sexta-feira, 17 de abril de 2009

Portugal (im)produtivo?

Estou a ler O Medo do Insucesso Nacional, do Álvaro Santos Pereira, um estudo escrito de maneira muito clara e simples sobre a economia portuguesa, o que nela vai mal e o que se pode melhorar.

O Álvaro recusa-se a acreditar que temos o destino traçado por sermos o povo pouco instruído, desorganizado e corrupto que somos. Acha que podemos modificar-nos e sair do atoleiro. Eu também gostaria de acreditar que sim, mas tenho muitas dúvidas. Mas isso é outra conversa.

O que mais forte me tocou neste livro até agora foi o capítulo sobre a produtividade, que é logo um dos primeiros. Finalmente percebi que os lamentos gerais sobre a fraca produtividade dos trabalhadores portugueses passam ao lado do problema, porque a produtividade não se mede em número de horas de trabalho, nem sequer em número de objectos ou serviços executados, mas sim em dólares ou euros que esses objectos ou serviços valem.

Ou seja: se um trabalhador se esforçar à brava e trabalhar doze horas em vez de oito para produzir (um exemplo parvo) quatro Volkswagen Polo 1.2* em vez de três, será menos produtivo do que outro que trabalha oito horas e produz um único Porsche 911 Turbo**, porque este representa muito mais dólares ou euros.

Por conseguinte, não são os trabalhadores portugueses que são pouco produtivos mas sim as empresas portuguesas. A solução não está em exigir dos trabalhadores ritmos acelerados se continuarmos a apostar em produtos de pouco valor. O que vale a pena é criar produtos inovadores, de qualidade, cuja imagem possamos promover, e que os consumidores estejam dispostos a valorizar.

É isto, não é, Álvaro?


*Preço do VW Polo 1.2 em causa: 14,835€ segundo o Guia do Automóvel online
**Preço do Porsche Turbo Cabrio: 190.280€ segundo a mesma fonte

7 comentários:

Paulo disse...

O exemplo parvo explica esta história muito bem. Acho que deve ser tal e qual.

Gi disse...

Espero que não haja dúvidas que o exemplo parvo é meu :-)

Van Dog disse...

Também me parece. O problema está mais na gestão...

Gi disse...

Na gestão ou na estratégia, VD.

Joao Quaresma disse...

Por essa razão é que na relação tempo - produtividade, o país com a mão de obra mais barata do Mundo não é a China nem o Vietname, mas sim o Canadá.

Oh yes.

E é por isso é que Portugal, ao contrário do que se apregoa, não é um país de mão de obra barata.

Alvaro Santos Pereira disse...

OLá Gi

Obrigado pelos comentários e pela simpática publicidade ao meu novo livro.
Pois, em relação à produtividade, o que interessa é o que se produz numa hora (ou num determinado período). Ou seja, o que interessa é o valor acrescentado das actividades realizadas. Os economistas dizem muitas vezes que não é indiferente se produzimos potato chips (batatas) ou computer chips... A Ucrânia é uma grande exportadora das primeiras e Taiwan dos segundos e vê-se bem onde está um e outro...

O que é importante perceber de uma vez por todas é que só pode haver subida sustentada dos salários se nos tornarmos mais eficientes ou produtivos. Quando aumenta a produtividade, produzimos mais e trabalhamos menos. É por isso que é tão importante reformarmos a Educação (para sermos mais produtivos), e melhorarmos as nossas práticas organizativas e incentivos económicos.
Obrigado.

Alvaro

Antonio disse...

Olá Gi

Boa observação. Como diz um teu visitante o problema é das empresas portuguesas que são pouco produtivas ou como diz o Àlvaro, nós acrescentamos pouco valor acrescentado aos produtos.

Isto acontece porque Portugal é uma marca branca. Lá fora desconhece-se quase tudo sobre Portugal e de uma forma geral não há a ideia que por cá se fazem coisas invejáveis. Por isso a marca Portugal não cria valor acrescentado. Aldrabe-se e ponha-se uma indicação de Made in Italy nuns sapatos feitos por cá. Isso cria logo valor acrescentado aos sapatos. Da mesma maneira que o crocodilo ou o cavalinho com o jogador de polo aumentam exponencialmete o valor das camisas polos. Por isso a persistência da ASAE nas visitas às Feiras.

Mas essa falta de capacidade de criar uma imagem de portugal, a tal marca Portugal não acontece por acaso. E como cada um tem aquilo que merece, nós temos a imagem de um país que não tem imagem.

Continua a ler e a comentar temas económicos porque pareces ter jeito para o assunto.

Antonio