terça-feira, 3 de julho de 2012

Da cópia

Se não me engano foi ontem que ouvi na Antena2 o primeiro andamento do Concerto para Trompete em Mi bemol de Haydn, tocado por Wynton Marsalis, e percebi que conhecia aquilo de qualquer outro lado.
Oiça-se então logo no princípio, ao minuto 0:37, este tema que é aqui tocado pelas cordas e é repetido mais adiante várias vezes, inclusivamente pelo solista (por exemplo em 1:40):


e agora oiça-se esta ária da ópera Fidelio de Beethoven, onde o mesmo se encontra a partir do minuto 6:10:


A Ana Vidal, no seu post de hoje, propõe que estas coisas se passem quando a mente não reconhece o déjà vu (déjà entendu, no caso) e "acredita" estar a criar uma nova sequência musical, quando, afinal, está apenas a reproduzir uma que tem gravada na memória. Uma boa hipótese, claro, embora para os grandes compositores de antigamente se possa também imaginar, como já tem sido dito neste blogue, que tenham ouvido um tema, gostado e resolvido utilizá-lo, sem grandes problemas quanto à respectiva atribuição.
Nesses séculos, suponho, a questão dos direitos de autor não se devia pôr da mesma maneira.

14 comentários:

Mário disse...

Desta vez parece-me um bocado forçado, Gi. Claro que Beethoven podia ter os compassos de Haydn no ouvido, e ter achado que encaixavam bem ali; mas "cópia" como diz o titulo, não, não acho mesmo nada. E olhe que sou fanático de Haydn.

Paulo disse...

Cópia também não acho. No entanto, as notas e o ritmo de "Mein Engel, Leonore" têm algumas semelhanças com o tema de Haydn.

Concordo contigo e com a Ana Vidal que a mente possa, inconscientemente, utilizar reminiscências de criações anteriores no acto de uma nova criação.

Gi disse...

Mário, forçado como?
(Eu sou quase fanática de Beethoven..)

Gi disse...

Paulo, algumas semelhanças? Eu acho igualzinho.

Mário disse...

Gi,

Os compassos semelhantes são muito poucos, o desenvolvimento é diferente, a situação harmónica totalmente diferente; enquanto em Haydn se trata do "tema", em Beethoven é apenas uma frase passageira, talvez até "pedida" pelo texto, que logo evolui para outra coisa.

Como eu já disse, Beethoven podia tê-la no ouvido e, sabendo ou não, achou que se adaptava bem ali; mas a Gi sugere "cópia", e é isso que acho forçado neste caso (era mais evidente noutros achados anteriores).

Abraço

Gi disse...

Ah, Mário, peço desculpa, sobretudo ao Beethoven, porque não pretendia criticá-lo. Pelo contrário: a grande maioria dos posts em que abordo estas semelhanças não é uma acusação de plágio, é a descoberta de como os grandes compositores se apropriavam de temas de outros e os resolviam à sua maneira.
Acho que me tenho explicado mal.

Mário disse...

Acho que tenho entendido isso, Gi, e tem tido graça e sido bem interessante. Não leve a mal, por favor. Quer que retire tudo
o que disse ? ;)

Gi disse...

Claro que não, Mário, da discussão nasce a luz :-)

Fernando Vasconcelos disse...

Ah mas atenção que a questão da "originalidade" e do "plágio" nesta época não se colocavam de todo assim.
Isso é muito posterior a Beethoven, a bem dizer é quase que um by-product do romantismo com a noção da unicidade da obra e do papel quase que "deusificado" do compositor. Até aí as "citações" eram frequentes por vezes voluntárias outras não, por vezes até homenagem a quem se copiava. Isto para já não falar do "auto-plágio".
Não podemos mesmo analisar isto à luz da realidade do século XXI. Na época ambos os compositores se o soubessem ficariam radiantes com a semelhança.

Gi disse...

Fernando, e não foi Haydn mestre de Beethoven?

Magia da Inês disse...

♡♡♡ ♡♡♡
Boa noiteeeeeeeeee!!!
Beijinhos.
Minas
♡♡♡ ♡♡♡

Gi disse...

Magia da Inês, olá, retribuo os bjs :-)

Mário disse...

Fernando, concordo consigo no essencial, há só um "mas" : enquanto Mozart sempre mostrou a devida admiração e gratidão a Haydn, para ele o "maior", e certamente o citava como a um Mestre, Beethoven foi bastante ingrato com Haydn, que considerava "menor" em relação ao seu próprio enorme génio. Tinha um ego do tamanho do génio. Se "citasse" música de Haydn, seria para tornar evidente
"vêem como eu faço muito melhor?".

Isto sem desprimor, claro. Génio pode bem rimar com mau temperamento.

Gi disse...

Mário, no caso de Beethoven rimava certamente: genial e insuportável, rezam as crónicas.