terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

A questão da burqa

Notícia d'Al Jazeera:

UPDATED ON:
Tuesday, February 09, 2010
17:56 Mecca time, 14:56 GMT

CENTRAL/S. ASIA
Afghanistan in need of policewomen
(...)
Many Taliban fighters - dressed as women in a burqa - have infiltrated city check points with weapons and explosives hidden underneath their dress.
(...)


Notícia do Diário de Notícias:

Paris
Entram no banco, tiram o véu e dizem: "mãos ao ar"
por Hugo Coelho Hoje
Correu tudo como planeado...
Os foras-da-lei chegaram com burqas que os tapavam da cabeça aos pés.
Os seguranças do banco tomaram-nos por muçulmanas e abriram as portas do banco para as deixar passar.
No interior, os criminosos levantaram os véus, sacaram das armas e gritaram: "mãos ao ar".
O crime foi cometido sábado num balcão do banco Athis Mons, no sul de Paris.(...)


Para mim a discussão sobre a burqa não tem razão de ser: pode-se levar o dia inteiro a falar de tradição, direitos das mulheres, tolerância, integração, o que se quiser. Mas a questão que se deve pôr é a da segurança. Perguntem às pessoas como podem ter a certeza de que a criatura tapada da cabeça aos pés que acabou de entrar na escola dos filhos é uma professora, e não um/a bombista suicida.

O véu a tapar o cabelo é uma coisa. A burqa? Não, obrigada.

6 comentários:

Paulo disse...

Além disso, se o que está em causa é o direito aos usos e costumes, à tradição, à religião, ou ao que se lhe queira chamar, o que manda a nossa tradição europeia? Que as pessoas se reconheçam pelo rosto. Há milénios que este é um aspecto fundamental na civilização dita ocidental. Como se deve comportar um Europeu num país muçulmano? Respeitando as suas leis. Ou isto será muito complicado?

Mário disse...

E não é só a nossa segurança que está em jogo, é a delas também: sabia que nas cidades as mulheres de burqa são frequentemente atropeladas nas ruas por não verem nada ? É inacreditável, mas estes números não divulgam eles !

Maria Carvalho disse...

Não é tradição europeia não cobrir o rosto. Isso é natural, não se nasce vestido. Tradição é velá-lo em alguns contextos, como antigamente o véu feminino durante a missa.

Se entendemos que não se podem defender actos ou leis que violam direitos fundamentais com base na tradição - sejam eles touradas, o casamento só para pessoas de sexos distintos ou o uso da burqa - é errado recusar a burqa em nome de alguma tradição europeia.

A segurança é um argumento pertinente, mas não pode escamotear outra razão para nos opormos à burqa: esta capa nega à mulher uma identidade; é um símbolo de subserviência, de aviltamento e depreciação da mulher. É verdade que, proibindo-a, se está a dificultar a assimilação de culturas, mas o significado desta roupa (que não é religioso; é defendido como norma sagrada pelos homens que acham que a esposa é objecto na posse do marido) não pode ser aceite nas sociedades que respeitam a igualdade de direitos.

Gi disse...

Paulo, Maria, muitas mulheres que usam burqa acham que esta as defende dos olhares de estranhos, e é assim que ela lhes é apresentada.
Se falarmos a estas mulheres de direitos, suspeito que muitas não compreenderão e que os homens delas também não. Mas se lhes falarmos de segurança, não sei como poderão contra-argumentar.

Mário, não fazia ideia.

Paulo disse...

A Helena (2 Dedos de Conversa) tem escrito textos muito esclarecedores, e com grande conhecimento de causa pois ela vive em Berlim, sobre a questão da burqa. Não faço ligação para nenhum em particular porque todos devem ser lidos.

Se em vez de tradições falarmos de valores civilizacionais, talvez fique mais claro o que eu pretendo dizer. Para nós (mim), não esconder o rosto é um valor civilizacional. Cobrir o cabelo com um véu como a minha mãe fazia há quarenta anos para ir à missa era uma tradição de cariz religioso.

Antes de continuar, devo dizer que defendo o Estado laico e que permita todas as práticas religiosas.

Também concordo com a Maria, com a Helena e com a Gi. Todos os aspectos são importantes nesta discussão. No entanto, para mim está em causa ainda um outro ponto que considero de grande importância: os fundamentalismos islâmicos estão a alastrar na Europa, os fundamentalismos cristãos também estão a crescer e eu não gosto mesmo nada de ver esta espiral a adensar.

O que para mim não é complicado - que se respeitem tradições/valores do país ou do povo que nos acolhe (onde incluo, obviamente, neste caso, a dignidade da mulher) - parece sê-lo para muita gente. Daí eu não vislumbrar para esta questão uma solução pacífica e que não fira susceptibilidades.

Gi disse...

Paulo, ainda bem que mencionaste o 2 Dedos de Conversa, também tenho gostado de ler os posts da Helena sobre a burqa. O problema quando se defendem tradições é que há muitas e com valores diferentes (como aliás refere a Maria ao chamar a atenção para tradições nossas que mais vale não manter).

A tolerância é uma coisa muito bonita mas talvez também tenha limites, como a liberdade. Por isso concordo contigo em que provavelmente não haverá uma solução pacífica (no sentido de consensual) para esta e outras questões.