólvora ☺
Fui à procura de alguns dos meus lugares favoritos em Berlim: a loja de culturaDussmann e o seu jardim vertical
o Brandenburger Tor, símbolo da reunificação alemã
os oito pátios Arte Nova interligados, conhecidos como Hackesche Höfe, que já tinha mencionado aqui
a cobertura do centro Sony onde tem lugar o festival de cinema Berlinale
(a propósito, a Potsdamer Platz já não está em obras!)
a Gemäldegallerie onde, entre obras-primas de Rubens, de Rembrandt, de Vermeer, de Botticelli, encontrei este gordo extraordinário de um para mim até agora desconhecido Charles Mellin, nascido em Nancy no fim do século XVI mas romano de carreira
Escondido num centro comercial na Ku'Damm fica uma espécie de museu chamado The Story of Berlin, que conta a evolução da cidade desde as origens medievais até à reunificação de 1989.
É uma proposta ambiciosa realizada com relativamente poucos recursos, e cujo ponto alto é a visita guiada a um bunker anti-atómico subterrâneo, construído nos anos 70 do século XX, em plena Guerra Fria, (mal) pensado para abrigar até três mil e seiscentas pessoas (as primeiras que conseguissem chegar, de qualquer sexo e idade) durante duas semanas, após a eventual queda de uma bomba atómica perto da cidade.
Desde a entrada, uma sala nua em que era suposto as pessoas despirem-se completamente e tomarem duche para se descontaminarem (inevitáveis as lembranças de outros duches colectivos),
antes de vestirem fatos de treino que não mais seriam lavados nem despidos, até aos beliches básicos de metal e rede que ocupariam quase todo o espaço disponível, sobrepostos quatro a quatro (esqueci-me de perguntar como subiam e desciam os inquilinos de cima) na quase escuridão
às duas cozinhas tamanho caseiro e aos alimentos enlatados
às quatro casas de banho colectivas e aos dois rolos de papel higiénico atribuídos a cada pessoa, aos dezasseis supervisores encarregados de preservar a ordem e cuidar da manutenção, ao posto médico rudimentar onde eventuais médicos presentes entre os refugiados tentariam tratar diarreias, feridas, desidratações e o mais que aparecesse
(Berlin, Março 2015)
ao que aconteceria quando os filtros deixassem de funcionar e fosse necessário sair pela mesma sala por onde tinham entrado (e onde entretanto teriam ficado empilhadas as roupas contaminadas de três mil e seiscentas pessoas?) só posso ficar ainda mais feliz por nunca ter sido preciso usá-lo e desejar ainda mais ardentemente que nunca seja preciso.
Finalmente cumpri o desejo de assistir a um concerto na grande sala da Philharmonie em Berlim e testar a famosa acústica. Gostei imenso: é clara e ao mesmo tempo aconchegante, macia. Fiquei na sexta fila, onde o som chega em estereofonia, o que talvez nem seja a intenção dos compositores mas é como eu gosto de ouvir a música.
A orquestra da Philharmonie estava ausente em digressão, mas fiquei a conhecer a Akademisches Orchester Berlin, o seu maestro Peter Aderholt, e a solista, uma jovem violinista de origem coreana e australiana chamada Suyeon Kang, em três belíssimas obras: a Abertura do Don Giovanni de Mozart, o Concerto para Violino de Sibelius (que ouvi há pouco, em Fevereiro, na Fundação Gulbenkian, por Frank Peter Zimmerman) e a Terceira Sinfonia de Beethoven.
Foi uma tarde fantástica. Um ou dois desacertos àparte, a orquestra tocou maravilhosamente, com grande equilíbrio, sem afogar nunca a solista, atenta ao maestro, empenhada e expressiva. Kang, depois de, à chegada ao palco, tropeçar no vestido demasiado comprido, não tropeçou em mais nada, e deu-nos um Concerto muito bonito, coerente e virtuoso.
(Berlin, Março 2015)
A Eroica resultou muito bem e muito curiosamente, cada uma das pessoas do meu grupo foi seduzida por um andamento diferente. O meu preferido foi o segundo, que achei riquíssimo e onde encontrei (mais uma das minhas descobertas que provavelmente não são novidade para mais ninguém) tocado repetidamente nos primeiros minutos pelos violinos, e já perto do fim pelos tímpanos, o tema inicial da Quinta Sinfonia.
Aqui o deixo à apreciação, embora com outros intérpretes:
Finalmente um reparo para o público, que me fez sentir em casa, tanto pelos ataques de tosse como pelos aplausos entre andamentos: tornou-se moda, é?