quinta-feira, 8 de novembro de 2012

O céu na Gulbenkian

Se bem me lembro, o autor do Apocalipse descreve assim a bem-aventurança celeste: há um trono no qual o Senhor está sentado; em volta há quatro figuras (um touro, um leão, uma águia e um homem) que se supõe corresponderem aos quatro evangelistas, e em redor, a perder de vista, os eleitos que cantam em coro, Santo, santo, santo é o Senhor nosso deus*. Uma seca por toda a eternidade.

Aquilo foi escrito há muito tempo, o Senhor é capaz de se ter tornado mais exigente e é possível que o cântico tenha sido substituído por qualquer coisa como o Messias de Händel, peça que nunca me tinha interessado particularmente mas me levou na sexta-feira passada (ai! como o tempo corre) à Fundação Gulbenkian.

É possível que a Fundação tenha avisado da substituição da soprano Miah Persson por Rosemary Joshua e eu não tenha recebido o aviso; é certo que teria ido na mesma, embora preparada para não a ouvir. No início não gostei nada da voz de Joshua, que achei um bocado esganiçada mas, à medida que foi aquecendo, foi soando melhor. Melhorou igualmente o tenor Robin Tritschler, com uma voz bonita embora pequena.
Já o barítono Johannes Weisser tem uma voz potente, para além do timbre agradável, enquanto a da mezzo Mary Phillips me pareceu um tanto baça e desigual. O coro esteve excelente, a orquestra tocou muito bem mas talvez tenha faltado ao maestro J. David Jackson um toque de brilhantismo, que a música de Händel pediria, na ausência de árias espectaculares e de acção no palco, para não se tornar monótona.

Na verdade, concordo em vários pontos com a apreciação do Fanático_Um, que assistiu ao espectáculo na noite anterior.

Uma nota positiva para os instrumentistas solistas: o trompetista, que suponho ter sido Stephen Mason, e Michael Leopold que andou atarefadíssimo com o arquialaúde, a tiorba e a viola barroca.

A sala, que estava cheia no princípio, esvaziou-se de um terço ao intervalo e, na segunda parte, as tosses aumentaram significativamente. Em todo o caso, espero que no céu o Senhor já tenha mudado outra vez o cântico oficial.


* Afinal não é bem assim, mas é muito parecido.

6 comentários:

Fanático_Um disse...

Obrigado Gi pela referência ao meu comentário no blogue. Temos opiniões muito semelhantes mas, ao contrário da Gi, eu beneficiei de algo muito invulgar na Gulbenkian, um concerto praticamente sem tosses.
Saudações musicais de Luanda onde, infelizmente, não tenho uma ópera para ver e comentar...

Ludmila Ciuffi disse...

Certo é, Gi, que o ouvido Dele apurou-se e você tem a sorte de ouvir
música melhor. Por aqui os pastores ainda não sabem disso e todos os templos-garagem entoam em uníssono algo que nem com reza brava pode-se dizer que seja música...

Gi disse...

Fanático_Um, os meus votos de boa estadia. Fico curiosa em saber as suas impressões sobre Angola - mesmo sem música.

Gi disse...

Ludmila, isto foi numa sala de concertos; nas igrejas portuguesas também de vez em quando há concertos, mas nunca aqui ouvi música decente em cerimónias religiosas.

Mário disse...

Só não compreendo porque nunca se interessou pelo Messias, Gi. Pode ser um "Greatest Hit" mas tem belíssima música, e foi durante anos um favorito meu.

Pena a Miah Persson falhar, seria certamente superior à Joshua.

O Côro Gulbenkiam é verdadeiramente magnífico, Gi, mas que tal esteve a orquestra? Já a ouvi a empastelar o Messias, mas também já a ouvi com o MacCresh a tocar como se fosse barroca (em Haydn).

Nota: Handel não gostaria de ser Händel ou Haendel. Assumiu-se britânico. Deixemo-nos de tremas.

Gi disse...

Mário, nunca me interessei pelo tema.. Música religiosa, confesso, oiço Bach (com moderação) e Mozart (com prazer) e mais duas ou três coisas.

Penso que este Messias poderia ter sido mais empolgante se a orquestra e o maestro tivessem tocado com mais chama.

Já li essa opinião sobre o trema do Händel, e pareceu-me bem fundamentada. Se ele deixou de o usar, eu deixarei igualmente. Obrigada pela correcção :-)