sexta-feira, 1 de outubro de 2010

A crise, em resumo

Lido no blog Funes, el memorioso:

Não temos dinheiro e não temos quem nos empreste dinheiro. Ponto. Temos que passar a viver com o que temos e temos pouco. O pouco que temos não chega para o que queremos. Não chega sequer para o que estávamos habituados a ter.

É isto mesmo, em resumo.

10 comentários:

Paulo disse...

Razão tem o Funes.
Pode ser que eles passem a explicar estas coisas de modo simples, para que todos percebamos.

Ludmila Ciuffi disse...

Em bom português, curto e grosso. Está bem dito.

Rachelet disse...

E o nosso problema resume-se a estarmos mal habituados. Habituados a querer e a comprar, independentemente de serem coisas que não são de primeira necessidade ou de não termos dinheiro.

Helena disse...

Cá vem a complicadinha complicar: quem é esse "nós"? Pode ser que se estejam a referir a mim, mas não estão com certeza a falar da minha vizinha Matilde que até há dois anos não tinha água em casa, e que passou metade do ano passado com um menisco partido à espera da carta do hospital que a chamasse para a consulta. Agora está há quatro meses à espera da mesma carta: é que foi operada, mas fizeram-lhe não sei quê num tendão que lhe fez perder a mobilidade e lhe faz inchar a perna. Anda-se a queixar desde Fevereiro, no entretanto o médico já percebeu que a operação correu mal, e agora está outra vez à espera de ser chamada. Ah, e estava-me a esquecer da filha dela, que foi trabalhar para as confecções aos 12 anos, e vinte e tal anos mais tarde ainda só recebe salário mínimo.
Pois, se calhar não é delas que estão a falar, mas daqueles que fazem esgotar o caviar caro (o mesmo caro) na época do Natal.
Portanto, volto à pergunta: quantas realidades diferentes existem dentro daquele "Não temos dinheiro e não temos quem nos empreste dinheiro. Ponto. Temos que passar a viver com o que temos e temos pouco. O pouco que temos não chega para o que queremos. Não chega sequer para o que estávamos habituados a ter."
O que me parece grave é que o pessoal do caviar não vai ter de apertar o cinto da mesma maneira que os que ganham salário mínimo. O aumento do IVA é igual para todos, mas dói muito mais em quem tem de chegar ao fim do mês com menos de 500 euros. E tem de dar um "presente" à secretária do hospital, a ver se ela finalmente apressa a tal carta que chama para a consulta...

Gi disse...

Paulo, Ludmila, estão a ver? A Rachelet e a Helena ainda têm dúvidas.

Rachelet, o problema não é só esse: é que nos andámos a endividar para comprar não só as coisas que não são de primeira necessidade como as que são, porque não havia dinheiro nem para umas nem para outras, e o crédito que tem havido vai acabar. Ou seja, não só não temos dinheiro para comprar frigoríficos como para comprar as couves para pôr dentro deles. E isto não é metáfora, porque importamos tanto os frigoríficos como as couves.

Helena, neste momento em Portugal estamos todos no mesmo barco, e se for como o Titanic, viajar em primeira classe ou em terceira acabará por não fazer grande diferença.

Paulo disse...

Quando o Titanic for ao fundo eu quero estar a ouvir Mozart por Maria João Pires, posso? É o meu último desejo.

Paulo disse...

A propósito.

Helena disse...

Isto é demasiado complicado para uma caixa de comentários, mas vamos tentar destrinçar as coisas:
- problema nº1: dívida pública - o Estado gasta mais do que pode
- problema nº2: dívida externa - o país importa mais do que exporta
- problema nº3: extrema desigualdade social

Portugal não tem como pagar a dívida pública e a dívida externa. Porquê, então, continuar a importar carros de luxo para os serviços estatais?
Recuso-me a aceitar que a solução tenha de passar por aumentar o IVA, ou seja, punindo desproporcionalmente os mais pobres. Preferia contenção drástica nas despesas de luxo e um aumento dos impostos sobre produtos importados - e quanto mais luxo, mais alto o imposto (pergunto-me se as importações culturais, como concertos de músicos estrangeiros, deviam fazer parte desse pacote).
A história económica portuguesa mostra isso: as situações de crise permitiram surtos industriais nacionais. Só quando não há dinheiro para comprar no estrangeiro se pode produzir em Portugal e comprar português.
Em suma: isto não é um Titanic, isto pode ser uma oportunidade - desde que sejam tomadas as medidas acertadas.
Mesmo que fosse um Titanic, a situação não seria tão linear: os barcos de salvamento estão sempre reservados para os passageiros da primeira classe.

O exemplo do frigorífico e da couve é bom, mas falha o exame da realidade: quem compra couves vai passar a comprar menos couves; quem compra Ferraris e caviar vai continuar a poder comprá-los. Há aqui matéria para graves conflitos sociais.

Gi disse...

Paulo, mas talvez a Maria João Pires embarque noutro navio...

Helena, isso assim explicado ficou mais claro :-)
Quanto a isto não é um Titanic, isto pode ser uma oportunidade - desde que sejam tomadas as medidas acertadas, pois, mas:
1º era preciso tomá-las;
2º era preciso saber quais são
Não necessariamente por esta ordem.
E quanto a produzir português, é bonito, mas também exige investimento, e as empresas não estão a ser encorajadas a investir em Portugal.
E encorajá-las como, se é tão mais interessante investir na China?

Helena disse...

Gi,
sim, obviamente: é preciso tomar as medidas adequadas.
À distância, vejo um país em pânico. Disposto a aceitar tiques de capitalismo selvagem por medo do desemprego e da crise, enquanto que, paralelamente, os consumos de luxo e a exibição da riqueza continuam. Confesso que não entendo esta esquizofrenia.
Leio os "blogues de gajas" e estão cheios de consumos inacreditáveis. Aquelas miúdas devem pensar que são a encarnação de Sex and the City. De onde vem esse dinheiro?
Em todo o caso: crise, o que se chama crise, ou "Titanic", é outra coisa. Veja-se a Letónia: quando a crise chegou, cortaram os salários de alguns funcionários públicos para metade.
Portugal tem inúmeras potencialidades. Devo lembrar que há empresas portuguesas a contribuir valentemente para os resultados positivos das alemãs? Devo lembrar o fenómeno Multibanco, a funcionar perfeitamente muito antes de os alemães começarem a perceber para que serve aquele cartãozinho? A Via Verde? Devo falar da proximidade da Europa, que permite poupar no transporte (e este será um tema importante no séc. XXI)? Devo falar na possibilidade da agricultura biológica, que já começou (e mirtilos portugueses vendem-se muito melhor que mirtilos chilenos)? Devo lembrar as energias alternativas, e o enorme potencial que o sol português oferece?
(de cada vez que vejo os telhados deste país sem sol cobertos de painéis solares, penso com tristeza em Portugal, país com sol e sem painéis)

Estou com o Ivan Lins:
Desesperar, jamais
Aprendemos muito nesses anos
Afinal de contas, no tem cabimento
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