segunda-feira, 6 de junho de 2011

O cérebro de Darcy

Notícia de The Globe and Mail:

That’s Dr. Darcy to you: The medical insights of Colin Firth
STAFF
From Monday's Globe and Mail
Published Sunday, Jun. 05, 2011 10:11PM EDT
Last updated Sunday, Jun. 05, 2011 10:25PM EDT

Colin Firth can now add brain researcher to his long list of credits.
The Oscar-winning actor was listed as co-author of a study in which researchers predicted they can estimate an individual’s political leanings with 72-per-cent accuracy by examining a subject’s brain structure.
(...)


Lembrei-me dos frenologistas do século XIX, com as suas teorias de que a personalidade de um indivíduo estava determinada pelo volume de certas áreas do seu cérebro.
Sempre houve pensadores a achar que a matéria determina o espírito, em oposição aos que opinam que o espírito tem existência independente. Hoje não procuramos bossas no crânio porque temos acesso às técnicas de imagiologia.

Engraçado que o estudo da actividade elétrica do cérebro não nos tenha dado informações extraordinárias.

Noutra perspectiva, é também engraçado pensar que traços da personalidade humana procuramos relacionar com a anatomia cerebral e assim, talvez, desresponsabilizar-nos por eles: no século XIX a mente criminosa, no século XX a sexualidade, no século XXI as tendências políticas?

Para quem estiver interessado, o artigo referido no jornal está aqui.

domingo, 5 de junho de 2011

Dinossauros voadores

Notícia do Expresso:

Ryanair "agradece" com rosas a greve da TAP
A companhia de aviação low cost Ryanair "agradece" com rosas a greve dos tripulantes da TAP e chama-lhes "dinossauros".
13:44 Sexta feira, 3 de junho de 2011
(...)
"A Ryanair começa a gostar do Sindicato Nacional de Pessoal de Voo da Aviação Civil, que continua a causar incertezas aos passageiros da TAP na época alta do ano, porque agora com esta greve insensata de 10 dias ainda mais passageiros vão preferir as tarifas baixas da Ryanair, sem greves, para viajar este verão", adianta o responsável da empresa, citado no comunicado.
(...)

Imagem de Daderot para Wikipedia


Tivesse a Ryanair* outra política em relação ao transporte de animais domésticos e teria com certeza ainda mais passageiros.



*E a Easyjet, e outras companhias aéreas low-cost (e não só) em que, levando o Jr, não posso voar...

sexta-feira, 3 de junho de 2011

A Valquíria em Lisboa (ou isso)

Antes de prosseguir com as notas de viagem, volto num instante atrás para comentar a transmissão Met-Gulbenkian da Walküre de Wagner, na véspera da minha partida: foi excelente.

Gostei de tudo, ou quase tudo: da música de Wagner que não me lembrava fosse tão bonita, da voz de mel de Jonas Kaufmann que me levou à beira das lágrimas na cena em que recusa a imortalidade por amor à Sieglinde totalmente credível de Eva-Maria Westbroek, de Bryn Terfel como um deus de pés de barro e de Stephanie Blythe fantástica, em voz e atitude a nagging wife completa, do coro das valquírias perfeitamente afinado, da orquestra e do seu maestro que nos deram um Wagner lírico e arrebatador, e até da máquina de Robert Lepage, com as suas mudanças de cenário simbólicas ou naturalistas, e cujo barulho felizmente a transmissão disfarçou.

A propósito, vale muito a pena ler no blogue Fanáticos da Ópera a comparações entre as récitas ao vivo aqui e aqui e a transmissão video, e no Valkirio os clips que o Paulo descobriu.

Ainda não falei de Deborah Voigt? Pois acho que se saiu lindamente, apesar de um bocadinho de botox a mais aqui e ali.

Ariodante em Paris

Pode-se ir a Paris sem nenhum propósito especial, mas desta vez havia dois, sendo o primeiro ouvir e ver Joyce DiDonato no Ariodante de Handel, em versão de concerto no Théatre des Champs Élysées.

Por muito que me entusiasme com as transmissões Met-Gulbenkian (haja muitas!), é no palco, ao vivo, que se tiram teimas. Não que aqui as houvesse: tendo tido já o privilégio de assistir a uma das primeiras récitas que deram origem ao CD Furore, já sabia que em voz e presença ela é exactamente o que se pede aos deuses.

Confirmou-se: Joyce DiDonato é como um grande vinho: tem corpo, aroma, complexidade, maturidade, equilíbrio. Dos outros cantores, destaco a soprano Karina Gauvin na Ginevra, uma voz doce, cristalina e ágil, e a contralto Marie-Nicole Lemieux que fez um grande Polinesso apesar das palhaçadas em excesso.
O baixo-barítono Matthew Brook no Rei tem uma voz bonita mas que se tornava inaudível nas notas mais graves. À soprano espanhola Sabina Puértolas em Dalinda só faltou um bocadinho de emoção, mas é uma cantora a seguir. O tenor Nicholas Phan em Lurcanio também esteve bem e muito seguro. Quanto a Paolo Borgonovo, o pequeno papel de Odoardo não chega para brilhar, mas não destoou.

Outros já criticaram Il Complesso Barocco e a direcção de Alan Curtis pela sua falta de delicadeza; talvez o maestro temesse que a duração da peça afastasse o público, e optasse por despachar um bocadinho a coisa... O certo é que foi um espectáculo entusiasmante, de tal forma que no final, entre aplausos que não abrandavam, maestro e elenco voltaram à sala para um encore obviamente inesperado.

(Paris, Maio 2011)


Depois, alguns admiradores impenitentes esperaram a saída dos artistas, e a encantadora Joyce autografou-me o CD novinho em folha, comprado na véspera na Fnac dos Champs Élysées.

quinta-feira, 2 de junho de 2011

Prescrever

Notícia do Público:

Proposta é discutida hoje em congresso
Enfermeiros querem poder receitar alguns medicamentos e exames
02.06.2011 - 08:30 Por Alexandra Campos
A Ordem dos Enfermeiros (OE) vai propor ao poder político que os profissionais de enfermagem possam receitar medicamentos, exames complementares de diagnóstico e ajudas técnicas em determinadas circunstâncias, à semelhança do que já acontece em vários países, como Espanha, Estados Unidos e Inglaterra.
(...)
"Se o enfermeiro verifica que a terapêutica de um doente crónico está de acordo com a prescrição médica e não há necessidade de reavaliação do diagnóstico, faz sentido que [o paciente] tenha que ir de novo a uma consulta?", exemplifica a bastonária da OE, Maria Augusta Sousa.
(...)
"Actualmente os enfermeiros já prescrevem medicamentos em situações de emergência; se não o fizerem, até incorrem numa ilegalidade."
(...)
Carlos Sequeira recordou ainda que não são os médicos que normalmente acompanham a evolução das feridas. "Quando estas mudam de estado, se se colocar o produto que o médico tinha prescrito até se pode estar a atentar contra a saúde do doente."


Estou maravilhada com a qualidade da argumentação. Estes enfermeiros parecem partir do princípio que sabem, melhor do que os médicos, quando é que não há necessidade de reavaliação - não do diagnóstico, mas da situação clínica.

Felizmente a maioria dos enfermeiros não prescreve medicamentos em situações de emergência e, em vez disso, contacta um médico.

Quanto ao tratamento das feridas, aqueles que não colocam o produto que o médico tinha prescrito estão a falsear resultados, e o que deveriam fazer, mais uma vez, no caso de mudança de estado, seria contactar o médico, ou mandar-lhe o doente à consulta.

O trabalho dos enfermeiros anda a a ser desvalorizado pelos próprios profissionais com estas atitudes.

Frase de campanha

Que desespero é regressar de férias (impressões de viagem já a seguir) e reencontrar a histeria da campanha eleitoral com os mesmos actores, os mesmos comentadores e as mesmas baboseiras.

A maioria destas é fácil de desmontar, mas há uma que, por burrice ou demagogia, ninguém esclarece: que a intervenção da troika é demonstravelmente desastrosa porque os sacrifícios exigidos aos gregos pioraram a situação dos gregos, cada vez mais longe de honrar os seus compromissos.

Hello? Será tão difícil entender que a situação piora inevitavelmente, pelo menos a curto prazo, precisamente porque antes os gregos viviam acima das suas possibilidades reais e foram chamados à realidade, ou seja a viver dentro dessas possibilidades?

Diz o A. que é como um tratamento anti-droga. A ressaca é atroz, mas sem ela não se perde o vício.