quinta-feira, 11 de abril de 2013

A igualdade

Perante situações de fome extrema, a vontade de redenção pela igualdade é como a força de um sentimento religioso.
Joel Costa, hoje, no seu blogue Questões de Moral


Quando, nem há um mês, estalou o problema cipriota, e toda a gente se indignou com o confisco das poupanças dos cidadãos, isso deveu-se a um simples esquecimento, por parte de quem manda, do imperativo maquiavélico, divide ut imperes*: resolveram taxar todas as poupanças, maiores e menores, embora em dois escalões diferentes (dez por cento acima dos cem mil euros, sete por cento abaixo).
Quando se deram conta, apressaram-se a reparar o erro, propondo que os depósitos até ao número mágico de cem mil euros afinal não fossem taxados. Logo se fez um aliviado silêncio que permite ao desgoverno cipriota (ou antes, às hienas europeias) roubar sessenta por cento dos depósitos acima desse valor.

Na verdade, os mais pobres interiorizaram a máxima revolucionária os ricos que paguem a crise, e os meios de comunicação social têm sido extremamente eficazes ao martelar os conceitos de ordenado milionário e reforma milionária, sendo que, para um povo fraco em matemática, acima de mil euros todos os zeros valem a mesma coisa.
Quanto aos que têm um bocadinho mais, esses já se sentem culpados por haver quem tenha menos e aguente. Entre os discursos da direita e os da esquerda, passo a passo lá nos vamos encaminhando para a União Soviética.



*divide para reinares

10 comentários:

Mário disse...

Pois, estamos de acordo, Gi.

O assimilar da "classe média", ou "remediada", a ricos, justificando o roubo das poupanças com uma justiça "Robin Hood", é típico das ditaduras, sobretudo das ditaduras socialistas.

Ricos, para eles, só alguns grandes amigos do Estado.

Helena disse...

E qual é a alternativa, Gi?
Uma das alternativas é deixar o banco ir à falência, e toda a gente perder 100% dos depósitos.
Outra alternativa é pôr um milhão de cipriotas a assumir 7 mil milhões de euros de dívida (foi essa a parte que o eurogrupo exigiu que viesse dos próprios bancos) para safar os depósitos bancários de todos. Sete mil euros per capita é muito dinheiro - sobretudo se se considerar que já vão em dez mil per capita (o governo cipriota pediu 17 mil milhões, no total).
Não sei se os cipriotas vão conseguir pagar os 10 mil milhões. Parece-me que 17 mil milhões é ainda mais difícil de pagar.
Como resolver então o problema?

Mário disse...

Gosto muito da sentença bíblica

"A cada sete anos, renunciar à colheita e perdoar qualquer espécie de dívida." (Neemias 10, 32)

Isto, a quem tiver honrado as dívidas nos outros 6.

Acho que o sétimo ano já deve ter chegado.

João Afonso Machado disse...

O que esqueceu a toda a gente (por incrvel que pareça é que o Governo cipriota pelo menos até às eleições no mês passado) dizia-se comunista. Aliás o único na UE.

Gi disse...

Helena, não sei qual é a alternativa, mas acho que roubar parte das poupanças das pessoas com a desculpa que muitos depositantes são mafiosos russos não pode ser. Fiscalize-se melhor a origem do dinheiro, por exemplo! Os bancos suíços, por exemplo, hoje em dia são bastante cuidadosos.

Gi disse...

Mário, não conhecia. Mas há que convir que nos outros 6 anos nem bancos nem desgovernos se têm portado muito bem.

Gi disse...

João Afonso, ou não dei conta, ou já me tinha esquecido, mas é interessante.

Helena disse...

Gi,
tens usado bastante a palavra "roubar". Mas o facto é que os bancos estão praticamente falidos, e aqueles depósitos já só existem no papel. A questão central é: se os contribuintes (quais? os cipriotas? os dos países do euro?) são obrigados a garantir esses depósitos, em que condições é que isto deve ocorrer?
Olhar para a origem dos capitais é bonito, mas para isso já se vai tarde no Chipre. O sector financeiro desse país cresceu justamente por não ter olhado para a origem dos capitais.
No caso BPN: teria sido melhor não garantir os depósitos acima de um determinado valor, ou obrigar o povo português a sacrifícios grandes para garantir que nenhum depositante do BPN perdesse um único euro?

Gi disse...

Helena, como disse acima, não sei qual é a alternativa. Parece-me que um banco mal gerido deve ser deixado falir, mas provavelmente penso assim porque ainda não aconteceu num banco onde eu tivesse dinheiro... Da mesma maneira, parece-me que só fica satisfeito com as "garantias" aos depósitos até cem mil euros quem não anda longe dessa quantia. Ou seja, eu não sei onde pôr os limites. O ordenado de certos gestores parece-me obsceno, mas pelo que leio qualquer ordenado ou pensão acima de mil e quinhentos euros já é, em Portugal, "milionário", e pode ser taxado sem vergonha.

Quando falo em "roubar", é porque entendo que as poupanças de quem ganhou dinheiro a trabalhar e já pagou os seus impostos, pertencem a essa pessoa e retirar seja que parte for por seja que razão for é tanto um roubo como se lhe tirassem uma casa, um carro, um par de sapatos ou qualquer outro bem em que tivesse aplicado o dinheiro em vez de o pôr no banco.

Helena disse...

Gi, também não conheço uma alternativa que me satisfaça realmente. Só pergunto: o que é menos mau?
E depois, há aquela coisa chata de aqui na Alemanha andarem a preparar o terreno para um dia destes expropriarem o pessoal a sério. A dívida pública é demasiado alta, e já começaram a dizer que é sensivelmente igual à poupança privada. Como se tivesse havido uma deslocação do bolso do Estado para o dos privados.
Este debate tem-me lembrado uma conversa que tive há anos com suíços. Eles, um casal já bastante idoso, queixavam-se que a Suíça põe impostos sobre as habitações familiares tão absurdos, que é quase como se estivessem a pagar renda de casa da habitação que compraram. E lamentavam-se: poupámos tanto dinheiro para comprar a nossa casinha, e agora vamos ter de vendê-la porque não podemos pagar o imposto.
Veremos "que mais irá me acontecer"...