quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

A prova

Notícia do Jornal de Negócios:

95 mil prestações em risco
Segurança Social prolonga até dia 21 prazo para a prova de recursos
30 Dezembro 2010 | 18:02
Catarina Almeida Perei
ra - catarinapereira@negocios.pt
(...)
Os cerca de 95 mil beneficiários do rendimento social de inserção, de abono de família ou de subsídio social de desemprego que deixaram para os últimos dias a realização da prova de rendimentos têm até amanhã para pedir a palavra passe no "site" da Segurança Social. Caso não o façam, poderão perder os apoios.
A Segurança Social alargou, no entanto, o prazo de conclusão da prova de condição de recursos, de 31 de Dezembro para 21 de Janeiro.
(...)
Até ontem, foram realizadas 905.465 provas da condição de recursos. Tendo em conta que em causa estão cerca de um milhão de beneficiários, há ainda cerca de 95 mil provas por registar.


Não sei se isto é bom ou mau, mas verifico que os beneficiários destes subsídios têm acesso à Internet e sabem pedir uma palavra-passe num site governamental.

E ainda dizem que os portugueses são pouco qualificados...

Do ut des*

Notícia do Expresso:

Economia
Desempregados e pensionistas vão pagar taxas moderadoras
Os desempregados e pensionistas com rendimento superior a 485 euros vão pagar taxas moderadoras a partir de 2011.
Lusa
10:54 Quarta feira, 29 de Dezembro de 2010

(...)

Notícia do Público:

Saúde
Transporte de doentes não urgentes deixa de ser pago a quem ganha mais do que salário mínimo
29.12.2010 - 23:02 Por José Augusto Moreira, João d´Espiney
(...)

Notícia do i:

Economia
Maioria das taxas moderadoras sobe a partir de 1 de Janeiro
por Agência Lusa , Publicado em 16 de Dezembro de 2010
(...)

Se olharmos para a economia mundial, há dois tipos de países: aquele em que os cidadãos pagam imensos impostos e o Estado fornece praticamente todos os serviços, e aquele em que os cidadãos pagam relativamente poucos impostos e o Estado só se ocupa de poucas coisas, estando boa parte dos serviços a cargo dos privados. Um exemplo do primeiro é a Suécia, do segundo os Estados Unidos da América.

O que eu noto é que em Portugal cada vez se paga mais impostos e o Estado cada vez fornece menos serviços.


*Dou para que tu dês era na antiga Roma o contrato que se estabelecia com o deus: oferecia-se-lhe ou prometia-se-lhe uma oferta em troca da sua protecção ou boa-vontade numa determinada circunstância.

Mais um bocejo

Para mim a opção é simples: não vou votar em pessoas em cujas capacidades não acredito para um cargo que me parece, nos moldes actuais, completamente inútil.

Bandeira da página oficial da Presidência da República

terça-feira, 28 de dezembro de 2010

A Jonas e a Ensitel

A minha experiência com os tribunais portugueses é muito má. E histórias como esta (via Delito de Opinião) são infelizmente tão comuns que nem ponho em dúvida o que aconteceu, mesmo não conhecendo pessoalmente a Jonas, aliás Maria João Nogueira: ela diz ter adquirido um telemóvel numa loja da Ensitel, telemóvel que se avariou ao fim de uma semana, pelo que pediu que lho trocassem por um novo. Depois de muitas peripécias, a troca foi recusada porque o telemóvel apresentava um risco na tampa da bateria. E o juiz do centro de arbitragem de conflitos de consumo de Lisboa concordou com a Ensitel: o telemóvel deve ser reparado e não trocado, porque apresenta o tal risco.

Pergunto eu: qual a importância do risco num telemóvel defeituoso? A ideia não é abatê-lo? Não deverá ser decerto revendê-lo a algum otário...

O ponto actual da história é a Jonas ter sido intimada pelos advogados da Ensitel a apagar do blog os posts referentes a esta história, deixando, naturalmente, os bloggers todos indignados. Eu incluída.

Já há notícias nos jornais, e diz que peixeirada à antiga no Facebook e no Twitter.

Força, Maria João.

segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

Nuno e Cãopanhia

O Nuno e o António adoram animais e nunca os vejo senão rodeados de cães ou gatos, deles e dos clientes, que controlam com tanta calma e gentileza que não há um que se porte mal.

São os groomers do Jr: o António ocupa-se dos banhos e o Nuno da parte técnica e artística, e fica sempre desesperado quando lhe peço uma tosquia, o que acontece ou quando chega o verão ou quando, apesar da escovagem diária, começo a pensar que tenho em casa não um cão mas uma ovelha.

Hoje tivemos uma cena dessas, mas digam-me lá se o Jr não ficou lindo?


(Albufeira, Dezembro 2010)

Spam natalício

Clipart Se há coisa que me irrita é receber mails parvos de gente que não conheço mas obteve o meu endereço a partir de outros mails parvos mandados por amigos a grupos enormes sem ser em cópia oculta, apesar dos meus avisos repetidos.

Imagem daqui

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

Inverno russo

Nem só de Vivaldi vive o homem (ou a mulher, naturalmente), porque houve mais quem se inspirasse nas épocas do ano para compor boa música: Tchaikovsky, por exemplo. Da suite para piano As Estações, aqui fica Dezembro tocado por Ashkenazy.

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

Compras de Natal

Quando comprardes os presentes de Natal lembrai-vos - de passagem, suavemente, não vá isso estragar o espírito festivo - que quando não estais a pagar os ordenados de miséria da China, é porque estes já são demasiado altos para os gostos de alguns, e há quem (se) venda mais barato.


(Guia, Dezembro 2010)

sábado, 18 de dezembro de 2010

Chuva

Diz o windguru que não vai chover no Natal. Abençoado, que nem eu nem as couves aguentamos já tanta água.

(Serra algarvia, Dezembro 2010)

Lá vai comboio

Notícia do Público:

Transportadora vai acabar com o serviço regional
Governo prepara desmembramento da CP que ficará reduzida ao longo curso
17.12.2010 - 09:37 Por Carlos Cipriano
A CP prepara-se para eliminar 450 quilómetros do serviço regional - o mais deficitário da empresa e onde já foram abatidos 144 quilómetros de linhas -, tornando-o residual em termos da sua área de operação.
(...)
Além das linhas onde o serviço regional será simplesmente suprimido, prevêem-se reduções do número de comboios nas linhas do Algarve, do Douro, do Oeste e do Minho.
(...)
Em 2009, o serviço regional da CP deu prejuízos de 56,6 milhões de euros, sobretudo nas linhas do interior, onde, muitas vezes, as automotoras circulam com menos de dez passageiros.(...)
Mas a fraca procura do serviço regional é também vítima da maneira como a própria CP está organizada (...). Uma viagem do Bombarral para Espinho implica que um passageiro tenha de apanhar cinco comboios, do Rossio para Leiria e do Pinhão para Viana do Castelo quatro comboios.
O tarifário é também desencorajador da procura porque resulta do somatório dos vários comboios que o passageiro apanhar numa só viagem.(...)
Com tarifas e horários desencontrados não surpreende, assim, que o serviço regional tenha pouca procura.
(...)


Uma boa peça jornalística, para variar. Mais uma vez é de lamentar que os nossos desgovernos se preocupem com vestidos de
festa (o TGV) e se esqueçam da roupinha de todos os dias. Quando não do banho.

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

Acordo orto-quê?

Num cartaz à beira da auto-estrada para o Algarve:

AUTEDOR
ALUGA-SE

Pizarro no CCB

Consegui ontem enfim assistir pessoalmente a um dos recitais de Artur Pizarro da série obras completas para piano de Chopin, que incluiu este Nocturno op 15 nº2, aqui pelo pianista Jorge Bolet.


Pizarro, além de tocar maravilhosamente, é uma simpatia.

Do pão e da galinha

Sou só eu que acho estranho que uma criança com fome* corra atrás de uma galinha para apanhar o pedacito de pão que esta levava no bico para comer (F. Nobre vs F. Lopes, 9:53m) em vez de apanhar a galinha?

Nota: não vi o segundo debate, tendo tido um programa muito mais interessante para fazer.

*Fome a sério, ninguém estava a falar de apetite.

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

Primeiro bocejo

Gostava de saber como é que um homem que tinha 18 anos em 25 de Abril de 1974 lutou toda a vida contra o facismo (sic) (...) enfrentando os maiores obstáculos, como disse ontem orgulhosamente (10:54m) o candidato do Partido Comunista Português à presidência da República.

Em todo o debate ouvi pela primeira vez alguém (Fernando Nobre) perguntar a um dirigente comunista se já tinha criado um único emprego (09:45m). O inquirido, obviamente, não respondeu.

Incesto

Notícia do Telegraph:

Switzerland considers repealing incest laws
Switzerland is considering repealing its incest laws because they are "obsolete".
By Allan Hall in Berlin
4:17PM GMT 13 Dec 2010
The upper house of the Swiss parliament has drafted a law decriminalising sex between consenting family members which must now be considered by the government.
There have been only three cases of incest since 1984.
Switzerland (...) insists that children within families will continue to be protected by laws governing abuse and paedophilia.
(...)


Os diferentes partidos suíços têm, naturalmente, visões diferentes sobre o tema - e já agora veja-se como é dada esta notícia: a Suíça, em vez de um grupo parlamentar suíço. Os Verdes podem ter razão em dizer que se trata de um problema moral e não penal, mas suspeito que (curiosamente?) entre eles deve haver muitos admiradores de Wagner ;-)

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

Soma e segue

A transmissão directa de récitas da Metropolitan Opera House continua, e o sucesso está a ser tal, num país à míngua de ópera de qualidade, que já há sessões esgotadas e outras em vias disso. Para o espectáculo de sábado passado já só arranjei bilhetes para uns lugares enviesados mas apesar do torcicolo valeu bem a pena.

Vi a ópera Don Carlo ao vivo no S. Carlos em finais dos anos 70, e lembro-me sobretudo de ter ficado impressionadíssima com o rei Filippo. Investigações de amigos melómanos concluíram que o cantor era Cesare Sieppi, e que por isso não foi leviana a minha admiração.

O Filippo do Met foi, no sábado, Ferrucio Furlanetto, mas a sua belíssima e genuína voz de baixo teve de bater-se com um elenco masculino de luxo: Roberto Alagna em grande forma (fez-lhe bem o divórcio?) no protagonista, Simon Keenlyside que após o que me pareceu alguma dificuldade inicial na respiração fez uma excelente figura como Rodrigo, os dois outros baixos: Eric Halvarson magnífico também cenicamente no Grande Inquisitore e, a crer no programa impresso, Alexei Tanovitsky, que há seis meses no S. Carlos nos arrebatou e cantou agora o Frade, uma figura mal aproveitada pelo encenador.

Magnífica também Marina Poplavskaya em Elisabetta, que juntamente com Alagna no dueto final me levou à beira das lágrimas. Eu sei que sou um coração mole, mas chorar na ópera? Felizmente a chegada dos vilões poupou-me a essa indignidade.

De entre os principais quem me pareceu mais fraca foi Anna Smirnova, a princesa Eboli, sem graves nenhuns, e sem conseguir de todo fazer-nos acreditar na sua beltà.

Uma palavra de apreço para Layla Claire no pagem, e outra para a orquestra e o maestro Yannick Nezet-Seguin que nos deram uma versão intensa e emocionante, de tal modo que as quatro horas e meia pareceram curtas. Os cenários variaram entre o moderno mas não atrevido, o clássico naturalista e o de mau-gosto (a fogueira da inquisição). E para terminar volto a dizer que isto não é o mesmo que ver ao vivo, porque a amplificação uniformiza as vozes, falseando os valores relativos.

Os clips que aqui ficam são a grande ária de Filippo, cantada por Furlanetto e a ária final de Elisabetta por Poplavskaya, tal-qual o fizeram agora, mas em 2008 na ROH:




e o dueto de Carlo e Rodrigo, na versão actual do Met:

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

Desaprender

Notícia d'El País (via Desmitos):

El déficit económico de Cuba
Cuba carece de recursos para sobrevivir más de dos años
Los consejeros comerciales de China, España, Francia, Italia, Canadá, Japón y Brasil anticipan una "fatal" situación económica antes de lo previsto. El italiano habla de la "insolvencia" en 2011
JUAN JESÚS AZNÁREZ - Madrid - 09/12/2010
(...)
El cultivo privado de tierras ociosas, una reforma potencialmente significativa, aplicada en 2009, no ha sido efectiva por la inexperiencia de los adjudicatarios y la carencia de maquinaria, capital y mercados. (...)

Pois é: quando uma actividade é abandonada, perde-se rapidamente e para sempre a experiência acumulada. Os militares sabem bem que assim é, os artesãos também, e quem vive no Algarve pode dar-se claramente conta de como o problema do desemprego é tanto maior quanto toda uma população se dedicou ao turismo e à construção civil e agora não sabe fazer mais nada.

Não nos iludamos: o resto do país, de uma forma ou doutra, sofre do mesmo mal.

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

A educação segundo a OCDE Parte II

Passando os olhos pelo tipo de perguntas usadas nos exames do PISA, verifico que se dirigem à compreensão e ao raciocínio e não, por exemplo, à memória, num contraste evidente com o que era o ensino de há algumas décadas.

Por um lado isso é muito bom: como declara o próprio PISA (PISA 2009 Results, Vol I, pg 5), pretende-se avaliar a capacidade de o sistema de ensino preparar os alunos para a vida - quer dizer, para a sociedade e economia globais. Precisamos de pessoas inteligentes, ou seja, capazes de resolver problemas, porque os conhecimentos memorizados não chegam se não forem adequadamente relacionados.

Assim o entendeu a Coreia do Sul, que apesar dos bons resultados no PISA 2000, considerou que as capacidades dos estudantes precisavam de ser melhoradas para enfrentar as novas exigências de um mercado de trabalho internacionalmente competitivo.
Uma perspectiva foi mudar o foco do currículo coreano de arte e linguagem de preocupação em gramática e literatura para áreas e estratégias necessárias para a compreensão e a representação criativas, segundo as linhas em que se baseia o PISA
. (PISA 2009 Results, Vol V, pg 33)

Tenho contudo algum medo de que se esteja a ir de um extremo a outro. Não podemos abandonar completamente o armazenamento de conhecimentos, confiando em S. Google para os encontrar quando precisamos deles: é que muitas vezes se não os tivermos em armazém não saberemos sequer que existem para os procurarmos.

Por isso me atrapalha que as pessoas não saibam quem foi Picasso, ou Beethoven, os reis de Portugal ou o primeiro presidente dos Estados Unidos, que nunca tenham sabido de cor um soneto de Camões nem o significado de meia dúzia de datas.

Cada volume deste relatório tem mais de 200 páginas, mas quem se interessa por educação bem pode dar-lhes uma vista de olhos.

A educação segundo a OCDE Parte I

A divulgação do relatório da OCDE sobre os resultados da avaliação de estudantes prestes a terminar o ensino obrigatório em cerca de 70 países que representam 90% da economia global tem gerado na imprensa portuguesa as reacções esperadas: há quem mostre satisfação por os nossos estudantes terem feito progressos, e há quem discuta as razões de tais progressos.

O sr. José Sousa, naturalmente, embandeira em arco, reclamando para o seu desgoverno as melhorias, como se distribuir computadores pelas crianças da primária, preencher os furos nos horários ou as faltas de professores pelas chamadas aulas de substituição ou andar para diante e para trás em relação ao sistema de faltas e reprovações e às avaliações dos professores contribuíssem para os resultados dos alunos de 15 anos no mesmo ano em que foram tomadas essas medidas.

O que seria bom seria as pessoas, e nomeadamente os jornalistas, lerem os relatórios em vez de ficarem pelas superficialidades. Veriam assim que o PISA (Program for International Student Assessment) procura determinar não o grau de conhecimento mas a capacidade de obter e utilizar imediatamente o conhecimento, e se foca em três aspectos: leitura, matemática e ciência. Em 2009 dirigiu-se principalmente à capacidade de leitura dos alunos, nas componentes de acesso, captação, reflexão e avaliação.
O PISA divide então os alunos em 7 níveis de competência, sendo o 6º o mais elevado, e o que é triste é que entre 2000 (ano do primeiro teste PISA, também vocacionado par a leitura) e 2009 Portugal subiu a performance dos estudantes dos níveis mais baixos, dos quais tinha em 2000 uma das maiores percentagens da OCDE (PISA 2009 Results, Vol V, pg 70) mas manteve a dos níveis mais altos (pg 16). O mesmo se passa em relação à ciência (pg 71). Só em relação à matemática, na qual em 2003 quase 1/3 dos alunos se encontrava abaixo do nível 2 (pg 64), é que Portugal mostra melhorias nos níveis mais altos (pg 71).

Podemos ficar contentes por termos melhorado alguns índices, mas não podemos deixar de notar quão atrasados ainda estamos em relação aos países mais bem preparados da Europa, nem como as regiões de Shanghai e Hong-Kong na China, Singapura e a Coreia do Sul registam consistentemente as melhores pontuações (PISA 2009 Results, Vol I, pg 197). Enquanto nos contentarmos com a mediocridade não vamos a lado nenhum. Muito menos sair da crise em que nos atolámos.

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

Lip dub

Não conhecia o lip dub, ao que parece uma filmagem de uma ou várias pessoas movimentando-se ao som de uma música que depois é acrescentada ao filme como banda sonora.
Inventado há quatro anos por Jakob Lodwick, transformado em projecto de trabalho por um grupo de alunos da Universidade de Furtwangen, que o propôs num único cut, já é uma moda em tudo quanto é escola em todo o mundo e está em Portugal.

Mão amiga fez-me chegar este lip dub da Escola Secundária Dr. Francisco Fernandes Lopes em Olhão, um trabalho excelente de concepção, ensaio e realização. Se estes adolescentes se aplicarem noutros projectos tanto como neste, o País ainda não está perdido.

A Valquíria do Scala

Como, infelizmente, esta é a temporada em que nos ficamos pelas transmissões televisivas, ontem estive a ouver no Mezzo (se me tiram o Mezzo eu desisto da televisão por cabo) parte da récita inaugural do Teatro alla Scala, uma Walküre que valeu pelas belíssimas vozes de Nina Stemme e Waltraud Meier, numa encenação idiota com cenografia e figurinos de fugir, um Vitalij Kowaljow capaz, um Simon O'Neill com problemas e umas valquírias fraquinhas.
Como só apanhei a emissão já a meio do segundo acto, não posso comentar os outros cantores, mas no Valkirio, entre posts, comentários e links, há mais.

Que bom pretexto para pôr aqui esta soberba interpretação wagneriana da Stemme.

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

José e Pilar - o filme

Por uma vez que seja, junto-me ao coro de louvores: José e Pilar, de Miguel Gonçalves Mendes, é um filme belíssimo.

Gostar ou não dos personagens, isso é com cada um. Eu vi um velho cheio de vontade de viver enredado numa teia incontrolável, e uma mulher determinada e ambiciosa que só se dá conta da teia em que o enredou quando quase o perde. Se há amor? O realizador, com delicadeza, apenas capta os gestos e as palavras: as conclusões são do espectador.

Como cinema, isto é, como história contada numa sequência de imagens em movimento, é muito bom. Vale a pena ver.

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

Os carros mais bonitos Parte V

Eu já tinha avisado que também gosto de alguns carros pequenos e redondos como rebuçados e, como andamos aguilhoados pelas notícias da crise, aqui fica um carrinho pequeno e com um preço mais alcançável que consegue ser cool como tudo - ainda mais sem capota.

Imagem do blog de Richard Hammond

Há muitos anos andei num Cinquecento original de 57, que abria as portas da frente para trás. À procura de uma foto desse modelo, lembrei-me de que houve tempo em que os carros não traziam espelhos retrovisores...

Imagem daqui

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

Morreu Ernâni Lopes

Não foi Ernâni Lopes, num governo de Mário Soares de mil novecentos e oitenta e tal, quem lançou um imposto extraordinário sobre o rendimento com efeito retroactivo?

Há coisas que ficam entranhadas na memória, sobretudo quando infringem regras que também o estavam.

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

Um rei timorense?

Lê-se o discurso que o Senhor Dom Duarte fez ontem no Jantar dos Conjurados - também em video no YouTube ou em resumo aqui - e encontra-se ali bom senso, serenidade, e valores e sugestões importantes para Portugal e para os portugueses.

Depois lê-se nos jornais que o mesmo Dom Duarte pretende obter a nacionalidade timorense por ter com Timor relações profundas, e pergunta-se onde está o bom senso. É verdade que Dom Duarte sempre foi amigo e defensor do povo timorense, mas pedir a nacionalidade?

Este homem não é um português qualquer imigrado noutro país, que sentindo-se integrado tanto como (ou mais que) em Portugal pede a nacionalidade respectiva. Não é sequer um artista que, acarinhado igualmente noutro país, pede também a dupla nacionalidade. É o pretendente a Rei de Portugal.

Pode o pretendente a Rei de Portugal amar outro país a ponto de desejar uma segunda nacionalidade?
Não terá o compromisso do Rei com o seu povo de ser total e inequívoco? Se para ele Timor e Portugal valem o mesmo, isso quer dizer que está preparado para ser Rei de um como de outro? Ou nem de um nem de outro?

Como se pode ser Rei de um país e simples cidadão de outro?

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

Canção da crise

Com que então preocupado
Porque além do outro lado
Do mundo um operário
Vive e morre escravizado
Com trinta euros por mês
Sem folgas e sem horário
Sem direitos laborais
Sem protecções sindicais
A produzir esses bens
Que ficam por dois vinténs
E matam a comp'tição,
Deixando por sua vez
Sem ter alma ou coração
O Ocidente enrascado

Lembre-se do que estudou
Do tempo do bisavô
Quando a Europa crescia
E se industrializou
A mão-de-obra da altura
Labutava a pão e vinho
Sem direitos sem ventura
Sem saúde ou luz do dia
Assim foi duzentos anos
Quem dera que os humanos
Aprendessem mais depressa
A China na sua pressa
Vai seguindo p'lo caminho
Que a Europa já trilhou

Melhor fora que pensasse
No desolador impasse
Da vida que o arrasta
De casa para o trabalho
Do trabalho para casa
Sem o menor golpe de asa
A pagar a prestações
Férias e televisões
E o colégio das crianças
Sem tempo para pensar
Sem poder dizer já basta
'té ao dia em que as finanças
o retiram do baralho
num tremendo desenlace

Vai para o desemprego
Põe umas coisas no prego
Mas não deixa de fumar
À espera que a crise passe
Como se ela passasse
Só por você desejar
Mas quando se senta à mesa
As notícias não são boas
Andam doidas as pessoas
O governo desgoverna
Tentando passar a perna
Aos mercados.
     Sem pensar
Compra na loja chinesa
Um vago desassossego.

Fugas de informação

Andam governos, diplomatas e jornalistas num alvoroço porque foram divulgados documentos confidenciais da Secretaria de Estado e das embaixadas dos Estados Unidos no mundo.

Se os relatórios só dizem o que a imprensa relata (é difícil aceder-lhes no site da Wikileaks) não percebo porquê. Que o senhor Berlusconi gosta de festas pela noite fora e chega ensonado ao trabalho? Que a senhora Merkel é pouco creativa? Que Sarkozi é só garganta? Que os árabes gostariam que os Estados Unidos invadissem o Irão? Que os diplomatas americanos espiam os governos aliados? Que quem manda na Rússia é Putin? Mas isto é novo? Alguém ignorava?

Berlusconi, segundo parece, riu-se. What else?

sexta-feira, 26 de novembro de 2010

A quarta emenda

Notícia do Expresso:

Roupa interior com recados para scanners de aeroporto
(...)
Jorge Fonte (www.expresso.pt)
20:51 Quinta feira, 25 de Novembro de 2010

(...)
As mais recentes políticas da TSA (Agência de Segurança de Transportes) são os principais alvos de quem viaja e se vê obrigado a passar por um scanner corporal, que despe virtualmente e por completo a pessoa (que pode ser qualquer um, mesmo que não apresente motivos de suspeita). (...)
Os críticos põem em causa a legalidade deste tipo de controlo, apoiando-se na 4ª emenda da Constituição do país, que protege os cidadãos norte-americanos de buscas e revistas não autorizadas por um mandado ou por suspeita de ato ilegal.
É essa 4ª emenda da Constituição norte-americana que agora é impressa em t-shirts, meias e roupa interior masculina e feminina e pode ser comprada por todos.
(...)

Imagem daqui


É pena a roupa ser tão feia, porque a ideia é bem engraçada.

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

Thanksgiving

Os americanos celebram hoje o dia de Acção de Graças, e embora isso não tenha nada que ver com a nossa história ou tradição, não deixa de ser interessante e se calhar agradável, como sugerem a Moura Aveirense e a Opera Chic, lembrarmo-nos das coisas pelas quais podemos estar gratos.

Hoje já é um bocado tarde para me pôr à procura de motivos de gratidão, por isso fica para o próximo ano, se me lembrar, e se ainda os houver.

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

Dardos

Anda aí meio mundo dardejando outro meio, numa corrente que quer ser

o reconhecimento dos ideais que cada blogueiro emprega ao transmitir valores culturais, éticos, literários, pessoais, etc.... que, em suma, demonstrem a sua criatividade através do pensamento vivo que está e permanece intacto entre as suas letras e as suas palavras. Estes selos foram criados com a intenção de promover a confraternização entre blogueiros, uma forma de demonstrar o carinho e reconhecimento por um trabalho que agregue valor à Web

e olhem bem, o Garden of Philodemus também foi agraciado pela Luisa, do À Esquina da Tecla, um blog assumidamente algarvio, simpático e sem peneiras, a quem muito agradeço a gentileza.

Há muito tempo que perdi a paciência para correntes e selos, mas este Prémio Dardos declara querer promover a confraternização entre blogueiros, o que de vez em quando é uma boa ideia, por isso aceitei e, conforme as regras, repasso a mais dez:

ao A Voz da Abita (na reforma), que cumpre magnificamente a função que se propôs de manter informados os nossos Marinheiros, sobretudo os reformados;
ao Beira-Tejo, que nos encontra todos os dias um novo deslumbramento em Lisboa;
ao Delito de Opinião, que fala do bom e do mau, do passado e do presente;
ao Dias com Árvores, que nos vai desfolhando a flora linda e humilde dos nossos campos;
ao Poplex, um blog de gaja que não é igual aos outros blogs de gajas, e além disso tem um cão giro;
ao Van Dog, que nos mantém acordados para os problemas dos nossos animais;
ao We have Kaos in the Garden, que há anos infatigavelmente nos mostra com bonecos fantásticos os podres da desgovernação;
ao Zé do Telhado, que anda há tempos e repetidamente a tentar explicar porque é que isto vai de mal a pior;
ao Valkirio e ao Livro de Areia, que são oásis de serena beleza.

Lede-vos uns aos outros e pode ser que gosteis.

terça-feira, 23 de novembro de 2010

Animais modernos

A sério, só quem não anda atento não se apercebe de que os animais adaptam os seus comportamentos para reagir a novos estímulos e tecnologias.


Recebido por email (obrigada, amigo Joaquim)

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

Confiança

Se não visse no site do BES não acreditava (via O Cachimbo de Magritte)

Máquina Infernal

Notícia de The Telegraph:

Ambrose Evans-Pritchard
Portugal next as EMU's Máquina Infernal keeps ticking
The Portuguese seemed baffled - and pained - that investors should link their country in any way with Greece or Ireland. I am afraid they must come to terms very soon with some unpleasant facts.
By Ambrose Evans-Pritchard 6:00AM GMT 22 Nov 2010
So must Europe’s leaders, who comfort themselves that Greece is a special case because it cheated, and that Ireland is a special case because it allowed its "Anglo-Saxon" banks to go berserk. They have yet to acknowledge the deeper truth that monetary union has insidiously destabilised much of Europe and trapped a ring of largely innocent countries in depression.
(...)
So with some trepidation, let me point out that Portugal will have a current account deficit of 10.3pc of GDP this year, 8.8pc in 2011, and 8.0pc in 2012, according to the OECD. That is to say, Portugal will be unable to pay its way in the world by a huge margin even after draconian austerity.
This is the worst profile in Europe.(...)
The origins of this crisis go back to Portugal’s fateful decision to push for euro membership at least 20 years before it was ready.(...)
Portugal saw its competitiveness destroyed by the boom, and has never been able to get it back. (...) It has lost swathes of low-tech industry to Chinese and East European rivals faster than it can create high-tech alternatives.
Portugal has in a sense been the victim of EMU, a casualty of ideology, wishful thinking, and untested academic theories by Nobel laureates about optimal currency unions.
(...)


É bom perceber-se que a retórica dos nossos políticos não engana quem eles julgam. Há quem saiba fazer contas. E há analistas sem papas na língua.

Evans-Pritchard termina com uma proposta que, embora já me tivesse passado pela cabeça, ainda não tinha visto escrita preto-no-branco: que em vez de serem Portugal e os restantes PIIGs a sair do euro, saia antes a Alemanha, que tem capacidade para se aguentar sozinha e até valorizar a sua moeda, enquanto talvez os países do Sul conseguissem fazer adequar o euro às suas economias mais frágeis.

E por falar em Antero

Dera-se, com efeito, durante o século XVI, uma deplorável revolução nas condições económicas da sociedade portuguesa, revolução sobretudo devida ao novo estado de coisas criadas pelas conquistas. O proprietário, o agricultor, deixam a charrua e fazem-se soldados, aventureiros: atravessam o oceano, à procura de glória, de posição mais brilhante ou mais rendosa. Atraída pelas riquezas acumuladas nos grandes centros, a população rural aflui para ali, abandona os campos, e vem aumentar nas capitais o contingente da miséria, da domesticidade ou do vício. A cultura diminui gradualmente. Com essa diminuição, e com a depreciação relativa dos metais preciosos pela afluência dos tesouros do Oriente e América, os cereais chegam a preços fabulosos. O trigo, que em 1460 valia 10 réis por alqueire, tem subido, em 1520, a 20 réis, 30 e 35! Por isso o preço nos mercados estrangeiros, nem sequer pode cobrir o custo originário: a concorrência doutras nações, que produziam mais barato, esmaga-nos. Não só deixamos de exportar, mas passamos a importar.

Antero de Quental, Causas de Decadência dos Povos Peninsulares, Lisboa, 2010, pg 37

Substitua-se as conquistas pelo turismo, a afluência dos tesouros do Oriente e América pela facilidade de crédito e pela inundação de papel-moeda, e parece-me que a actualidade deste discurso proferido em 1871, na sessão inaugural das "Conferências Democráticas", não deixa dúvidas.

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

A crise e os animais

Diante das dificuldades económicas, muitos estrangeiros que vivem no Algarve estão a regressar aos seus países e não levam os animais que aqui adoptaram.

Não consigo entender as razões desta atitude: afinal parece que não são só os mouros quem abandona os animais quando a vida se complica. O certo é que cães e gatos estão a sofrer com esta crise para a qual não contribuíram minimamente.

(Praia da Galé, Dezembro 2006)

terça-feira, 16 de novembro de 2010

Terroristas à Portuguesa

Notícia do Público:

Cimeira da Nato
Dois detidos na fronteira do Caia com armas brancas e panfletos anarquistas e anti-polícia
16.11.2010 - 13:59 Por Lusa
A GNR deteve hoje de madrugada na fronteira do Caia (Elvas) duas pessoas que tinham armas brancas e vários panfletos com mensagens anarquistas e anti-polícia, disse à Lusa fonte daquela força de segurança.
Segundo a mesma fonte, os dois cidadãos, um homem de nacionalidade espanhola e uma mulher portuguesa, foram detidos cerca das 4h45 na fronteira do Caia.
A GNR encontrou no interior do carro armas brancas, designadamente uma navalha, uma catana de 40 centímetros e um estilete, e vários panfletos com mensagens anarquistas e anti-polícia, adiantou.
(...)


Oh pr'ós perigosos terroristas, com uma navalha, um estilete e uma catana de quarenta centímetros. Oh pr'ás nossas forças de segurança a fazer notícia. Oh pr'á Europa a olhar-nos cheia de respeito:

Portugal, dizia-se há anos, é o país mais liberal da Europa! A Europa, diziam os correspondentes dos jornais provincianos, inveja a nossa sorte, e acha-a única! A Europa, diziam no Grémio os jogadores de bilhar, estuda com afinco as nossas instituições, e duvida se chegará a imitá-las! A Europa quase que não compreende a nossa fenomenal liberdade de pensamento! Somente, meus senhores, ninguém se lembrava de pensar.

Antero de Quental, Carta ao Ex.mº Senhor António José d'Ávila, Marquês d'Ávila, Presidente do Conselho de Ministros

Já então era assim. O resto da carta é uma resposta maravilhosamente bem escrita à portaria com que o marquês proibira as "Conferências Democráticas" de que Antero era promotor, portaria que Antero definiu como um acto contrário à lei e ao espírito da época, e um acto tolo. A carta acaba asssim:

(...) supondo por um momento que alguma destas coisas possa passar ao século xx, folgo de deixar aos vindouros com este escrito a certeza duma coisa: que em 1871 houve um ministro que fez uma acção má e tola, e um homem que teve a franqueza caridosa de lho dizer.

O que, diz o Paulo, é uma maneira elegantíssima de mandar o marquês à merda.

Cogumelos

Não sei se se podem comer ou não, e de qualquer maneira não sou apreciadora de cogumelos, mas estes são originais e divertidos, a despontar no meio do fairway, espelhando em modo grunge as facetas das bolas que por ali rolam.

(Albufeira, Novembro 2010)

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

Don Pasquale

Ir à Fundação Gulbenkian assistir a uma transmissão televisiva directa da Metropolitan Opera House não é a mesma coisa que assistir a uma récita ao vivo, mas é o melhor que se arranja sem sair de Portugal, já que não perspectivamos ter tão cedo no S. Carlos espectáculos de primeira qualidade.

Dito isto, só tenho que alegrar-me e agradecer ao Met e à Gulbenkian o prazer que me deram no sábado com a transmissão do Don Pasquale de Donizetti.

A encenação de Otto Schenk, cenografia e figurinos sem arrojo mas muito bons - às vezes é mesmo o que apetece - e mesmo com alguns clichés como a cena em que Anna Netrebko / Norina calça as meias, decalcada de uma Manon em que fez furor, quando era mais jovem e mais magra e fazia personagens sexy sem precisar da suspensão da incredulidade que se usa habitualmente na Ópera. A voz, no entanto, mau grado a dicção tão incompreensível quanto a de Joan Sutherland, continua firme, ágil e sem esforço aparente nos trilos e agudos - sexy - e é sem dúvida uma forte presença no palco.

De Mariusz Kwiecien conhecia o nome e a reputação de barihunk, merecida tanto pela figura elegante e movimentação em cena quanto pela belíssima voz. O tenor Matthew Polenzani fez um Ernesto inocente, cuja única qualidade parece ser igualmente o único defeito, estar perdidamente enamorado. Achei a voz bonita, um bocadinho metálica às vezes, mas podia ser efeito do microfone.

Quanto ao protagonista, foi muito bem retratado pelo baixo-barítono John Del Carlo tanto do ponto de vista cénico como vocal, dando-lhe uma dignidade muito simpática. O divertido dueto com Kwiecien no 3º acto teve direito a repetição, nesta como em récitas anteriores.

Finalmente, coro e orquestra portaram-se lindamente, sob a direcção do maestro Levine que, diminuído ainda após a cirurgia, conduziu sentado mas aparentemente bem disposto.

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

No jardim do vizinho

Na realidade, este vizinho mora no Canadá... e não sei que planta é, mas tem a graça das bagas alaranjadas a aparecer de surpresa de dentro da casca, tentando passar por azevinho em antecipação do Natal.

(Toronto, 2010)

Mozart forever

Notícia do Diário de Notícias:

Nova Zelândia
Música clássica ajuda a diminuir violência em 'shopping'
por DN.pt Hoje
A introdução de altifalantes a emitir música clássica reduziu a violência no centro comercial City Mall, em Christchurch, Nova Zelândia, contou a gerência aos media locais.
(...)

Ora vai-se a ver e depois dos bebés e dos enterococos Mozart também acalma os energúmenos que atormentam os centros comerciais. Pois muito bem, dai-lhes Mozart, e depois Beethoven e Tchaikovsky, e até eu ficarei muito mais feliz quando tiver que me meter num desses lugares inóspitos para as compras que já não encontro nas ruas do meu bairro.

domingo, 7 de novembro de 2010

Cold Song

What power art thou, who from below
Hast made me rise unwillingly and slow
From bed of everlasting snow?
See'st thou not how stiff and wondrous old
Far unfit to bear the bitter cold,
I can scarcely move or draw my breath?
Let me, let me freeze again to death.


Da ópera King Arthur, libretto de John Dryden, música de Henry Purcell


Para outra versão, alternativa e arrepiante, ver aqui.

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

Ilusionismo a bordo

Notícia de The Globe and Mail:

Disguised man boarded Air Canada flight
ADRIAN MORROW and JILL MAHONEY
Globe and Mail Update
Published Friday, Nov. 05, 2010 12:17AM EDT
Last updated Friday, Nov. 05, 2010 11:22AM EDT

It wasn't until several hours into the long flight from Hong Kong to Vancouver that Air Canada staff knew they'd been had.
A passenger went into the bathroom elderly and white – his face wrinkled, eyes scrunched nearly shut, only a few wisps of white hair clinging to his otherwise bald scalp – and emerged a fresh-faced, young Asian.
(...)


Não foram divulgados nem os motivos nem os objectivos do passageiro, que pediu o estatuto de refugiado ao chegar ao Canadá, mas mais uma vez se verifica quão ilusórias são as medidas de segurança que actualmente nos fazem perder tempo e paciência nos aeroportos.

Mais uma reforma ortográfica

Afinal não somos só nós, os que escrevemos português, a enfrentar uma reforma ortográfica: os espanhóis também vão ter uma alterações, mesmo sem a desculpa da uniformização trans-oceânica.

Na verdade a confusão que El País faz neste artigo com os acentos é tão grande que me parece que estão mesmo a precisar de uma reforma.

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

The Circus

Um irlandês um bocado maluco chamado George Clarke anunciou outro dia que tinha descoberto uma personagem a falar ao telemóvel num filme de Charlie Chaplin de 1928.

O video do próprio Clarke é um bocado seca, por isso fica aqui o fragmento que interessa, mesmo assim com várias repetições incluindo em câmara lenta:


E agora há duas hipóteses:
  1. as imagens são verdadeiras, e têm uma explicação racional (a senhora vai a falar sozinha e está a coçar a cara, por exemplo);

  2. as imagens não são verdadeiras e foram inseridas pelo próprio Clarke, que trabalha em cinema.

De qualquer maneira, se non è vero è ben trovato.

Canto secular

[Em 1892] No ambiente de alarme financeiro, [o ministro da Fazenda, Oliveira] Martins agravou os impostos, cortou os ordenados dos funcionários (até 20%), deduziu 30% nos juros da dívida pública interna e suspendeu as admissões na função pública. Depois de dois anos de agitação, ninguém protestou, para divertimento de Oliveira Martins: «Isto nem forças tem para se sublevar. O cáustico dos impostos e deduções quase que foi recebido com bênçãos. Somos um povo excelente cujo fundo é a fraqueza bondosa e uma grande passividade.»

Rui Ramos, História de Portugal, Lisboa, 2009, pg 554

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

Quem preside

Notícia do Diário de Notícias:

Eleições no Brasil
Dilma é a primeira 'presidenta' do Brasil: "Sim, a mulher pode"
por Susana Salvador Hoje
(...)

Presidenta foi o termo usado pela Srª Rousseff no seu discurso de vitória, e segundo o jornal Folha de S. Paulo, foi igualmente utilizado em comícios da campanha. O Folha cita a sua própria consultora de língua portuguesa para aceitar que as duas formas estão corretas, mas ainda assim informa que vai referir-se a Dilma Rousseff como presidente. Obrigada, Folha!

Espero que presidenta fique fora do acordo ortográfico. Ou já não há palavras uniformes, independentes do género? Ou o politicamente correcto ataca de novo sem temer o ridículo? Ou é simplesmente nisto que dá o esquecimento do latim como fundamento da língua portuguesa?

domingo, 31 de outubro de 2010

Halloween

Eu detesto filmes de terror, teias de aranha e Halloween. No entanto, quando vivi na América, achei alguma graça ao ambiente, e cheguei a ter rebuçados em casa para a eventualidade de me aparecerem trick-or-treatsters.

Os bairros residenciais de Toronto, que para o Natal se enfeitam feericamente de luzes, apresentam nesta altura decorações mais sinistras.



(Toronto, Outubro 2010)

sábado, 30 de outubro de 2010

Música e jornais

Esta semana o Expresso oferece, como início de uma série sobre grandes compositores, um CD com obras de Chopin. As informações na capa já me deixaram um bocado perplexa: sendo todas as peças para piano solo, os intérpretes anunciados são a Royal Philarmonic Orchestra com o pianista Ronan O'Hora.
Encolhi os ombros, porque toda a série está creditada à RPO, e pode por isso ser uma edição própria, embora a orquestra evidentemente não toque.

A grande surpresa vem quando ponho o CD no computador e o abro com o iTunes: é que agora o intérprete que me aparece é... Sequeira Costa, e o álbum chama-se Dela za klavir, o que, segundo o Google, é croata para Obras para piano.

Descontente com esta embrulhada, continuo a investigar. E concluo que deve tratar-se desta edição da RPO, e que o pianista será realmente O'Hora.

Ah, quem se importa, para além de mim? Tomai lá mais um pouco de Chopin, por Yuja Wang:

Calimero

Logo neste fim-de-semana em que nem sequer na segunda-feira estou de serviço, tinha de haver temporal?

É que com este vento nem sequer posso acender a lareira :-(

Imagem © Ancient Worlds

Little Portugal

Em Toronto há bairros para todos os gostos, desde a mais sofisticada Yorkville até à inevitável Chinatown e, para os nostálgicos do Portugal dos anos sessenta, o bairro português com lojas chamadas Lanalgo ou Nazaré.

A pastelaria Nova Era serve uns simpáticos pastéis de nata que são apreciados mesmo fora da comunidade portuguesa. Aí se pode igualmente comer um prego tradicional ou, se se preferir, já modificado ao gosto do Novo Mundo.




Noutra zona bem diferente, encontrei numa liquor store (no Canadá só se vendem bebidas alcoólicas em lojas especializadas) uma pequena mas boa selecção de vinhos portugueses.

(Toronto, Outubro 2010)

domingo, 17 de outubro de 2010

Roubalheira à inglesa

Há cerca de um mês um dos maiores operadores turísticos mundiais informou telefonicamente os hoteleiros de Portugal, Espanha e Turquia que iria reter uma percentagem dos pagamentos que se tinha obrigado contratualmente a fazer e que correspondiam a serviços já prestados.

Trocando por miúdos: no inverno passado este operador contratou com os hoteleiros pagar-lhes x por cliente que lhes trouxesse. Os clientes vieram, passaram férias, foram, e na altura de pagar o operador disse, Ah não, agora só vos pago x menos y, porque tive prejuízos quando da erupção do vulcão.

Eu pasmo com estas coisas. Tanto quanto sei, para cortar no salário que me paga o desgoverno deste país tem de ser autorizado pelo parlamento que teoricamente representa os meus interesses. E uma empresa qualquer, ainda por cima estrangeira (não, não se trata de xenofobia), pode decidir cortar nos pagamentos que me deve quando e como lhe apetece? E não acontece nada? Os hoteleiros, ou as suas associações representativas, não fazem uma escandaleira? Não põem os clientes todos na rua? Não sequestram os aviões desse operador? O desgoverno não se intromete? Não há queixas em Bruxelas?

Que raio de país é este...

... em que um hospital central não tem pessoal de enfermagem suficiente no Bloco Operatório para num domingo de manhã se poder operar simultaneamente dois doentes urgentes?

Mas diz que há funcionários públicos a mais e corta-se os salários aos que há.

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

A crise a nu

Notícia do Expresso:

Operário manifesta-se nu na EN 125 e é detido
Um operário ucraniano que trabalha na construção de um hotel na Quinta do Lago, no Algarve, manifestou-se nu na EN 125 por ter seis meses de salário em atraso. Foi detido por duas horas.
Lusa
15:53 Sexta feira, 15 de Outubro de 2010

(...)
"Tenho três filhos na Ucrânia e preciso do dinheiro dos seis meses de trabalho que me devem", declarou hoje à Lusa, Sergiy Fischchenko, 40 anos, natural da Ucrânia.
Sergiy trabalha para a empresa VDV Protrata na construção do Hotel Conrad Algarve Palácio da Quinta, promovido pelo Grupo Imocom, e foi detido durante duas horas por se ter despido na EN 125 com o objetivo de chamar a atenção para os seus problemas laborais.
(...)


Isto não tem graça nenhuma. Os ucranianos que vivem em Portugal vieram a fugir do seu país cuja economia estava um caos, onde não havia dinheiro, onde os ordenados, quando eram pagos, o eram em géneros, e onde a humanidade se dissolvia perante a fome.
Durante alguns anos sentiram-se a salvo, e resignaram-se a trocar os sonhos pela segurança de um ordenado ao fim do mês. As engenheiras fizeram-se empregadas de limpeza, os médicos carpinteiros. Aprenderam a falar português. Mas agora enfrentam a ameaça de uma nova crise económica e social e já não sabem para onde fugir.

Soubesse eu e fugia com eles.

A idade da reforma

Notícia do Diário de Notícias:

Longevidade
Ana Jorge fala em aumentar a idade da reforma
por Lusa Hoje
(...)
"Se nós aumentamos a longevidade por que não aumentar a idade da reforma, dado que somos mais activos. Hoje os 70 anos é o limite de trabalho activo na área pública e o direito à reforma é mais cedo, está nos 62,5 anos. Mas eu diria que aos 60 anos temos ainda muita capacidade e vontade de trabalhar. Isto merece uma reflexão", afirmou a governante durante a sua intervenção num seminário sobre envelhecimento, que decorre em Lisboa.
(...)


Houve a descoberta da pólvora. Houve o ovo de Colombo. Há a descoberta da longevidade pela Drª Ana Jorge.

Oiçam o que eu digo: a idade da reforma vai desaparecer, porque vai deixar de haver reformas. Os que puderem trabalharão até morrer. Os desempregados morrerão mais cedo, de fome e de doença. Meia dúzia de gajos viverão de rendimentos.

Não era assim, antigamente? Não é assim ainda hoje para metade da espécie humana? Pois no fim da crise vai ser assim outra vez. O Estado Social, meus amigos, é um parêntesis.

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

Não há festa no Palácio

Notícia do Diário de Notícias:

Reino Unido
Rainha anula festa de Natal devido à crise
por Lusa Hoje
(...)
A rainha Isabel II anulou a recepção que costuma dar de dois em dois anos ao pessoal por ocasião do Natal, alegando que é necessário "mostrar uma certa contenção" nos actuais difíceis tempos económicos, foi hoje anunciado.
(...)
Este ano, a festa estava prevista para 13 de Dezembro e cerca de 1200 empregados domésticos, incluindo secretários, tinham sido convidados, segundo o jornal britânico The Sun.
A «Christmas Party», financiada com fundos privados da rainha, custa cerca de 50 000 libras (57 mil euros), segundo o jornal. O palácio não confirmou estes dados.(...)


Confronte-se isto com esta notícia. E com esta outra. E há muitos que ainda julgam que as monarquias são caras.

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

Os carros mais bonitos Parte IV

O que primeiro me seduziu no Maserati, em finais dos anos 90, foi o interior: ao contrário de todos os outros carros que conhecia, a pele dos assentos do Maserati Quattroporte não era esticada, antes sobrava em dobras e pregas. Para mim, foi o luxo. Ou a luxúria.

Foto © BBC News

Hoje os modelos do tridente já não desperdiçam dinheiro em excessos de pele, mas as linhas do GranCabrio colocam-no decisivamente no grupo dos carros mais bonitos.

Foto © Maserati

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

Tony Curtis e Joan Sutherland

Depois da morte do actor Tony Curtis há poucos dias, acabei de saber que Joan Sutherland morreu ontem.

Nem um nem outro faziam parte dos meus preferidos, mas ainda assim lembro um e outro com respeito.
Tony Curtis recordo vagamente da série televisiva de aventuras The Persuaders, que protagonizava com Roger Moore. A minha irmã gostava do personagem de Curtis, eu preferia o de Moore.

Quanto a Dame Joan, nunca me encantou. Admito que a falha seja minha mas, desde que comprei a Traviata que gravou com Pavarotti sob a regência de Bonynge, e descobri que não percebia uma palavra do que ela cantava, nunca consegui gostar de a ouvir.

domingo, 10 de outubro de 2010

Aniversário

Notícia do Diário de Notícias:

Despesas
DGCI gasta 220 mil euros a comemorar aniversário
Ontem
O organismo responsável pela cobrança de impostos fez gastos elevados na celebração dos seus 160 anos.
Mais de 220 mil euros foi quanto a Direcção-Geral das Contribuições e Impostos (DGCI) gastou nas comemorações dos seus 160 anos. Estas despesas - que datam de Novembro de 2009 - incluem os gastos do jantar pago a todos os directores das Finanças, mas não contemplam as despesas de pernoita de cerca de 900 pessoas que se deslocaram a Lisboa para assistir às comemorações, o que ainda poderá adensar mais o valor.
(...)


Suspeito que as únicas pessoas que acham que há motivos para celebrar os 160 anos da DGCI estavam nesse jantar. E mesmo assim, algumas teriam dúvidas.

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

Sair à noite

Como acho que não se aprende nada se não se testarem coisas sem garantia, esta semana dei novas oportunidades ao cinema e ao teatro musical.

O filme Eat pray love tinha críticas razoáveis; admiti que fosse uma comédia romântica simpática, com cenários fantásticos já que se passa em Itália, na Índia e em Bali, e uma boa interpretação de Julia Roberts, mas mesmo para chick flic foi uma decepção, com um argumento fraco e sem soluções, a protagonista sempre à beira das lágrimas, e um diálogo que era uma sequência de lugares-comuns. Os cenários não salvam tudo.

Churchill - The Musical era uma aposta diferente. Os autores, dois ingleses que vivem no Algarve, lembraram-se de escrever e produzir um musical sobre aquele que foi votado na BBC como o maior britânico de todos os tempos. Ao fim de dois anos de trabalho apresentaram o espectáculo no Auditório Municipal de Lagoa, tendo importado do Reino Unido o encenador, os cantores principais e os bailarinos.

Imagem daqui

Naturalmente Derek Charles Ash e Trevor Holman desejam um grande sucesso para a sua criação, após esta estreia algarvia. E eu acho possível que tenha uma boa carreira, se eles tiverem a humildade necessária para modificar e melhorar algumas coisas.

Para começar, precisam de uma orquestra a tocar ao vivo, em vez de uma gravação fanhosa. Precisam de bons actores e cantores: se Jonathan Reynolds como Winston Churchill e Sarah Pryde como Clemmie Churchill não iam mal, a jovem Jade Willis como Anne Frank foi fraquíssima; os outros, com uma ou duas excepções, suponho que eram amadores com mais ou menos (ou nulo) talento. E precisam de recordar que teatro e cinema não têm o mesmo ritmo, que não se pode andar sempre a mudar os cenários, que por alguma razão os autores clássicos postulavam as três unidades: de lugar, de tempo e de acção.

Interessante, embora não positiva, a sensação de que no Algarve a comunidade britânica continua isolada: Churchill - The Musical foi criado por ingleses para ingleses, e apesar dos apoios e patrocínios locais, eu era uma dos quatro únicos portugueses presentes no auditório.