terça-feira, 12 de abril de 2011

Não há almoços grátis

Alguém devia explicar muito bem explicadinho que o FMI, não sendo o diabo em pessoa(s), também não é a fada madrinha, e que eufemismos como resgate ou bail-out significam apenas que, quando já ninguém nos queria emprestar dinheiro e quem no-lo tinha emprestado estava a tentar desfazer-se dos papéis em que tínhamos assinado promessas de pagamento passando-os a outros otários, vamos afinal receber mais dinheiro emprestado para pagar o que devemos, a troco de gastarmos muito menos, e que como já ninguém acredita nas nossas promessas andarão por cá uns figurões a verificar se é verdade que gastamos muito menos, até que consigamos pagar não só os empréstimos antigos como estes novos que nos vão conceder.

Bom mesmo seria que alguém explicasse muito bem explicadinho como é que vamos pagar tudo isso, já que não produzimos praticamente nada e importamos praticamente tudo o que consumimos.

E finalmente poderia explicar muito bem explicadinho que aqueles de nós que se julgam a salvo por viverem dentro das suas possibilidades vivem na realidade acima das possibilidades de quem lhes paga os ordenados ou as pensões ao fim do mês.

Treino de pontaria

Não sei porquê as novas portagens lembram-me as barracas de tiro ao alvo das feiras de antigamente.

(A22 Via do Infante, Abril 2011)

domingo, 10 de abril de 2011

Le Comte Ory

Este sábado na Fundação Gulbenkian houve transmissão directa do Met.

Foi uma delícia. Eu gosto de Rossini, diverte-me, e embora esta não seja uma das suas melhores óperas, tem árias dificílimas, conjuntos complexos, uma orquestração rica e números de vaudeville típicos, que nas mãos (e vozes) certas podem ser um entretenimento fantástico.

Foi o caso: a encenação de Bartlett Sher muito bem conseguida - o trio do segundo acto foi muito mais engraçado do que eu imaginava -, os cantores muito bons, com os três principais (Juan Diego Florez, Diana Damrau e Joyce DiDonato) em grande forma, conjugando com brilhantismo as dificuldades da coloratura com o ritmo da movimentação em palco e uma mímica impecável, os secundários óptimos (o barítono Stéphane Degout com uma belíssima voz aveludada), os figurinos e cenários bonitos, a sincronia sem falhas, a orquestra acompanhando e sublinhando sem nunca abafar.


O único senão: quem é que não lê as provas do programa de sala da Gulbenkian, e deixa passar disparates como Juan Diego Flórez MEZZO-SOPRANO, ou CANTADO EM ITALIANO, COM LEGENDAS EM INGLÊS?

terça-feira, 5 de abril de 2011

segunda-feira, 4 de abril de 2011

Música no fim-de-semana

Decorreu no Cine-Teatro Louletano o Festival de Música da Caixa Geral de Depósitos.

Convidado para um recital a solo e um concerto com a Orquestra do Algarve, que também dirigiu, o violoncelista Ivan Monighetti, que eu já conhecia. Ouvir um recital de violoncelo solo não é fácil, e a sala, na quinta feira ao fim da tarde, estava meio vazia, mas ontem e hoje à noite estava bastante mais composta.

No entanto parece que as pessoas gostaram: o público algarvio é maioritariamente desconhecedor das convenções deste tipo de espectáculos e aplaude quando lhe dá na cabeça, nomeadamente entre andamentos, o que costuma deixar os músicos um bocadinho atrapalhados mas sorridentes.

Eu também gostei, e mais do que isso, diverti-me. As interpretações de Monighetti são simultaneamente elegantes e cheias de energia. De todas as peças tocadas só conhecia as suites nº 2 e 3 de Bach. A sonata Per Slava de Penderecki mereceu, num sussurro ao meu ouvido, a definição de música para desenhos animados, o que sendo verdade não é mau. Divertido também, de forma inesperada, e com temas muito bonitos, o Concerto em Dó maior de Haydn, de que aqui deixo o primeiro andamento.


No último concerto, com a Metropolitana de Lisboa dirigida pelo maestro Nir Kabaretti, fiquei rendida ao segundo andamento da Sinfonia nº 41 de Mozart mais ainda que às encantadoras fugas do último.

Duas perguntas:

como se mantém um instrumentista focado quando toca uma nota falsa?

como se mantém um instrumentista concentrado quando um membro (ou dois) do público tem um ataque de tosse imparável no meio do andamento lento?

E uma descoberta, de como o afinar de instrumentos duma orquestra pode ser interessante, mesmo bonito, se começar por um naipe e continuar pelos outros em sequência, como um gato a espreguiçar-se.

sábado, 2 de abril de 2011

Maestrinho

Este clip veio por email, e deixou-me a sorrir como uma tonta, porque o miúdo é tão engraçado, gosta tão obviamente da brincadeira, passou tantas horas dos seus poucos anos de vida a ver vídeos com grandes maestros e grandes orquestras, conhece tanto esta música e sabe tão bem o que está a fazer, que tomara muita gente grande.


Claro que houve muito mais pessoas a achar-lhe graça, e entre elas o maestro Misha Rachlevsky, director da Orquestra de Câmara Kremlin, que o convidou para "reger" a orquestra num concerto nos Estados Unidos. Deve ter sido uma revelação fantástica para o garoto, que anda a aprender violino - e desafina ☺ .

Oxalá esta paixão e esta alegria continuem pela vida fora. Muitas felicidades para o Jonathan Okseniuk.