quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

Morreu Colleen McCullough

Soube pelo blogue Boas Intenções que morreu a escritora Colleen McCullough. Para mim, e suponho que para toda a gente que a leu, fica ligada ao romance The Thorn Birds e à sua adaptação televisiva com Richard Chamberlain no papel masculino principal, que fez chorar rios de lágrimas, e também à série Masters of Rome, uma colecção de romances históricos passados no último século da República Romana, cada um com centenas de páginas que me pareciam sempre demasiado breves.

Já não sei o lhe escrevi exactamente, a elogiá-la e certamente a interrogá-la; sei que ainda conservo a carta que recebi em resposta, uma coisa impessoal, assinada pela secretária, mas que incluía em anexo algumas considerações da própria McCullough sobre o que a levara a escrever essa série e uma enorme bibliografia que muito me ajudou a orientar a minha própria pesquisa.

Lembro-me que quando acabei o sexto volume, The October Horse, pensei que nunca mais gostaria de qualquer outro romance situado naquele cenário; hoje porém acredito que o sucesso de McCullough abriu portas a muito boa ficção histórica posterior.

A pergunta de milhares de milhões de euros

Notícia do Observador:

ELEIÇÕES NA GRÉCIA
Primeira guerra entre Tsipras e a Europa: a Rússia
27/1/2015, 12:37
A crise na Ucrânia é a primeira pedra no sapato das relações entre Governo Grego e a Europa, com Tsipras a afastar-se dos avisos à Rússia. Presidente do Eurogrupo vai a Atenas na sexta-feira.
(...)
No seu primeiro dia em plenas funções, Alexis Tsipras já abriu um foco de tensão na União Europeia, condenando o comunicado desta terça-feira, assinado pelo presidente do Conselho Europeu e pelos líderes europeus, que responsabiliza a Rússia pelos últimos atos do conflito na Ucrânia (...)
(...)
Na segunda-feira, após a sua posse, Tsipras já tinha recebido o embaixador russo – o primeiro em Atenas a ser recebido pelo novo primeiro-ministro.


Ora bem: esta deve ser a resposta à pergunta, Quem é que os gregos pensam que vai pagar isto tudo?

segunda-feira, 19 de janeiro de 2015

TAP

Em verdade vos digo, o interesse estratégico da companhia de bandeira portuguesa parece-me ser o transporte de angolanos e brasileiros para a Europa.

sexta-feira, 16 de janeiro de 2015

O Papa não é Charlie

O Papa Francisco acha que matar em nome da religião é uma aberração mas que não se pode troçar* da fé das outras pessoas.
Este "mas" é perfeitamente assassino. É um "mas" que indica eles estavam a pedi-las.

E diz também que se alguém insultar a mãe dele
deve estar preparado para levar um soco.

O Papa está, no mínimo, a deixar-se enredar nos raciocínios dos fanáticos, ele que parece um bocadinho menos fanático. Nas leis contemporâneas existem referências ao que devia ser uma questão de bom-senso, que é a força proporcional da resposta. Se responder a uma ofensa verbal com um soco pode ser normal**, como diz o Papa, responder a uma ofensa escrita com um assassínio em massa também será? Antigamente, pelo menos, havia duelos, que eram uma espécie de reparação formal e frontal. Hoje há processos em tribunal. Entrar por um jornal dentro e matar a redacção, por muita troça que esta tenha feito da religião - ou do partido político, ou do clube de futebol - não é certamente uma resposta proporcional. Nem sequer uma resposta, vamos lá.

* prendere in giro foi a expressão utilizada.

** Já agora, onde foi parar a oferta cristã da outra face?

quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

Charlie, nós e eles

Diz o sheik Munir que o choca o ataque terrorista ao Charlie Hebdo porque o Islão é uma religião pacífica. Não é verdade: o Islão ortodoxo, fundamentalista, é tão pouco pacífico como foi o cristianismo durante séculos, ou o judaísmo na sua origem. Felizmente uma grande parte da Humanidade percebe, ou simplesmente sente, que acima dos preceitos mesquinhos apregoados pelos pregadores, das abstenções e das proibições, acima de tudo isso está o desejo de viver em paz, cada um consigo mesmo e com os vizinhos.
Outra parte da Humanidade, no entanto, tem prazer em causar sofrimento, e são esses sociopatas que, em nome de deuses ou de causas, de direitos ou deveres, matam, mutilam, violam, humilham, sequestram e torturam. Há-os de todas as cores e de todas as ideologias; desde o 11 de Setembro de 2001 os mais visíveis têm sido muçulmanos.

O ataque ao Charlie Hebdo é o mais recente ataque terrorista islâmico: recente e mediático, acontece depois de tantos outros mas chama a atenção para o que nos inquieta: "eles" estão no meio de nós. Não se trata de uns selvagens decapitadores na Argélia, nem do ISIL no Iraque, dos Boko Haram escravizadores de raparigas na Nigéria ou dos talibãs assassinos de adolescentes no Paquistão. "Eles" já chegaram cá, e podem de um momento para outro entrar aos tiros em qualquer sítio onde estejamos.

Não interessa que o assassino de Oslo não fosse muçulmano, nem que até há pouco tempo fossem cristãos os que armadilhavam carros de polícias no país basco ou na Irlanda do Norte: o inimigo agora usa turbante e barba aos caracóis. Presa fácil para os grupos que até há pouco agrediam homossexuais ou negros. E corremos o risco de não nos indignarmos quando houver agressões a muçulmanos. Et pourtant: os alemães, que ao contrário do que se diz têm bem vivo o seu passado (nie mehr!), desfilam visivelmente nas ruas pela aceitação e pela integração, lembrando a todos o perigo dos pogroms.

Talvez o mais importante seja o que eu espero e desejo: que os muçulmanos que vivem connosco pacificamente se manifestem também contra o terrorismo, que mostrem e digam e insistam que são "nós" e não "eles".