quinta-feira, 24 de novembro de 2011

Reflexões sobre as greves

No meu local de trabalho a greve "geral" sentiu-se muito pouco, e apenas porque alguns que a fizeram impediram pela sua ausência que outros executassem integralmente as suas tarefas. Quanto às greves de transportes públicos no Algarve, são pouco eficazes porque já são habitualmente tão maus e tão poucos que ninguém confia neles.

As pessoas, hoje em dia, acham aliás que as greves não atingem nenhum objectivo prático. Na realidade, enquanto nos séculos XIX e XX o objectivo das greves era pôr em perigo a produção e conseguir assim obrigar o patrão a negociar, agora só servem para justificar a existência dos sindicatos. É que nem de protesto servem: alguém duvida que o patrão, ou no caso de hoje o governo, está plenamente consciente da insatisfação dos empregados? Da mesma forma como não são precisos vinte e cinco deputados do PSD madeirense para completar o grupo parlamentar, também não são precisos cartazes e passeatas na Avenida para demonstrar descontentamento, num regime que felizmente permite falar e escrever todos os dias o que se pensa.

Há formas de luta que só servem se forem utilizadas nas circunstâncias e para os fins certos. Li ontem que uma mulher resolveu fazer greve de fome até que lhe paguem o salário em atraso. Ora, dizia Gandhi, a greve de fome só resulta se quem a faz for objecto de amor e a fizer por amor. Ou seja, resulta se for a filha do patrão a fazer greve de fome até que o pai pague aos empregados.

Uma greve geral alemã até que os bancos perdoassem a dívida grega talvez resultasse, sei lá.

3 comentários:

Mário disse...

O que eu acho, Gi, é que o movimento grevista está todo de pernas para o ar. O sector privado - fábricas, comércio, bancos - é que devia ser o motor, pois aí é que a greve prejudica os patrões, que perdem lucro, e por isso se vêem obrigados a negociar. O sector de serviços, e em particular a funçao pública, poderiam aderir por solidariedade como forma de protesto político e não salarial.

O que cá se verifica é o contrário: quem faz greve são os serviços do Estado - escolas públicas, hospitais públicos, finanças, autarquias, transportes públicos - sem que isso prejudique em nada o patrão (governo/estado), que até poupa milhões em salários. O que sai prejudicado são os serviços à população - ensino,saúde,transporte... - ou seja, o prório "povo" que dizem defender. E os privados não fazem greve nenhuma, como mais uma vez verifiquei - hospitais privados a funcionar a 100%, escola privadas idem, transportes idem, e no sector primário nem se fala, não há fábricas paralisadas.

Em resumo: a greve é só folclore para sindicato mostrar serviço, não tem fins salariais mas políticos. É muito triste.

Quando se fala em "Estado a mais" e em corrupção, os sindicatos são parte do problema e não da solução.

Fernando Vasconcelos disse...

Não é bem assim ... Por alguma razão os trabalhadores dos transportes gozam de condições que outros não têm. Nota ainda que curiosamente os transportes privados não fizeram greve ... porque numa empresa privada um trabalhador sindicalizado que faça greve - independentemente do direito que lhe assiste e que será respeitado - será muito provavelmente ostracizado e despedido na primeira ocasião com uma excelente "justificação". Na verdade eu concordo que a greve é uma forma totalmente desadequada de exprimir seja o que for. Parte de um conceito de confronto que não faz sentido. Mais ainda não faz sentido para lutar contra politicas que não são os seus patrões que decidem e que não têm nada a ver com o seu posto de trabalho especificamente. Marquem uma gigantesca manifestação ao Sábado sim acho perfeito. Greve? Não me parece correcto como forma de expressão. No Japão por exemplo as greves fazem-se com uma simples braçadeira ... não é por não haver nesse caso prejuízo económico que me parece ser mais correcto assim. É porque é uma atitude visível mas construtiva: Continuo a trabalhar com empenho mas mostro que não concordo. Não acho bem e há muito que sinceramente não concordo com este tipo de "luta".

Gi disse...

Mário, parece-me que estamos de acordo.

Fernando, também concordamos: devemos protestar quando não estamos contentes, mas a greve não é o melhor meio para o fazer.