sexta-feira, 13 de abril de 2012

O singular

Numa loja de roupa desportiva.

Eu:
Preciso de uns ténis para o Verão.

A empregada, muito simpática:
Bem, téni, téni, de senhora, de momento não tenho.

Nem tanto

Descobri que afinal não viajo tanto como isso. Cada vez que passo no aeroporto da Portela encontro-o diferente.

segunda-feira, 9 de abril de 2012

Funcheira

Quem faz a viagem de comboio entre Lisboa e o Algarve pergunta-se qual a importância de uma estação chamada Funcheira, aparentemente plantada no meio de nada. Na realidade há ali dúzia e meia de casas, e ali se fazia a ligação a Beja, mas esta foi desactivada no início deste ano.

Imagem Google Maps

Ora esta estação, do ponto de vista de arquitectura, é extraordinária: os volumes, a cantaria, os azulejos, as janelas e acima de tudo o telhado, que nunca vi igual em parte nenhuma. Foi, ao que parece, construída em 1909, mas não consegui saber o nome do arquitecto.


(Funcheira, Abril 2012)

domingo, 8 de abril de 2012

Uma história de Manon Lescaut

Se mal conheço a Manon Lescaut de Puccini, a de Massenet então era-me quase totalmente alheia, não fora a famosa cena das meias entre Anna Netrebko e Roberto Alagna.
A encenação de Laurent Pelly transmitida este sábado do Met para os cinemas e para a Gulbenkian, tem sexo e violência qb para o público daquela casa: numerosos beijos entre os protagonistas, uma cena de cama na sacristia com um padre de batina entre as pernas de uma cortesã, e uma outra em que esta é espancada pelos guardas prisionais. A ideia desta última não era má: só os maus tratos eventualmente sofridos na prisão podem na realidade explicar a morte de Manon, sempre saudável durante os quatro actos anteriores. E se o Hotel de Transylvanie fosse mostrado como uma tasca onde a ilicitude do jogo e da prostituição fossem evidentes, em vez de um local onde alguns endinheirados gastam com displicência dinheiro e tédio, ter-se-ia percebido a razão por que ela foi presa. Mas isto é uma encenadora de poltrona a falar, porque de resto a coisa esteve até muito bem, tirando partido da comicidade e do drama e contando a história fielmente, ainda que cenários e figurinos contivessem alguns anacronismos.

A música de Massenet só me cativou ao terceiro acto, depois dos dois primeiros que achei uma seca. A orquestra do Met teve a direcção de Fabio Luisi, de quem aprecio mais uma vez delicadeza e a agilidade. Mas o melhor de tudo foram os dois cantores principais, Anna Netrebko acima de tudo, que continuo a achar uma cantora e actriz magnífica, com um registo grave muito bonito, agudos muito seguros e pianissimi fantásticos. Ainda por cima, pareceu-me mais magra, embora não propriamente magra.

Piotr Beczala, no Chevalier des Grieux, também esteve muito bem; é um tenor que conheço pouco, mas de cuja voz e elegante presença em palco gostei: penso que vale a pena ouvi-lo mais vezes. Entre os papéis secundários, distingo o barítono Paulo Szot (Lescaut) e o tenor Christophe Mortagne (Guillot) que optou, ele ou o encenador, por manter sempre o registo cómico, e da voz do baixo David Pittsinger (Des Grieux père), embora achasse este último fraco cenicamente. Ao baixo-barítono Bradley Garvin (Brétigny), pedir-lhe-ia para ter umas aulas de francês, embora na realidade só o francês Mortagne pudesse prescindir delas.

As meninas de Guillot saíram-se bem, o coro e a orquestra lindamente, o ballet estupendo, o clarinetista sem defeito.

Em resumo, uma boa récita para uma obra que está longe dos meus planos rever num futuro próximo.

terça-feira, 3 de abril de 2012

Surpresas

Ontem andei todo o dia com uma telha que só vista, depois de ouvir na Antena2 que o governo pretendia uma redução do montante do subsídio de doença nas baixas de curta e média duração (que passaria de 65% do ordenado para 55% nas baixas até 30 dias e para 60% nas baixas até 90 dias), com a justificação de desincentivar as baixas fraudulentas.

Isto mete-me nojo. Que nos digam que não há dinheiro é uma coisa, que inventem razões parvas é outra. Acho muito bem que se combatam as baixas fraudulentas: para isso há uma coisa chamada fiscalização. Mas estarão os nossos governantes tão habituados à trapaça e à vigarice que não lhes passe pela cabeça que as pessoas podem estar mesmo doentes e impedidas de trabalhar?

Claro que não imaginam que um carpinteiro ou um pedreiro a quem falhe um gesto pode ter uma lesão grave na mão, e que esta pode precisar de um mês de imobilização e mais um mês, ou mês e meio, de reabilitação. Claro que não imaginam que uma cozinheira pode queimar-se seriamente na cozinha e que no melhor dos casos pode precisar de duas ou três semanas até cicatrizar. Claro que não imaginam - mas perguntem, santo deus! E já agora perguntem se um desgraçado que vai trabalhar engripado, em vez de meter uma semana de baixa, não andará a espalhar vírus à sua volta, contagiando dezenas de outros. Perguntem se uma empregada de limpeza a quem tiram o útero tem condições para trabalhar antes de quatro a seis semanas. Perguntem, que os médicos explicam.

Hoje li no Diário de Notícias que a Comissão Europeia não descartou (...) a possibilidade dos cortes nos 13.º e 14.º meses para a função pública e pensionistas assumirem caráter permanente. Olhem a grande novidade! Alguém acredita voltar a receber esses subsídios? Mas enfim, diz o Sol que a Comissão Europeia definiu como surpreendente o aumento do desemprego em Portugal, por isso já se começa a perceber: estes economistas, afinal, não têm ideia do que andam a fazer e até já recebem lições de miúdos de onze anos.

domingo, 1 de abril de 2012