terça-feira, 8 de novembro de 2011

Finalmente assinei

Sábado passado, na Fundação Gulbenkian, estava um grupo a pedir assinaturas para uma proposta legislativa para revogar o famigerado Acordo Ortográfico (ILCAO). Durante muito tempo encolhi os ombros perante um acordo que não tencionava (nem tenciono) cumprir, mas o facto é que me irrita ler coisas como espetadores ou setor - por isso assinei.

Ainda me aborrece mais a ignorância que não tem nada que ver com o dito acordo, que desconhece o verbo haver, que troca acentos, que hifeniza onde não deve, sobretudo quando a encontro onde não esperava. Não estou a falar das gralhas de quem escreve a correr atrás do pensamento e não tem tempo para corrigir, embora essas também me façam tropeçar na leitura. Já não me incomoda que alguém, sabendo o que faz, escreva num estilo particular, sem maiúsculas ou sem pontuação, como não me incomoda a escrita própria das mensagens de texto nos telemóveis, desde que a elas se limite.

Nunca estudei por traduções brasileiras; a grafia brasileira e o frasear brasileiro só me são agradáveis na versão original - e muito boa escrita se faz em português do Brasil. Mas ler em jornais portugueses ação e fato é muito mau; pior será quando encher livros de quatrocentas páginas.

26 comentários:

Paulo disse...

Subscrevo na íntegra.

luisa disse...

Demorei bastante tempo até optar por tentar escrever com a nova ortografia. Tinha muitas dúvidas e chocava-me ver as palavras sem as consoantes mudas (ainda não me habituei completamente...) mas concluí que será um processo inevitável e que de pouco adiantará nos escandalizarmos com esta mudança. Também deixámos de escrever como os nossos antepassados do início do século XX e já ninguém reclama se escrevemos farmácia e não pharmácia.

Paulo disse...

Não se trata de nos escandalizarmos. Eu não gosto da ortografia que estão a impor-nos e que me obriga a corrigir mentalmente todos os textos que seguem o acordo. Por isso, tenciono não o cumprir.

Mário disse...

Bem vinda ao clube, Gi. Resistência activa, pelo menos pela nossa própria auto-estima.

mfc disse...

Olha... eu também assinaria!

FanaticoUm disse...

Estou totalmente de acordo, também já tinha assinado e também não tenciono cumpri-lo. Esta nova grafia vai muito além do simples abate das consoantes mudas (e não são todas, por exemplo recepção continua a ser recepção e não passou a receção, por que será?... É fácil adivinhar). E pegando num dos exemplos que escolheu, espetador é, à falta de melhor explicação, aquele que espeta!

Gi disse...

Luisa, talvez eu me habitue, mas por enquanto é-me esteticamente desagradável.

Paulo, o problema é mesmo não gostar, porque não me custou por exemplo deixar de usar certos acentos, lá pelos anos setenta. Além disso acho que podemos mudar o que nos parecer bem sem acordos parvos.

Mário, eu resisto, eu resisto...

Mfc, fazias bem :-)

FanaticoUm, não sabia que recepção ficava igual, até estou a gostar mais da palavra :-D

bettips disse...

Gi de amigos comuns: á-de aver erros e ortographias. Há-de haver gente que leu, sem mácula, os escritores brasileiros há décadas, sem tropeçar e entendendo tudo tal como leu Camões e estudou Latim. Haverá textos como há estórias e histórias.: melhor fariam em corrigir como dizes, o que apressadamente escrevem, em tvs, em jornais, em livros onde encontro cada vez mais gralhas. Gente a prazo, não por favor. Grafias novas aceito, palavras novas e evolutivas, aim. Imposições de atos e fatos, NÃO!
Abç

luisa disse...

Não pretendo assumir-me como defensora do acordo ortográfico, nada disso... mas há por vezes alguns equívocos sobre esta matéria. Pegando no exemplo da palavra receção... ela só se mantém recepção na norma brsileira, porque no Brasil o p é pronunciado. Na norma lusoafricana o p cai porque não é pronunciado. Fica esquisito ... pois fica, mas mais dia menos dia habituamo-nos.

Gi disse...

Bettips, parece-me que estamos de acordo. Obrigada pela visita :-)

Luisa, não lhe acontece agora, como a mim, por causa do acordo, hesitar em algumas palavras e ficar na dúvida se habitualmente pronuncia ou não certas letras? ;-)

Catarina disse...

Nesta altura, já será um pouco tarde.
As línguas vivas sofrem alterações... É tudo uma questão de hábito. Para quem está ainda relutante verá que daqui a um ano ou dois achará que a sua forma de escrever está completamente “fora de moda”. : )

Gi disse...

Pode ser, Catarina. O meu avô escrevia "fora de moda" e eu achava graça :-)

astro disse...

Estou plenamente de acordo. Só falta acrescentar o "meu" ódio de estimação: os apóstrofos, agora tão em voga nos plurais de siglas, coisa que nem devia existir, e muito menos com o raio do apóstrofo lá pespegado. Que irritante que aquilo é!

GMaciel disse...

Bom, se me é permitida a colherada, começo por dizer que sou visceralmente contra este AO e recuso-me terminantemente a abastardar a minha escrita.

Explicada a minha posição, vejamos outro problema deste AO: a sua ineficaz explicação. Assim, recepção só não perde o "p" no Brasil porque, dizem, sempre o leram, mas em Portugal cai. Facto e Pacto não perdem a consoante porque nunca foi muda, ou seja, sempre se leu e continuará a ler-se e a escrever-se.

Sinceramente, se a ignorância campeava em termos linguísticos, agora a coisa vai piorar dramaticamente, por isso mesmo fujo a sete pés de tudo o que vem escrito em "brasoguês".

cumprimentos cordiais

Isabella Fortunato disse...

Sou brasileira e (quase)doutora em linguística pela Universidade de Coimbra.

Não aceito o acordo, pois acho que temos menos em comum do que imaginamos, sobretudo em matéria de língua. também não acho que ganhamos algo ao assinar um acordo ortográfico. Cada um segue seu rumo cultural desde que fomos descobertos e não acho que agora assinar um acordo vai nos aproximar em alguma coisa. A distância continua é é bom que seja assim. Um para um lado outro para o outro.

Temos, no Brasil, uma reforma ortográfica em curso e isso já era para ter acontecido há 20 anos. Onde os portugueses entram numa reforma que é NOSSA, isso eu não sei.

Espero mesmo que esse acordo seja revogado, estou nessa luta junto com vcs!

impensado disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
impensado disse...

A ILC pode ser assinada sem sair de casa!
Instruções aqui: http://ilcao.cedilha.net/?p=313

CM disse...

Diz luisa que nos habituamos. Parece que nos habituamos com mais facilidade ao que é mau. Habituámo-nos a 48 anos de ditadura, habituamo-nos a ser o país mais analfabeto da Europa, habituamo-nos à bancarrota, à corrupção, a tudo. Até a que sejam assinados tratados sobre ortografia que desrespeitam, sem nada explicar, os pareceres oficais que se pronunciaram unanimemnte contra ele!
Parece que custa mais habituarmo-nos a pensar e a exigir que nos respeitem e à nossa cultura...
Escrever farmácia é uma evolução? E porquê, exactamente? Está mais próximo da «oralidade»? Se se lê da mesmíssima maneira! E que critério é esse? Algo de caduco, um pouco bronca, que faz da ortografia uma transcrição fonética e se baseia em visões totalmente ultrapassadas, de há 180 anos!
(E, aliás, o Malaca Casteleiro é primeiro a confessar que o «acordo» nada tem a ver com linguística, que é tudo política, só política...
Mas, podemos dizer, os resultados foram bons. Mas não! De que serviu o "golpe ortográfico" de 1911? Em Portugal passou-se a escrever farmácia e filosofia que em Inglês se mantém, hoje, Philosophy, na Alemanha Philosophia, em Francês Philosofie... O estudo e a produção de conteúdos filosóficos melhoraram em Portugal? E as outras línguas, por que motivo não «evoluem»? O inglês e o francês têm a mesma ortografia há 250 anos! Será que não evoluem? Será por serem línguas pouco cultas?
Quando há uns anos em França se falou de uma «reforma» - uma coisa quase imperceptível quando comparada com o crime daqui - os 5 prémios Nobel franceses vivos reagiram de imediato, e com eles universidades, editoras... Em que somos diferentes? Não será o grande atraso cultural que faz com que seja visto como tolerável e até como «melhoramento» o que é um golpe na cultura portuguesa (que a ortografia reflecte, necessarimente)?
Não será antes o que nos querem impor degradação e involução, tudo permitido pela falta de cultura democrática?
Mudar a grafia de milhares de palavras e criar mais uns milhares é facto inédito na história universal! Os países de língua espanhola celebraram um verdadeiro acordo sobre ortografia e mudaram 7ou 8 palavras (sic!). Mesmo assim, houve reacções... e o acordo é facultativo. Para verem o tipo de mudanças, uma dela é aconselhar que se escreva Catar em vez de Qatar. E há mais meia dúzia do mesmo género...
E que tal se nos habituássemos a pensar nestas coisas?
Já repararam que os políticos que nos querem impingir a ortografia brasileira de 1930 (disso se trata, essencialmente) foram os que nos conduziram à bancarrota?

CM disse...

Quanto à norma portugesa e africana: Angola e Moçambique não ratificaram o acordo.

Ainda sobre ratificações: a actividade do estado pode exercer-se sobre estas questões? Embora não seja um facto natural o idioma tem leis próprias que nenhum governo tem legitmidade para alterar e muito menos negociar com países estrangeiros.
Lamentável que não haja um esforço para acabar com o analfabetismo, um flagelo em Portugal e no Brasil - que se encontra muito abaixo do Zimbabué no que diz respeito a alfabetização da população - ao invés de se gastarem milhões ao serviço de vaidades nacionalistas.

Rogério Maciel disse...

Isabella Fortunato não concordo abslutamente que Portugal e Brasil tenha pouco em comum ...isso não é verdade .Portugal e Brasil , ainda farão Grandes coisas devido precisamente ao (Pro)Fundo Cultural Comum , mas só quando tudo Regressar ao que é natural... mas , em relação ao AO , Absolutamente de Acôrdo ! Na Língua de cada Nação não se meche !O Brasileiro é originário do Português e deve seguir o sêu próprio rumo ... a Alma do Brasil fala e escreve dessa maneira e a Alma de Portugal Desta !Querêmos a Nossa Língua pois cada Nação exprime-se de forma Diversa ... foi assim que Dêus Criou as Nações(como os sêres ...) .Como Expressão Individual e Diversa do SÊU VERBO !

Madalinês disse...

Um pequeno "pormaior" rectificativo... Ninguém estava a "pedir" (sic), estava sim a recolher assinaturas, o que é um pouco diferente... Com sinais identificativos desta causa da ILC-AO, éramos nós os interpelados, não interpelámos ninguém...

Estamos aqui, os angariadores de (angariadores de) assinaturas da Iniciativa Legislativa de Cidadãos (ILC) para revogação do (des)Acordo Ortográfico:
http://www.facebook.com/event.php?eid=302970799718727

"Gi" e restantes amigos, ficamos gratos pela partilha e, sobretudo, pela "resistência ortográfica" activa. Ainda mais do que nós, estou crente, é o futuro da Língua Portuguesa que agradece... :)
Abraço activista!

Luis K. W. disse...

Para mim este «acordo» é aBjeCto.
No que toca ao «acordo», sou oBjeCtor de consciência!
A manter-se o «acordo» os nossos filhos serão analfabetos em línguas europeias.
Aquilo que hoje é um trunfo profissional de muitos portugueses (o conhecimento de várias línguas europeias), vai tornar-se numa lacuna.

Joao Quaresma disse...

Para mim, o tuning deve ser reservado aos automóveis e mesmo assim com contenção. O maior problema da lógica que está por trás do AO é de que se deve escrever como se diz, quando é precisamente o contrário: deve-se dizer como se escreve, senão a grafia passa a depender da pronúncia e dos erros praticados. É absurdo que se ande a mudar a grafia e é ainda mais revoltante que o Estado se comporte como proprietário da língua sem pedir autorização e opinião aos portugueses.

Pela minha parte, e como já tenho escrito, não cumpro, não compro e não aceito que vigore o AO.

luisa disse...

Gi,
Claro ... as dúvidas são muitas e tenho que me socorrer do dicionário com maior frequência.

Vejo que nesta caixa de comentários se luta de forma acesa contra a nova ortografia. Mantenho que não considero que este seja um tão grande mal e certamente não é o maior problema do nosso país e com franqueza não percebo o que perdemos por ter passado a escrever farmácia com f.

De qualquer forma julgo que em acordo ou em desacordo este não deve ser um motivo de desunião. :)

Paz.

Fernando Vasconcelos disse...

Pois eu infelizmente por obrigação terei de o seguir ... Mais do que a modificação da grafia o que me irrita é a inutilidade do acordo. este não vai modificar nada (e felizmente) na maneira como nós portugueses escrevemos, não muda a maneira deliciosamente diferente como os brasileiros escrevem nem a dos vários países africanos de expressão portuguesa. Não muda o vocabulário próprio de cada país , por outras palavras não muda nada de relevante até porque não existe nada de relevante que impeça o nosso entendimento mutuo. Vamos então acordar o quê e para quê? Um texto brasileiro permanecerá indiscutivelmente brasileiro mesmo que com uma grafia um tudo de nada mais parecida, um texto angolano continuará angolano e um português português. Tudo na mesma língua de Camões. Acordo inútil e irrelevante melhor teria sido gastar esse esforço em fomentar os intercâmbios culturais que esses sim poderiam alimentar o espaço da nossa língua comum.Em suma mais do que as mudanças irrita-me quando são frívolas e inúteis como é o caso.

Gi disse...

@todos, as minhas desculpas pelo atraso na resposta e pela falta de acentos.

Astro, tambem ja vi apostrofos nos lugares mais despropositados, e horrivel.

GMaciel, tambem acho que este acordo, em vez de simplificar, complica.

Isabella Fortunato, eu nao gostaria que o Brasil e Portugal fossem um para um lado outro para o outro de costas voltadas, mas nao acho que este acordo nos aproxime.

Impensado, obrigada por lembrar e pelo link.

CM, sem duvida que nao e este acordo que vai resolver o problema do analfabetismo - absoluto ou relativo.

Rogerio Maciel, e verdade que as diferencas na lingua reflectem diferentes realidades culturais. Mas nao me diga que acha que as nacoes foram criadas por um deus.

Madalines, o termo que usei foi incorrecto, mas nao foi por mal. Nao o corrijo agora para o seu comentario nao perder a pertinencia.

Luis K. W. nao me parece que o acordo diminua a capacidade de os portugueses aprenderem linguas estrangeiras, embora perceba que pode haver um empobrecimento da compreensao das raizes culturais europeias.

JQ, como de costume, toca num ponto importante: deveriamos corrigir a maneira de falar e nao facilitar a maneira de escrever.

Luisa, tem razao, que nao seja o AO a criar desunioes. Paz, com certeza.

Fernando, ai esta uma boa definicao para este acordo: frivolo e inutil.

Um abraco a todos, bem hajam pela participacao.