domingo, 29 de junho de 2014

Lyon Parte IV: ópera

É também na Presqu'Île que se localizam os dois grandes teatros de Lyon: o Théatre des Célestins


e a Opéra Nouvel, assim chamada porque foi o arquitecto Jean Nouvel que alterou e aumentou na década de 90 do século passado o antigo edifício neoclássico. Na minha opinião, o resultado não é brilhante: se o exterior ainda escapa, embora com cara de estação de caminho de ferro,


a sala, toda em negro, é mesmo feia.


Ouvi comentar que do ponto de vista acústico está mal proporcionada: isso não sei, porque fiquei num dos lados, praticamente sobre o fosso da orquestra, e aí já se sabe: sujeitamo-nos a alguma distorção mas o som chega sempre.

Lembrando-me que o Parsifal do Met fora criado em Lyon, pareceu-me que era capaz de valer a pena assistir a uma produção própria de Simon Boccanegra, uma das obras tardias de Verdi que praticamente não conhecia, à excepção de uma ou duas árias. Não me arrependi.

Já agora, um comentário: ir à ópera em teatros diferentes é muito engraçado: há públicos mais e menos formais, os bares têm atmosferas diferentes; em quase todos se tornou normal ir para a rua no intervalo, não para respirar ar fresco mas para fumar. A entrada na Opéra Nouvel faz-se por um pórtico (eles chamam-lhe peristilo) no qual existe um bar com mesas e lugares sentados e onde se fazem espectáculos de outros géneros musicais; naquela tarde havia um pequeno agrupamento de jazz a tocar; o pessoal da ópera passava e, na maioria dos casos, não ligava ou encolhia-se discretamente. Para quem gosta de jazz, no entanto, aqui fica a ligação para o site do Etienne Vincent Quartet.


E a récita? Boa, pois. A orquestra tocou muito bem, dirigida por um jovem maestro, Daniele Rustioni, empolgante e empolgado, muito seguro da sua interpretação e que era um gosto observar. A encenação de David Bösch, moderna e negra, usando cenários muito despidos e complementada por pequenos videos que de certo modo ajudavam a entender as mudanças temporais e políticas que nesta ópera são um bocadinho abruptas, em parte por Verdi ter sentido necessidade de cortar e colar o trabalho inicial, em parte também por culpa do encenador e do figurinista que nos levaram não se sabe bem para quando - anos 40? 50? agora mesmo?

O certo é que Verdi, que escreveu uma primeira versão nos anos 50 do século XIX, a década que viu estrear La traviata, Rigoletto ou Il trovatore, a reviu e expandiu e re-estreou vinte anos mais tarde, o que a torna uma das suas últimas obras, e isso nota-se na música, que sendo lindíssima é menos imediata e mais... moderna, talvez.

Dos cantores, o único nome que me era familiar era o da soprano Ermonela Jaho (Amelia): a sua voz é muito mais potente do que se esperaria do seu corpo franzino, cristalina e com agudos fáceis. O tenor Pavel Černoch (Gabriele Adorno) tem uma voz muito bonita, de timbre escuro e, sendo bastante jovem, parece-me ter margem para progressão. O barítono Andrzej Dobber (Simon) também tem uma voz bonita, doce e potente, mas é fisicamente pesado e não conseguiu, no prólogo, convencer como o jovem corsário Boccanegra. O figurinista achou que o ajudava pondo-lhe uma peruca horrorosa.
Também gostei do baixo Riccardo Zanellato que incarnou Jacopo Fiesco, aka Grimaldi, o adversário de Boccanegra, talvez o papel mais confuso de toda a ópera. O barítono Ashley Holland no manipulador e eventualmente traidor Paolo Albiani, merece atenção, embora por vezes não se conseguisse ouvir sobre a orquestra.

(Lyon, Junho 2014)


Antes do espectáculo fomos informados da luta que os trabalhadores temporários (intermittents) estão a travar contra uma nova legislação que diminui a protecção no desemprego. Se fosse em Itália, provavelmente não teria havido récita...

5 comentários:

Mário Gonçalves disse...

Aaaaah Gi, deixa o melhor para o fim !
Folgo em saber que a Opera de Lyon apresenta récitas com esse nível. Mais um motivo para lá ir.

Estou abismado com a sua programação destas férias - Bastille, Nouvel... parabéns, assim dá gosto.

A sala é feiíssima, o que me deixa baralhado, pois a que o mesmo Nouvel fez em Lucerna é lindíssima !

Gosto muito do Simon Boccanegra mas nunca o vi em palco. Obrigado pela resenha da soirée.

Paulo disse...

Obrigado pelo relato.
Também conheço mal a ópera; só a vi uma vez no São Carlos, penso que na primeira era Pinamonti.

Gi disse...

Mário, eu não tinha a certeza de conseguir bilhetes para a Bastille e apostei em Lyon. Não conhecia o centro de França e achei muito interessante.
Há voos directos da Transavia do Porto para Lyon, sabia?

Gi disse...

Paulo, mas anda muito na moda agora, não anda? graças às experiências baritonais de Plácido Domingo.

Paulo disse...

Possivelmente é essa a razão :-)