sexta-feira, 15 de outubro de 2010

A idade da reforma

Notícia do Diário de Notícias:

Longevidade
Ana Jorge fala em aumentar a idade da reforma
por Lusa Hoje
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"Se nós aumentamos a longevidade por que não aumentar a idade da reforma, dado que somos mais activos. Hoje os 70 anos é o limite de trabalho activo na área pública e o direito à reforma é mais cedo, está nos 62,5 anos. Mas eu diria que aos 60 anos temos ainda muita capacidade e vontade de trabalhar. Isto merece uma reflexão", afirmou a governante durante a sua intervenção num seminário sobre envelhecimento, que decorre em Lisboa.
(...)


Houve a descoberta da pólvora. Houve o ovo de Colombo. Há a descoberta da longevidade pela Drª Ana Jorge.

Oiçam o que eu digo: a idade da reforma vai desaparecer, porque vai deixar de haver reformas. Os que puderem trabalharão até morrer. Os desempregados morrerão mais cedo, de fome e de doença. Meia dúzia de gajos viverão de rendimentos.

Não era assim, antigamente? Não é assim ainda hoje para metade da espécie humana? Pois no fim da crise vai ser assim outra vez. O Estado Social, meus amigos, é um parêntesis.

10 comentários:

Paulo disse...

Por muito deprimente que isto seja, penso que não estás longe da verdade. A ministra até está ser boazinha e vai-nos preparando para o que aí vem.

Mário disse...

Gi, não seja mais pessimista que o Medina Carreira. Que o Estado Providência rico e mãos largas acabou e foi um parêntesis, sim. Tinha de ser. Como qualquer esquema de "pirâmide", baseava-se em que os novos pagavam aos antigos, até que deixava de haver novos suficientes e tudo se desmorona.

Mas estamos na Europa, que tem ao menos pergaminhos humanistas, assistencialistas, e decência, história, riqueza. No dia em que deixasse de haver reformas e subsidio de desmprego, a Europa estava morta. E por muito que decaia, acho que não chegará a esse ponto, com a pujança económica, industrial, científica e financeira que ainda detém.

Limitações, restrições, sim. Mas confie que se há local do mundo onde está a salvo, é na Europa. Talvez mais na Noruega ou na Suíça, mas na Europa.

Gi disse...

Mário, espero que tenha razão, mas como sabe a pujança económica, industrial, científica e financeira da Europa tem hoje uma concorrência fortíssima no Oriente, e não sei se a Europa das deslocalizações conseguirá aguentar-se.
E Portugal nem sequer é bem Europa, pois não?

Mário disse...

A concorrência do oriente é só mão de obra barata, não tem estrutura nem base sustentável. Isso não arruina economias fortes. Basta ver como a rota das especiarias portuguesa, "barata", "arruinou" Veneza e a liga hanseática: poucos anos depois, voltávamos à miséria e eles enriqueciam como nunca.

Fernando Vasconcelos disse...

Gi, não concordo de todo com a sua análise. Acho que está a confundir (o que aliás nem admira tendo em conta a desinformação reinante que infelizmente está aos serviço de interesses económicos óbvios) uma crise financeira derivada em grande parte da falta de regulação dos mercados financeiros e da cobiça de todos (ou quase) por ter tudo, por ter sempre mais depressa muito mais depressa do que é possível. Dizia está a confundir isso com um modelo de estado que é perfeitamente sustentável embora obviamente tenham de existir ajustes às realidades sociológicas. Obviamente com uma população a envelhecer é insustentável manter a idade da reforma. Mas é sustentável manter o conceito de estado social e eu diria que é indispensável mantê-lo conceito. Sem isso voltamos à barbárie. A crise Gi infelizmente tem as costas muito largas e serve para muitos fins alguns deles bem sórdidos. Em tempo de guerra esses fins eram punidos com a morte e mais não digo. Obviamente Gi não estou a falar da sua opinião ... Estou a falar daqueles que a sustentam para daí retirarem proveitos económicos - porque essa é que é infelizmente a realidade. Não sou extremista de esquerda e abomino a lógica colectivista de sociedade o que me faz ainda mais pena ter de reconhecer que neste caso em particular há alguns desses (extremistas e diletantes) bem mais lúcidos que uma boa parte dos nossos economistas. Não me leve a mal a opinião. Eu estudei o sistema de segurança social e garanto-lhe que com o esquema de correcções adoptado ele é sustentável. Claro que pode significar receber apenas 60% do rendimento, pode significar que a idade da reforma aumente - tem de estar relacionada com a esperança de vida - mas é um modelo sustentável e eu diria mais uma vez desejável.
Quanto à concorrência do Oriente lembre-se do receio que tínhamos do Japão ... A própria prosperidade mesmo em sociedades muito mais colectivistas por natureza leva os seres humanos a começarem a ter necessidades que transformam os seus padrões comportamentais. Por outras palavras a mão de obra barata, a competitividade baseada na desregulação na falta de respeito por condições de trabalho mínimas tem limites que nem sequer carecem de regras para se resolverem. Basta esperar pela evolução ... aliás por exemplo na Coreia do Sul já se está a assistir a essa fase do processo ... para o resto é uma questão de tempo.

Paulo disse...

O que me parece, Fernando (e Mário), é que não está em causa ser contra ou a favor do Estado Social, nem acreditar, ou não, na sua sustentabilidade. A barbárie de que fala parece-me muito próxima, as pessoas vão trabalhar até muito mais tarde, os jovens entrarão sabe deus quando no mercado do trabalho, enfim, não é necessário fazer o desenho. Estarei a ser pessimista? Duvido. Não vejo motivos para acreditar que o futuro é risonho.

Mário disse...

Tem razão, Paulo, o tempo do estado providência rico e mãos largas acabou, como eu disse. Não há garantias de reforma antecipada nem contrato definitivo de emprego. Isso sim, foi passageiro, e não sei que geração é que pagou/pagará isso, mas pagou/pagará caro.

Estaremos dispostos a uma Europa semi-ditatorial, tipo China (semi é favor), impondo mão de obra medieval, para voltarmos a ter garantias universais de segurança?

A riqueza e pujança e
da Europa fizeram-se à custa e após enorme sofrimento e injustiça. Estão para ficar, espero, mas só podem sustentar uma mais modesta assistencialidade - é enorme a massa populacional a reclamar apoios! Pessoalmente, antes sobreviver modesto e inseguro entre a abundãncia e a liberdadae, do que garantido e desafogado em regime autoritário.

Gi disse...

Fernando, há muitas crises mais ou menos simultâneas nesta altura: a crise económica ocidental, a tal crise financeira que foi em parte despoletada pela crise económica (o subprime está relacionado com a dificuldade de as pessoas e as empresas pagarem o que devem), a crise de valores. E em Portugal há não uma crise mas uma situação crónica agudizada pela crise internacional e pelos irresponsáveis e incompetentes que nos têm desgovernado.

Como diz o Paulo, não se trata de gostar ou não do Estado Social mas de ele se aguentar ou não como o conhecemos. E parece-me que tanto o Fernando como o Mário acabam por concordar que pelo menos alterações ele terá de sofrer. Resta saber não ficará irreconhecível.

Em relação às mudanças por que a China há-de passar, já falei disso aqui e aqui. Acredito mesmo que são elas que nos podem valer, só não sei se virão a tempo.

Eu também não quero viver num Estado totalitário, que de resto só muito na aparência garante estabilidade. Infelizmente por estes dias não sinto nem estabilidade nem liberdade: não digo que me vão prender amanhã, mas tenho uma impressão de claustrofobia.

Não é bom.

Fernando Vasconcelos disse...

Gi: o subprime não tem a ver com o crédito "pessoal" massificado, não na sua base embora claro que isso também ajude. A crise financeira deveu-se essencialmente à crença de que determinados bens nomeadamente o imobiliário nunca se desvalorizariam, ou pior ainda que se valorizariam sempre a ritmos alucinantes. As empresas que deveriam fiscalizar esses pressupostos fecharam os olhos porque isso era bom para os seus objectivos imediatos (leia-se dos seus executivos). A crise económica deve-se à quebra da procura pelo facto aí sim de faltar sustentação à espiral de criação de riqueza que o anterior modelo parecia garantir até ao infinito. O estado social pode funcionar basta nós querermos que assim seja. Em tempos de crise a tendência infelizmente - ensina a história - é procurar pensar mais em nós e menos nos outros. Eu penso exactamente o inverso. Temos de nos ver livres de quem usurpou, de quem não soube resolver os problemas mas não façamos como dizem os ingleses com alguma piada "throw the baby with the water". Um estado social pode funcionar porque só depende da nossa vontade e de mais nenhum outro factor "mágico". Quanto ao estado totalitário ... nem pensem nisso. Mais uma vez vejam o que a história nos ensina. Estados totalitários não são a solução para absolutamente nada. Tudo o que um estado desse tipo aparentemente resolve também uma democracia o pode fazer. Sabe Gi os valores - a falta deles - não está só nos nossos políticos - nós somos como eles ou não os teríamos eleito. Numa democracia temos exactamente os políticos que merecemos nem mais nem menos. Se todos nós déssemos um pouco mais de nós, atribuíssemos um pouco mais de importância na nossa contribuição para o sistema do ponto de vista da participação talvez não tivéssemos tão maus lideres. Quanto à nossa crise Gi nós "apenas" repetimos o erro do Ouro do Brasil mais uma vez ... deveríamos aprender com a história ...

Gi disse...

Fernando, a desvalorização do imobiliário não aconteceu porque, não podendo as pessoas pagar as casas que compravam, estas vinham inundar um mercado já pletórico?

Quanto ao Estado Social, não basta querermos, é preciso podermos. Como o Mário apontou, o sistema de reformas tem funcionado num esquema de pirâmide (Ponzi, ou D. Branca) em que um número de pessoas desconta uma parte do seu rendimento para que um número menor de pessoas tenha um rendimento semelhante. Quando a pirâmide se inverte, isto não pode funcionar.

Concordo consigo em que andamos a repetir a História quando deveríamos aprender com ela.

Sobre merecermos os políticos que temos, visto que a maioria os elegeu e reelegeu, pergunto-me se esta democracia é mesmo o melhor sistema. E mais uma vez não estou a propôr totalitarismos.