sexta-feira, 26 de julho de 2013

Depressão

Mais que apagada e vil*, esta tristeza
É uma manta mansa, larga, densa,
Que cobre o que se diz e o que se pensa
E extingue sem remorso a chama acesa

Da esperança. Estende devagar
Os dedos de silêncio em cada canto,
Esmorece a raiva, o sonho e o pranto
E parece que come o próprio ar.

Transforma as cores todas em cinzento,
Fecha à chave as portas e janelas
Num quase imperceptível movimento.

Põe selos, puxa fitas, ata os nós:
Ficam fora todas as coisas belas
E dentro, embrutecidos, estamos nós.




* como dizia Luiz de Camões, in Os Lusíadas, Canto X, 145


Nota: Ninguém se aflija, por favor: este é um poema político, não pessoal.

10 comentários:

Joao Quaresma disse...

Este ano, nem na "silly season" nos deram tréguas.

Catarina disse...

Foi o que inicialmente pensei... que fosse um poema pessoal quando li o título.

Mário disse...

Mas 'não há mal que sempre dure', pois não?

(GRRRRRRRRRRRR)



Gi disse...

JQ, silly estão eles, cada vez mais.

Gi disse...

Catarina, de certo modo é pessoal porque é assim que eu sinto a depressão, mas felizmente não me sinto assim neste momento.

Gi disse...

Mário, oxalá!

Paulo disse...

"Silly but harmful"

Gi disse...

Paulo, indeed.

Landa disse...

Mas que belo soneto!
Muitíssimo bem escrito.
Parabéns!
Bjs

Gi disse...

Obrigada, querida. Bjs.