sábado, 11 de março de 2017

O direito à saúde

Voltei hoje a ler (no Facebook, mas podia ser em qualquer jornal ou blogue, tão interiorizado está este conceito) que "toda a gente tem o direito à saúde". Supõe-se até que está consagrado na Constituição portuguesa, mas é mentira.
No artigo 64 a Constituição não fala em "direito à saúde" mas em "direito à protecção da saúde".

"Toda a gente" não tem direito à saúde. Ser saudável ou não está na natureza dos genes, nos hábitos de vida e na geografia. Pelo menos. E porque felizmente negamos às bactérias o "direito à vida", ou seja, a comer, reproduzir-se e dar uns passeios turísticos.

Pode-se ter, isso sim, direito "à protecção da saúde", quer dizer, a tratamentos médicos, e isso pode ser um direito universal (para um determinado "universo", por exemplo, para os nacionais ou para os residentes) ou não (só para funcionários públicos, ou só para quem subscreve um seguro), gratuito (no momento em que é utilizado, porque tem custos e portanto alguém nalgum momento os paga, provavelmente via impostos ou prémio de seguro) ou não (taxas "moderadoras", devolução posterior do valor pago), ilimitado (sem tectos de custos) ou não.

Assim sendo, pela sua variabilidade torna-se evidente que o direito a tratamentos médicos não é um "direito " fundamental mas sim uma conquista cujas existência, expressão e manutenção dependem de circunstâncias tão díspares e tão frágeis como a situação económica e a diferenciação cultural de uma sociedade.

Por isso mesmo nem sequer pode se pode exigir o "direito fundamental" que seria desejável "toda a gente" ter, que seria saber com o que conta e não ver mudar as regras, sobretudo para pior, a meio do jogo.

sábado, 4 de março de 2017

Populista, eu?

Escreve José Manuel Fernandes no Observador:

Cas Mudde e Cristóbal Rovira Kaltwasser, num pequeno livro que acaba de sair em Portugal, “Populismo – Uma Brevíssima Introdução” (Gradiva), escrevem: “Definimos populismo como uma ideologia de baixa densidade que considera que a sociedade está, em última instância, dividida em dois campos homogéneos e antagónicos – “o povo puro” versus “a elite corrupta” – e que defende que a política deveria ser uma expressão da volonté générale (vontade geral) do povo”

Ora a verdade é que cada vez mais, ao ler e ao ouvir as notícias, sinto que há dois mundos diferentes e paralelos, um em que vivemos nós, mortais comuns afogados em preocupações comuns (a prestação da casa, o IMI, o trânsito, as listas de espera nos hospitais e o despontar dos seguros de saúde, os fins-de-semana, as férias, o trabalho, o burnout e o desemprego, as reformas antecipadas, a educação dos filhos), e outro em que vivem as pessoas de dinheiro e de poder, cujos interesses passam pelos movimentos de muitos milhões de euros. Só.

Se ao menos não houvesse contactos nem interferências entre estes dois mundos, poderíamos no nosso seguir as nossas vidinhas e ignorar o outro, ou encará-lo como um filme no cinema; poderíamos tentar melhorar as nossas situações com regras escolhidas por nós e que para nós fizessem sentido. Infelizmente parece que, para continuarem a movimentar os seus milhões, essas outras pessoas precisam de nos infernizar, subjugar e manter em estado de ignorância e precariedade.

Quando era mais novinha, acreditava que a minha vida iria mudar no sentido de maior liberdade, maior conhecimento e reconhecimento profissional, mais dinheiro, mais amigos, melhores viagens, mais tranquilidade, em resumo, maior amplidão de recursos e horizontes. Hoje sinto-me como um rio apertado entre paredes de betão. Quando chove, o caudal aumenta e consigo espreitar para além destas margens artificiais, mas cada vez mais, entre barragens e comportas, sou obrigada a manter-me num curso que não escolhi até chegar, inevitavelmente, ao mar.

quarta-feira, 1 de março de 2017

Onda verde

Alguém com bom gosto, iniciativa e criatividade, andou a decorar semáforos no Algarve.


(Albufeira, Fevereiro 2017)

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

Chopin por Avdeeva na Fundação Gulbenkian

A propósito do concerto com Yulianna Avdeeva e a Orquestra da Fundação Gulbenkian a que assisti em Janeiro passado, reparei como é diferente a concepção da função de solista e orquestra em Chopin e Beethoven, bem evidenciada nos dois concertos para piano que prefiro entre os de ambos os compositores.
No concerto nº 4 de Beethoven, há um diálogo evidente entre o piano e a orquestra. No segundo andamento, então, dir-se-ia que aos queixumes do piano a orquestra responde tentando arrancá-lo à melancolia. No terceiro andamento verifica-se que conseguiu, a conversa entre ambos é alegre e triunfante.
No concerto nº 2 de Chopin, é o piano que fala, e a orquestra apenas apoia, acentua ou emoldura. Podia-se quase passar sem ela, e o segundo andamento transformava-se facilmente em mais um nocturno.

Aqui fica o Chopin de Avdeeva há dois anos, em Nantes:



O programa de sala do concerto da Gulbenkian está aqui. A Antena2 informou repetidamente mal, trocando Berlioz por Dvorak e a 2ª de Brahms pela 3ª.

sábado, 4 de fevereiro de 2017

domingo, 29 de janeiro de 2017

Trump e a tortura

Notícia do Observador:

Presidente Trump
Donald Trump: “A tortura funciona. Devemos combater o fogo [Estado Islâmico] com o fogo”
26/1/2017, 10:48
(...) “Falei com oficiais dos serviços secretos e perguntei-lhes: ‘Funciona? A tortura funciona?’ E eles responderam-me: ‘Sim, absolutamente!’ (...)"(...)

A notícia original da ABC News aqui.

O problema é que Trump fez a pergunta errada. O que devia ter perguntado não era se a tortura funciona, mas se podia obter resultados sem recorrer à tortura, que é o que importa a quem se preocupa com a segurança mas não quer abandonar os valores civilizacionais que o separam da barbárie.

Ciganos

Cada vez que há um doente cigano internado e o clã inteiro invade o terreno do hospital lembro-me das razões por que não gosto de ciganos: essencialmente porque não se lavam, porque não recolhem o lixo que fazem, porque vivem à margem mas aproveitam os nossos impostos, porque descuidam os cavalos e os cães, porque não estudam e não deixam as raparigas estudar.

(Faro, Janeiro 2017)

Mas hoje perguntei-me: que raio de sociedade é a nossa, especificamente a nossa, portuguesa, que não consegue convencer estas pessoas a integrar-se na nossa cultura, acrescentando-lhe as eventuais mais-valias da sua própria tradição? E apercebi-me de que conheço muito mal a realidade cigana actual no nosso país, pelo que decidi ir à procura e encontrei online este Estudo Nacional sobre as Comunidades Ciganas, que li e recomendo a quem tiver a mesma curiosidade que eu.

Não respondeu a todas as minhas perguntas, confirmou praticamente todas as minhas ideias, mas pôs-me outras questões. Levou-me a perceber melhor que temos, "nós", os gadjos, responsabilidades na discriminação mas que "eles", os ciganos ou roma, também põem barreiras à integração: afinal, há medo de parte a parte, e cada parte se defende como sabe, uma excluindo, a outra manipulando.
Talvez haja, e espero que haja, desde que alguns de "nós" tomaram consciência dos problemas deste relacionamento e que já alguns d'"eles" os encaram também, maneira de os solucionar, mas vai ser preciso tempo, esforço e motivação.

Se gosto mais dos ciganos depois de ler este estudo? Não sei. Gostava que, para começar, apanhassem o lixo em vez de o deixarem para os funcionários do hospital.

sábado, 21 de janeiro de 2017

Acidente

Falavam de um acidente envolvendo dois automóveis, um dos quais aparentemente roubado, já que a matrícula não batia certo.
A história metia polícia, seguradoras, um carro numa estrada onde não era esperado, não percebi quem tinha abalroado quem.
E a certa altura o desabafo:

_ Enfim, está ali um brólio que não queira saber!

sábado, 14 de janeiro de 2017

Os carros mais bonitos Parte X

Um dos carros mais bonitos que por aí andam é o novo Mazda MX-5. É a quarta geração do "roadster mais vendido do mundo", segundo afirma a orgulhosa marca japonesa. Quando vivi em Miami gostei muito deste pequeno desportivo, que nessa altura ainda tinha faróis escamoteáveis (como o Porsche 924 e o 944). Mas o desenho do MX-5, conhecido nos EUA como Miata, mais do que para o Porsche sempre apontou para o Jaguar, o que nunca foi mais evidente do que agora.

Foto de Mario von Berg (Kickcaffe) para Wikipedia

Foto daqui

De resto, parece um carrinho de brincar mas - se por um momento esquecermos as diferenças nos motores, claro - tem lá dentro todo o equipamento que num Porsche Boxter ou num Jaguar F-type vem pelo dobro ou triplo do preço. Excepto a capota, que é manual, mas até isso tem graça - embora venha aí o novo modelo com capota dura elétrica, ao qual os puristas, por enquanto, torcem o nariz.