sábado, 4 de março de 2017

Populista, eu?

Escreve José Manuel Fernandes no Observador:

Cas Mudde e Cristóbal Rovira Kaltwasser, num pequeno livro que acaba de sair em Portugal, “Populismo – Uma Brevíssima Introdução” (Gradiva), escrevem: “Definimos populismo como uma ideologia de baixa densidade que considera que a sociedade está, em última instância, dividida em dois campos homogéneos e antagónicos – “o povo puro” versus “a elite corrupta” – e que defende que a política deveria ser uma expressão da volonté générale (vontade geral) do povo”

Ora a verdade é que cada vez mais, ao ler e ao ouvir as notícias, sinto que há dois mundos diferentes e paralelos, um em que vivemos nós, mortais comuns afogados em preocupações comuns (a prestação da casa, o IMI, o trânsito, as listas de espera nos hospitais e o despontar dos seguros de saúde, os fins-de-semana, as férias, o trabalho, o burnout e o desemprego, as reformas antecipadas, a educação dos filhos), e outro em que vivem as pessoas de dinheiro e de poder, cujos interesses passam pelos movimentos de muitos milhões de euros. Só.

Se ao menos não houvesse contactos nem interferências entre estes dois mundos, poderíamos no nosso seguir as nossas vidinhas e ignorar o outro, ou encará-lo como um filme no cinema; poderíamos tentar melhorar as nossas situações com regras escolhidas por nós e que para nós fizessem sentido. Infelizmente parece que, para continuarem a movimentar os seus milhões, essas outras pessoas precisam de nos infernizar, subjugar e manter em estado de ignorância e precariedade.

Quando era mais novinha, acreditava que a minha vida iria mudar no sentido de maior liberdade, maior conhecimento e reconhecimento profissional, mais dinheiro, mais amigos, melhores viagens, mais tranquilidade, em resumo, maior amplidão de recursos e horizontes. Hoje sinto-me como um rio apertado entre paredes de betão. Quando chove, o caudal aumenta e consigo espreitar para além destas margens artificiais, mas cada vez mais, entre barragens e comportas, sou obrigada a manter-me num curso que não escolhi até chegar, inevitavelmente, ao mar.

quarta-feira, 1 de março de 2017

Onda verde

Alguém com bom gosto, iniciativa e criatividade, andou a decorar semáforos no Algarve.


(Albufeira, Fevereiro 2017)

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

Chopin por Avdeeva na Fundação Gulbenkian

A propósito do concerto com Yulianna Avdeeva e a Orquestra da Fundação Gulbenkian a que assisti em Janeiro passado, reparei como é diferente a concepção da função de solista e orquestra em Chopin e Beethoven, bem evidenciada nos dois concertos para piano que prefiro entre os de ambos os compositores.
No concerto nº 4 de Beethoven, há um diálogo evidente entre o piano e a orquestra. No segundo andamento, então, dir-se-ia que aos queixumes do piano a orquestra responde tentando arrancá-lo à melancolia. No terceiro andamento verifica-se que conseguiu, a conversa entre ambos é alegre e triunfante.
No concerto nº 2 de Chopin, é o piano que fala, e a orquestra apenas apoia, acentua ou emoldura. Podia-se quase passar sem ela, e o segundo andamento transformava-se facilmente em mais um nocturno.

Aqui fica o Chopin de Avdeeva há dois anos, em Nantes:



O programa de sala do concerto da Gulbenkian está aqui. A Antena2 informou repetidamente mal, trocando Berlioz por Dvorak e a 2ª de Brahms pela 3ª.

domingo, 12 de fevereiro de 2017

sábado, 4 de fevereiro de 2017

domingo, 29 de janeiro de 2017

Trump e a tortura

Notícia do Observador:

Presidente Trump
Donald Trump: “A tortura funciona. Devemos combater o fogo [Estado Islâmico] com o fogo”
26/1/2017, 10:48
(...) “Falei com oficiais dos serviços secretos e perguntei-lhes: ‘Funciona? A tortura funciona?’ E eles responderam-me: ‘Sim, absolutamente!’ (...)"(...)

A notícia original da ABC News aqui.

O problema é que Trump fez a pergunta errada. O que devia ter perguntado não era se a tortura funciona, mas se podia obter resultados sem recorrer à tortura, que é o que importa a quem se preocupa com a segurança mas não quer abandonar os valores civilizacionais que o separam da barbárie.