quinta-feira, 24 de agosto de 2017

Incêndios

Alguém poderá talvez corrigir a minha ignorância:

Quando vejo imagens dos incêndios que todos os Verões nos apoquentam, causados ou aumentados pelo calor e pelo vento, e das pessoas, particulares ou bombeiros, que contra eles lutam com baldes e mangueiras ou mesmo, lançados de avião, muitos metros cúbicos de água, tenho a sensação de que toda essa luta é inglória, que a água não é suficiente nem sequer, provavelmente, chega onde é necessária, e que o fogo só pára quando tiver que parar, por falta de combustível.
( Como certas doenças, que seguem o seu rumo independente da medicação)

Atirar água contra a floresta que arde pode parecer imediatamente lógico, mas após reflectir não é: faria mais sentido encharcar o terreno em volta, onde as chamas ainda não chegaram, e besuntar muros e paredes de substâncias que não ardessem, criando assim barreiras à progressão do incêndio, em vez de tentar atacá-lo directamente.

O ideal será a prevenção de que todos falam, desmatamento, cultivo de outras espécies arbóreas, no limite re-ordenamento do território, coisa muito bonita mas infelizmente esquecida todos os Invernos, quando não ignorada por motivos económicos. Do ponto de vista "económico", parece-me contudo que o que se faz, no combate aos incêndios, é um enorme desperdício de água, de tempo, de dinheiro e de vidas.

Lembrei-me que, segundo Gellius, Sulla, tendo-se esforçado muito tempo, conduziu as tropas contra a única torre interposta por Archelaus, para incendiar a madeira. Chegou, aproximou-se, colocou lenha, afastou os gregos, aplicou o fogo; por muitos esforços que fizesse durante todo o dia não conseguiu incendiá-la, porque Archelaus tinha untado toda a madeira com alúmen. O que deixou Sulla e os soldados espantados; e como não ardeu, ele retirou as tropas.

Alúmen? Isso ou outra coisa, sei lá; se calhar, já tudo isto é sabido, mas porque não parece estar a ser feito?
É mesmo ignorância minha?

sábado, 8 de julho de 2017

Da boa?

Ouvido à porta da consulta externa:
_ Então adeusinho. Saúde, da boa, vá!

(Não sabia que se podia desejar "saúde, da má"...)

domingo, 14 de maio de 2017

A13 de Maio

Milagre de Fátima: Portugal ganhou finalmente o festival da Eurovisão. Podem canonizar também a irmã Lúcia.

quinta-feira, 11 de maio de 2017

Dos sound bites políticos

As I (and plenty of others) have said too often before, there is no point in arguing for something if no one could reasonably argue the reverse.

Mary Beard, no seu blogue.

sábado, 11 de março de 2017

O direito à saúde

Voltei hoje a ler (no Facebook, mas podia ser em qualquer jornal ou blogue, tão interiorizado está este conceito) que "toda a gente tem o direito à saúde". Supõe-se até que está consagrado na Constituição portuguesa, mas é mentira.
No artigo 64 a Constituição não fala em "direito à saúde" mas em "direito à protecção da saúde".

"Toda a gente" não tem direito à saúde. Ser saudável ou não está na natureza dos genes, nos hábitos de vida e na geografia. Pelo menos. E porque felizmente negamos às bactérias o "direito à vida", ou seja, a comer, reproduzir-se e dar uns passeios turísticos.

Pode-se ter, isso sim, direito "à protecção da saúde", quer dizer, a tratamentos médicos, e isso pode ser um direito universal (para um determinado "universo", por exemplo, para os nacionais ou para os residentes) ou não (só para funcionários públicos, ou só para quem subscreve um seguro), gratuito (no momento em que é utilizado, porque tem custos e portanto alguém nalgum momento os paga, provavelmente via impostos ou prémio de seguro) ou não (taxas "moderadoras", devolução posterior do valor pago), ilimitado (sem tectos de custos) ou não.

Assim sendo, pela sua variabilidade torna-se evidente que o direito a tratamentos médicos não é um "direito " fundamental mas sim uma conquista cujas existência, expressão e manutenção dependem de circunstâncias tão díspares e tão frágeis como a situação económica e a diferenciação cultural de uma sociedade.

Por isso mesmo nem sequer pode se pode exigir o "direito fundamental" que seria desejável "toda a gente" ter, que seria saber com o que conta e não ver mudar as regras, sobretudo para pior, a meio do jogo.